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Conto funesto, surrealista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo acabado de se por, a temperatura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ventilador de teto, de modelo antiquado e pás muito largas, gira vagarosamente sobre sua cabeça, mal e mal insinuando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes matizadas da rua vão tingindo lentamente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inseparável Suíte para Solo de Violoncelo.

A música preenche o ambiente com os timbres angustiantes daquele instrumento, cujo som ele acredita se assemelhar ao choro inconsolável que brota do fundo da garganta de uma viúva. É completamente tomado por mal de vivre um estado de torpor, parte causado pela própria temperatura, parte pelo mal de vivre que lhe acompanha desde sempre, monstrinho de estimação esse ao qual alimenta incessantemente com novos desestímulos, seja calor, música, ou pensamentos obscuros.

Afunda-se na poltrona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigorosamente do fundo de suas entranhas vai crescendo cada vez mais conforme se deixa invadir pelos acordes graves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pastoso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe fornece um dedo ávido o qual vai introduzindo com desespero e sofreguidão bem fundo“limpando o salão” no seu nariz. Em gestos circulares, cavouca o interior de seu septo buscando lá dentro alguma coisa, uma idéia escondida, uma lágrima solidificada, um pedaço do próprio cérebro que tenha escorrido pelas narinas, qualquer coisa que torne sua vida pior.

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Poema de Castro Alves, por ocasião do Dia da Poesia

Publicado em 14 de março de 2007 por Olegario Schmitt

I

Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.

Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.

Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo …

E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da espr’ança… Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! …

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A história de uma infanta nada infantil

Publicado em 12 de março de 2007 por Olegario Schmitt

Crianças vítimas das minas - Francesco Zizola

gilda, Seus Olhos e Seu Sorriso


era uma nega fulô
à qual chamavam de gilda.
e para ela rir gostoso
os três meninos faziam-lhe cócegas:
um na sola dos pés,
o outro no sovaco,
e o outro na barriga.

depois um dedo no umbigo,
catar piolho na floresta miúda de pelos…
e aquele cheiro
de fruta suculenta e úmida
enchendo o ar
enchendo os sentidos
enchendo as cuecas…

em troca
eles lhe davam
as suas sementes.

e ela lhes devolvia
o seu olhar vazio
e o seu sorriso
sem dentes.



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Não é uma faixa etária, é um direito

Publicado em 12 de outubro de 2006 por Olegario Schmitt

Criança
melhor do que brincar
é poder encher
a pança.

Que lição de vida pode ser apreendida a partir de um brinquedo?

Publicado em 12 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Buzz Lightyear do Comando Estelar - Disney-Pixar Studios

Personagem dos longas-metragens de animação gráfica Toy Story, Buzz Lightyear é um astronauta de brinquedo que acredita piamente conseguir voar de verdade e nada no mundo o convence de que o seu raio laser desintegrador não passa de uma inócua luzinha vermelha.

Tendo fé cega em si mesmo e em seu poder, consegue façanhas incríveis, salvando seus amigos das piores enrascadas além de, é claro, lutar contra o maldoso Imperador Zurg, inimigo da honestidade e da justiça.

Buzz Lightyear do Comando Estelar, “fé, força e coragem”um brinquedo, personagem de uma animação cômica voltada ao público infantil, nos ensina a ter fé e coragem, acreditando na sua própria força independentemente do que seja dito em contrário.

Seu lema, “Ao Infinito e além“, demonstra propósito firme na vida (o infinito) e inconformidade (lá chegando, ir além). Buzz, o amigão valente de brinquedo, também ensina outros valores imprescindíveis aos seres humanos de bom caráter, como auto-estima, respeito, lealdade e perseverança.

Sem esquecer de que para o espírito sedento por luz os grandes exemplos podem estar em qualquer parte, sejamos nós mesmos como pequenos Buzz Lightyears de verdade e, parte do mesmo Comando Estelar, levantemos nossas cabeças rumo ao infinito, seguindo sempre além.

Conto infantil

Publicado em 03 de fevereiro de 2005 por Olegario Schmitt

O circo ensina as pessoas a rir

da ingenuidade perdida dos animais.

Nesse caso, a “humanização” dos bichos

reflete claramente a falta de humanidade das pessoas

projetada em um macaco de vestido,

camuflada sob os risos.

 

Olegario Schmitt. Os Animais no Circo
In: No Pé da Letra, Ed. Blocos, 1999

Olá, criançada! O meu nome é Macaco Tião e eu trabalho no circo. Eu gosto muito quando as crianças riem das minhas travessuras, porque eu adoro crianças. Eu mesmo ainda sou um macaco-criança e não tenho nem dois anos. Agora eu queria que vocês prestassem bastante atenção, porque eu vou contar a história de como vim parar nesse circo.

Antes de trabalhar aqui eu vivia na floresta com o papai, a mamãe, o meu maninho Pimpolho e o resto da macacada. Lá em casa era sempre uma grande festa com a bicharada toda se divertindo muito, pulando de galho em“o Pimpolho sempre foi muito piolhento” galho e fazendo o maior alvoroço. O que eu mais gostava de fazer era catar piolhos no meu mano, que o Pimpolho sempre foi muito piolhento. Ele deitava de barriga pra cima num galho e deixava eu ficar catando os bichinhos na sua pelagem macia. A mamãe sempre estava por perto, porque éramos muito pequeninos ainda para podermos ficar sozinhos. O papai, do topo das árvores com aquela sua cara seriíssima, cuidava de todos nós.

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O cidadão médio sente-se pequeno diante de coisas maiores que ele.

Publicado em 14 de junho de 2004 por Olegario Schmitt

© by Eric Raschke – rageous.us

Vejo uma menina maltrapilha pedindo trocados, um menino gorducho catando latinhas no lixo e um louco que passa ridiculamente feliz na sua condição, com uma etiqueta grudada na orelha e o sorriso doente e quebrado.

Vejo também pessoas comuns da minha cidade, pessoas comuns como as de uma cidade qualquer, tão felizes na alienação da sua ignorância que me fazem questionar sobre os conceitos de felicidade e conhecimento, sem no entanto obter respostas conclusivas.

Mas é somente quando o menina volta, visivelmente feliz por ter encontrado tantas latinhas de coca-cola, que me sinto imensamente culpado por, mesmo percebendo essas coisas e fazendo parte do mesmo mundo que ele, ainda conseguir sentir-me profundamente em paz.

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