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Os gritos de torcida e a catarse velada da homossexualidade latente

Publicado em 16 de maio de 2013 por Olegario Schmitt
Frutinhas

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O jogo do Corinthians ontem pelas oitavas de final da Libertadores chamou atenção para algo que apenas um surdo não perceberia: a infinidade de homens, torcendo por este time ou contra ele, gritando alucinados nas janelas dos edifícios: “chuuuupaaaaaa! Chupa que é de uvaaaa”.

Ah, as coisas que as pessoas fazem e dizem sem ter a mínima idéia de tudo o que deixam escapar pelas frestas, à disposição das interpretações do observador mais atento… Você já parou para pensar no que significa realmente a expressão “chupa que é de uva”?

A origem dessa expressão está na música homônima de uma banda de forró eletrônico chamada “Aviões do forró”, lançada em 2009:

“Na sua boca eu viro uva.
Chupa que é de uva.
Chupa. Chupa. Chupa.
Chupa que é de uva”.

A esse ponto, dadas as referências, acho que já é possível deferir o contexto sócio-cultural onde isso tudo se encerra.

Para que não se diga que isso tudo é coisa da minha cabeça, Luizane Schneider, mestre em Processos Lexicais, Retóricos e Argumentativos,  afirma que “[chupa que é de uva] sesexo oral refere ao sexo oral”, acrescentando que “O verbo chupar no modo imperativo indica que o homem está impondo sexo oral à mulher. Considerando-a um ser inferior e de fácil acesso, que pode ser facilmente iludida[…]”.

Me desculpem a baixeza da afirmação, mas tratar mulher como objeto sexual e não como um ser humano é coisa de viado. Psicologicamente, há vários processos envolvidos em tal postura. Ao subjugar a mulher, o homem reafirma para si mesmo sua superioridade, seu poder, e também sua própria masculinidade. Deixando de lado os conceitos complexospsicologia da viadagem e usando uma linguagem extremamente simplória: macho que é macho tem plena consciência de si mesmo. Se não houvesse nele qualquer sombra de dúvidas, seja quanto a sua heterossexualidade ou quanto à sua superioridade/poder/igualdade, não precisaria afirmar e/ou reafirmar qualquer coisa que fosse nesse sentido. Donde se infere o óbvio: além de ser coisa de viado, diminuir as mulheres é coisa de frouxos que, consciente ou inconscientemente, se sabem frouxos.

A origem dessa expressão está, portanto, envolvida na questão do exercício de poder sobre a mulher, pois a música é cantada por um homem. A coisa muda um pouco de figura, no entanto, quando homens gritam-na para outros homens, com toda força de seus pulmões, das janelas dos edifícios ou das arquibancadas dos estádios.

Na sociolinguística há algo conhecido como “inferência”. Segundo Holanda (2001), inferênciainferência é “deduzir pelo raciocínio”. Beaugrande e Dressler afirmam também que a inferência “consiste em suprir conceitos e relações razoáveis para preencher lacunas e descontinuidades de um mundo textual”.

Através da inferência ela mesma é possível se chegar a toda sorte de conclusões. Voltando à gritaria de ontem, basicamente o que cada homem estava gritando para os outros homens do(s) time(s) adversário(s) era: “faça sexo oral em mim”. Ora, como se sabe, estando dois homens envolvidos em tal atividade, não importando aí quem faz e quem recebe, ambos são igualmente homossexuais. Ou, ao menos, estão homossexuais.

Pode-se, obviamente, dizer que era “mera força de expressão” visando demonstrar/exercer poder sobre a torcida adversária, não havendo aí, portanto, qualquer fundo fatídico ou real.

Mas dizem Sperber & Wilson (2001) que “a comunicação é feita pela pessoa que comunica ao fornecer evidência de intençõesuma evidência de suas intenções, e pelo ouvinte a inferir as intenções dele a partir dessa evidência” e que “a comunicação inferencial ostensiva consiste em tornar manifesto a um receptor, a intenção de se tornar manifesto em nível básico de informação”.

Ou seja, nada realmente muda o fato de que homens estão gritando para outros homens que lhes façam sexo oral e estabeleçam, dessa forma, relações homossexuais consigo. catarseNão se trata de juízo de valor, assim como também não importa o pretexto utilizado: nenhuma das possíveis inferências, com todos seus contextos sócio-culturais, muda o fato de que é exatamente isso o que está sendo não apenas dito, mas gritado em forma de catarse.

“Na sua boca eu viro uva” “Chupa que é de uva”, gritavam os corinthianos de um lado. “Senta que é de menta”, respondiam os adversários de outro. E, por momentos podia-se chegar a pensar que não se tratava, afinal, de futebol. Pois que da próxima vez façam o favor de arrumar uma cama e de deixar meu silêncio em paz!

 

 

BEAUGRANDE, Robert-Alain de; DRESSLER, Wolfgang. apud NETO, Reginaldo Nascimento. Inferências: a força persuasiva do dito pelo não dito no estabelecimento de comportamentos sociais. UNIOESTE, 2008.
HOLANDA, Aurélio Buarque de. Dicionário de Língua Portuguesa. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
SCHNEIDER, Luizane. A depreciação da mulher em inferências musicais. Link
SPERBER, Dan & WILSON, Deirdre. Relevância: comunicação e Cognição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

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