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poesia

Tradução do poema ‘Les Animaux et leurs hommes’ de Paul Élouard

Publicado em 24 de agosto de 2012 por Olegario Schmitt

 

Os animais e seus homens

Paul Éluard

Não se conduz a vaca
Ao campo raso e seco,
Ao campo sem carícias.

O pasto que a recebe
Deve ser suave como um fio de seda,
Um fio de seda doce como um fio de leite.

Mãe ignorada,
Para as crias, ele não é o almoço,
Mas o leite sobre a relva.

A erva face à vaca,
A cria face ao leite.

Tradução: Olegario Schmitt

 

 

Les Animaux et leurs hommes
Paul Élouard

On ne mène pas la vache
À la verdure rase et sèche,
À la verdure sans caresses.

L’herbe qui la reçoit
Doit être douce comme un fil de soie,
Un fil de soie doux comme un fil de lait.

Mère ignorée,
Pour les enfants, ce n’est pas le déjeuner,
Mais le lait sur l’herbe

L’herbe devant la vache,
L’enfant devant le lait.

In: Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux

A história de uma infanta nada infantil

Publicado em 12 de março de 2007 por Olegario Schmitt

Crianças vítimas das minas - Francesco Zizola

gilda, Seus Olhos e Seu Sorriso


era uma nega fulô
à qual chamavam de gilda.
e para ela rir gostoso
os três meninos faziam-lhe cócegas:
um na sola dos pés,
o outro no sovaco,
e o outro na barriga.

depois um dedo no umbigo,
catar piolho na floresta miúda de pelos…
e aquele cheiro
de fruta suculenta e úmida
enchendo o ar
enchendo os sentidos
enchendo as cuecas…

em troca
eles lhe davam
as suas sementes.

e ela lhes devolvia
o seu olhar vazio
e o seu sorriso
sem dentes.



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Para ti, “que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite”…

Publicado em 03 de outubro de 2005 por Olegario Schmitt

Máscara da Alegria Eterna

Pedro, Lembrando Inês

Nuno Júdice


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor;
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


In: Pedro, Lembrando Inês, Ed. D. Quixote, 2001

A vida ensinou-lhe a ser dura e deu-lhe uma casca

Publicado em 12 de maio de 2005 por Olegario Schmitt

Casca

Para Nalú Nogueira

A vida deixou-a cansada.
Arriscou esperança. Não deu.
Tentou ilusão. Falhou.
Tentou golpes altos. Colheu desencanto.
A vida ensinou-a a ser dura
e deu-lhe uma casca.
Era o que se via através da face inexpressiva
e dos olhos parados olhando para o nada.

Mas por dentro era um vulcão,
por dentro rio caudaloso pedindo vazão.
E o pensamento voava através dessa casca,
não se sabia ao certo pra onde.
Tentou desespero, derrotando a felicidade.
Permitiu a vasta tristeza.
Colheu o que plantou.
Ela, que tanto gritou, que tanto lutou,
diante da derrota temporária decidiu ceder.
Os olhos penderam, o riso calou, o peito doeu, perdeu-se.

Parou.

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Quando Pandora abre o baú e saem de dentro dele todos os males do mundo, a esperança, sabemos, fica presa na borda.

Publicado em 12 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Le Bahut – 13/05/1958
Jornal editado pelos formandos do Liceu E. F. Gautier (Paris)

Nos momentos de vazio criativo — que podem durar meses, até anos — pelo qual todo escritor passa em algum momento da vida, é interessante ficar remexendo nos “baús”, à procura de pérolas esquecidas. Essa atividade acabará, por via de regra, levando ao reencontro de todos aqueles lixos tenebrosos ou inacabados, para os quais não houve coragem suficiente de torná-los públicos.

Tarefa mais interessante ainda — podendo, no entanto, mostrar-se extremamente dolorida e vergonhosa — é reler os primeiros cadernos de poesia. Entre absurdos literários e verdadeiros atentados à poética, pode-se acabar encontrando verdadeiras pérolas.

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“Deus em cada criatura. Nesse labirinto puro está teu reflexo.”

Publicado em 10 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Encontro de Cristo com a Mãe - Victor Brecheret (Déc. 1940)

A Moeda de Ferro

Jorge Luis Borges

Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos
as duas faces contrárias que serão a resposta
da pergunta teimosa que ninguém se fez:
Por que um homem precisa que uma mulher o queira?

