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absurdo

Uma história difícil de acreditar

Publicado em 30 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

R.I.P.

Deu-se que não comia porco. Nem puchero, nem morcilha, nem cabeça, nem torresmo. Em suma, não comia nada daquilo que fazia um gaúcho verdadeiramente gaúcho, macho fodedor de tendências zoófilas — e de toda gaúcha uma fêmea intimamente resignada, submissa ao seu provedor.

Mas não era o fato em si de não comer porco que os agredia. Antes, era simplesmente a ausência de algum motivo plausível: se não pudesse fazê-lo devido a doença gravíssima, vá lá. Transformar-se-ia inclusive numa espécie de mártir da tradição, impedido unicamente pela própria vida em risco — não seria simplesmente por vontade de não comer:“sem motivo plausível” “Querer até que queria, coitado, mas não podia”, diriam eles entre si, mas somente na sua ausência e com aquele ar falsamente consternado de quem vislumbra o doce sofrimento alheio. Se viesse a morrer por intoxicação, então, mais do que mártir seria herói, sua história contada e recontada ao longo das gerações. “Aquilo sim que era gaúcho”, diriam com olhar sonhador e sem disfarçar uma pontinha de inveja…

Se quisesse, mas não pudesse, então esse fato inexplicável estaria enfim explicado. Mas não possuía úlcera gástrica ou triglicerídios nas nuvens ou ameaça iminente de infarto nem herpes que fosse para justificar sua falta. Nadinha de nada.

Dava-se unicamente o absurdo de não comer porco, e por isso era visto como alguma espécie de extraterrestre aterrisado de algum planeta mui longínquo e exótico, do qual a gente só sabe a existência de ouvir falar ou através da TV. “alienígena homossexual” Um planeta habitado unicamente por homossexuais não-comedores-de-porco. Um planeta de maricas não-pujantes e que, pelo andar da carroça, tudo levava a crer que também não arrotavam ou peidavam em público, não expeliam cuspe ao coçar o saco, não seguravam os ossos com as mãos e não utilizavam palitos de dentes nem mesmo em privado.

Um gaúcho que não comia porco, eis aqui uma história digna de se contar. Ver esse sujeito mesmo com meus próprios olhos, nunca vi. Mas quem viu e me contou jura que isso é verdade. Um verdadeiro absurdo, como se pode perceber.

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