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Dos procariontes aos seres humanos, passando por Michel Teló

Publicado em 06 de maio de 2013 por Olegario Schmitt
Cabeça de porco

Cabeça de porco

Só para deixar claro, funk é cultura. Pode não ser cultura erudita (ou, se me permitem a redundância, “cultura culta”), mas definitivamente é cultura — da mesma forma que uma pintura, sendo ela boa ou ruim, ainda é arte plástica (não é, Nuno Ramos?). É como disse Arnaldo Antunes: “bactérias num meio é cultura”, de forma que até mesmo Arnaldo Antunes é cultura.

Deixando as bactérias de lado por enquanto, quantas vezes já ouvimos a expressão “nunca tive acesso à cultura”?… Pois bem, na segunda década do século XXI, 3Gs, 4Gs, falta de acessoinclusões digitais e etecéteras depois, todo tipo de cultura está ao alcance de um clique. A velha desculpa do “não ter acesso” a cada dia se mostra exatamente isso mesmo, uma desculpa. Não cola mais.

Ou o que levaria o vídeo mais visto da 5ª Sinfonia de Beethoven ter 16 milhões de acessos no Youtube durante o período de CINCO ANOS, em comparação ao funk “Ah Lelek Lek Lek Lek” com 34 milhões de acessos no período de TRÊS MESES? Falta de acesso à cultura?

“metarrefrão microtonal e polissemiótico”É fato inquestionável que, dos que tiveram acesso ao Youtube, a avassaladora maioria preferiu o (segundo Tom Zé) “metarrefrão microtonal e polissemiótico” grudento e rasteiro em detrimento às harmonias altamente sofisticadas, complexas e elaboradas da 5ª Sinfonia.

Sim, você pode usar aqueles argumentos fáceis e discursos prontos da filosofia de boteco sobre a deficiência da educação, o contexto sócio-econômico, a corrupção em Brasília, etc., etc.. E em partes isso até explicaria as dicotomias existentes entre um extremo e outro da escala da cultura… mas explicaria também “Ai Se Eu Te Pego” sendo a 6ª música mais vendida NO MUNDO em 2012, com seu respectivo vídeo tendo quase 500 milhões de acessos em um ano?

Como a educação e o contexto sócio-econômico explicariam o sucesso de Michel Teló na Europa, continente supostamente mais civilizado e mais culto que o nosso? Como se justifica mundo civilizadoo seu sucesso na mesma Europa mãe de Beethoven e Mozart e Shakespeare e Victor Hugo ou na Itália avó de Cícero e Sêneca, mãe de Vivaldi e Verdi, se isso não é nem mesmo justificável num país pai de Villa-Lobos e Machado de Assis? (E, convenhamos, Machado de Assis está acessível em todo canto por menos de R$ 10,00).

Não, não são as faltas de acesso, hábito, costume e/ou educação (enfim, cultura ela mesma) que justificam os sucessos Lelek/Ai se eu te pego: o que justifica isso tudo é a própria mediocridade humana.

Nós, seres humanos, parecemos conter em nós mesmos a tendência inata para sermos medíocres… “Medíocre”, aliás, não parece ser uma palavra muito adequada, pois lembra aquilo que é “mediano”, que “está no meio termo”, e a natureza humana manifestada claramente em nossas escolhas musicais está em sua imensa maioria mais para rasteira mesmo, como qualquer coisa que se arraste entre a lama e o brejo.

Assim sendo, não nos deixemos iludir pelos bilhões de anos que levamos para evoluir de procariontes até seres humanos. Não nos iludamos também pelas existências de Mozart ou Einstein. Apesar de serem da mesma espécie que a nossa, eles são excessões. amebas darwinianas: questão de DNAMichel Teló é o padrão (do contrário, não faria sucesso).

É como se ainda tivéssemos enraizados nas profundezas do nosso ser traços indeléveis do DNA daquelas mesmas amebas darwinianas, incrustados em nossos espíritos muito mais profundamente do que em nossos corpos.

“Do pó ao pó”, dizem o Gênesis e o Eclesiastes. Acrescente aí um pouco de água e teremos bastante lama para chafurdarmos a vida inteira entre um extremo e outro. E o que mais tem na lama, como sabemos, é cultura de bactérias! W. Churchill, que gostava de porcos, não me deixa mentir: “Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual”.

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