Preconceitos e julgamentos

Você é daquele tipo que não julga? Parabéns, você é um cretino!

Reflexões

Preconceitos e julgamentos

Você é daquele tipo que não julga? Parabéns, você é um cretino!

Publicado em 28 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Lago Argentino, El Calafate

Todo conceito é ou será um preconceito. Isso se dá a partir do momento em determinada pessoa pense diferente de você. O que acontece então é que o conceito DELA é que será o conceito, e o seu será o pré-conceito.

Taxar algo de preconceito é algo que não chega realmente a ser um argumento, mas sim um golpe baixo, tão baixo a ponto de fazer A Arte de Insultar de Schopenhauer um livro para crianças em fase pré-cognitiva.

Trata-se de uma argumentação vazia em si mesma: por ser preconceito, não tem sentido, mas “argumento vazio”não tem sentido UNICAMENTE por ser preconceito. Atente-se também para o fato de que o acusador não considera sua própria definição ela mesma um preconceito: preconceito é unicamente o conceito do outro.

Se substituirmos, porém, a palavra “preconceito” pela palavra “discriminação”, aí então começará a ser estabelecida alguma dialética, mas não pense ingenuamente que o preconceituador¹ estará preparado para entrar numa discussão — se estivesse, não teria jogado o preconceito na mesa.

Outra forma de não-argumentação, de insulto à inteligência mesmo — partindo-se do pressuposto que exista uma —, que é muito utilizada e que passa muitas vezes despercebida, é o “julgamento”.

O verbo “julgar” quando utilizado, por exemplo, na sentença “eu não julgo ninguém”, não passa também de uma forma de preconceituar² a opinião contrária. Sempre é utilizado como se “não julgar” “eu não julgo ninguém”fosse sinal do mais elevado sentimento moral, sendo que na verdade atesta unicamente a sua amorfia. “Não julgar” significa “não ter opinião” e, portanto, não escorregar nem à direita nem à esquerda, não decidir-se, não definir-se, podendo dessa forma agradar a gregos e troianos, de acordo com a conveniência da situação.

O argumento do “julgamento” não passa de uma falácia, afinal todo mundo julga tudo o tempo todo, não sendo possível que se viva de outra maneira. Não gostar disso ou daquilo, ou mesmo o contrário, é julgar aquilo como bom ou ruim (para si), e isso definitivamente não pode ser uma coisa negativa, mostrando apenas que o indivíduo não tem sangue de barata e que reage, de maneira positiva ou negativa, diante das coisas que se lhe apresentam.

A ponderação, o bom-senso e a eqüidade efetivamente são sinais de valores morais elevados, mas nem “ponderação, bom-senso e eqüidade”sempre possíveis de serem alcançados. Isso não se deve necessariamente a uma falha do indivíduo, mas à maneira como cada situação se coloca. O perigo está justamente no fato de que os néscios confundem freqüentemente eqüidade com falta de opinião e talvez sobretudo por isso é que sejam néscios.

A solução para o “enigma” se encontra justamente em PRIMEIRO ter uma opinião, um conceito, um julgamento, para apenas depois utilizar-se da ponderação, do bom-senso e da eqüidade, pois tais qualidades apenas podem ser aplicadas sobre algo que já exista antes.

Essa é a única forma de se conseguir perceber se aquele pensamento se trata ou não de um preconceito. E não esqueçamos que a opinião, afinal, é uma via de duas mãos que corre à beira de um abismo, mas com uma bela paisagem ao fundo.

¹ aquele que define o pensamento alheio como preconceito
² atribuir valor de preconceito a algum pensamento

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