Olhemos. Na órbita superior entrelaçam-se
o firmamento quádruplo que sustenta o dilúvio
e as inalteráveis estrelas planetárias.
Adão, o jovem pai, e o jovem Paraíso.

A tarde e a manhã. Deus em cada criatura.
Nesse labirinto puro está teu reflexo.
Joguemos novamente a moeda de ferro
que também é um espelho magnífico. Seu reverso
é ninguém e nada e sombra e cegueira. Isso és.
De ferro as duas faces lavram um só eco.
Tuas mãos e tua língua são testemunhas infiéis.
Deus é o centro intangível da aliança.
Não exalta nem condena. Obra melhor: esquece.
Maculado de infâmia por que não haverão de querer-te?
Na sombra do outro procuramos nossa sombra;
no cristal do outro, nosso cristal recíproco.

In: La moneda de Hierro (1976)
Tradução: Olegario Schmitt

Palavras são coisas boas para encucações

Publicado em 09 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Artista Desconhecido - Instalação na XXIV Bienal de São Paulo

palavras são coisas boas para encucações.
um dia uma palavra me deixou de cabelos brancos.
idiossincrasia era o seu nome e foi uma amiga quem me deu,
significa uma sensação ambígua feita para o vôo livre.

tem palavra que deixa você mais velho de tanto pensar,
principalmente se tiver mais de uma dúzia de letras.
aí você fica velho só de ler. portanto se você ler “árvore”
e não se desfolhar acabará perdendo um fio de cabelo.

palavras fazem muito sexo entre si. quando elas se juntam
é quase como uma suruba, só que literária.
daí é que nascem os contos e as cartas de suicida.
é quase como uma arma: depende de quem utiliza.

num passarinho com penas no bico a palavra “vôo”
perdeu o sentido, então o pássaro cantou.
uma borboleta passando ficou com ciúmes
de tanta abstração e perdeu o impulso.

o vôo das borboletas é quase como o vôo de uma bala,
só que não faz barulho para decolar. se fizesse, espantaria o pássaro.
se fizesse, a palavra acertaria o seu alvo e você ficaria mais velho.
quer saber? é melhor nem pensar.

Olegario Schmitt

30-07-2003

Três Jorges e um Borges

Publicado em 09 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Índio com Arco-e-Flecha - Ottone Zorlini (1950)

Para uma versão do I King

Jorge Luis Borges

O porvir é tão irrevogável
Quanto o rígido ontem. Não há uma coisa
Que não seja letra silenciosa
Da eterna escritura indecifrável
Cujo livro é o tempo. Quem se distancia
De sua casa já voltou. Nossa vida
É a senda futura e percorrida.
O rigor teceu a madeixa.
Não te desvies. A masmorra é escura,
A trama firme é de incessante ferro,
Mas em algum recanto de teu fim
Pode haver uma luz, uma fenda.
O caminho é fatal como a flecha,
Mas nas frestas está Deus, que espreita.

In: La moneda de Hierro (1976)

Tradução: Olegario Schmitt


Uma chave em East Lansing

Jorge Luis Borges

Sou uma peça de aço limado.
Meu borde irregular não é arbitrário.
Durmo meu sonho vadio num armário
Que não vejo. Sujeita ao meu chaveiro
Há uma fechadura que me espera.
Uma só. A porta é de ferro
Forjado e cristal firme. Do outro lado
Está a casa, oculta e verdadeira.
Altos na penumbra os espelhos
Desertos vêem as noites e os dias
E as fotografias dos mortos
E o ontem tênue das fotografias.
Alguma vez empurrarei a porta
Dura e farei girar a fechadura.

In: La moneda de Hierro (1976)

Tradução: Olegario Schmitt


Um Sonho (Ein Traum)

Jorge Luis Borges

Sabiam-no os três.
Ela era a colega de Kafka.
Kafka a tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me queiras.
Sabiam-no os três.
O homem a contestou: Se pecamos,
Kafka deixará de sonhar-nos.
Um o soube.
Não havia mais nada na terra.
Kafka disse para si mesmo:
Agora que se foram os dois, fiquei só.
Deixarei de sonhar-me.

In: La moneda de Hierro (1976)

Tradução: Olegario Schmitt

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