Os dedos de Diógenes

Em busca por um homem honesto

Reflexões

Os dedos de Diógenes

Em busca por um homem honesto

Publicado em 03 de outubro de 2006 por Olegario Schmitt

Diogenes (1860) - Jean Leon Gerome

Diariamente ficamos indignados com a corrupção que assola o nosso país. Nesses momentos, apesar da profunda indignação, não posso deixar de lembrar de algo que aprendi ainda na escola: toda vez em que apontamos um dedo dizendo “culpado”, há três dedos apontando de volta para nós mesmos.

Ao apontarmos nosso indicador para algum político dizendo “culpado”, o que dirá cada um dos outros três dedos que apontam de volta para cada um de nós?

Talvez o nosso dedo médio aponte para os nossos erros eleitorais. Quando digo “nossos”, pode não ser meu, pode até mesmo não ser seu, mas certamente o é de grande parte do povo brasileiro.

É importante que nunca equeçamos que povo é dos substantivos mais democráticos de todos, não apenas na sua própria acepção:“eu, tu, ele, nós, vós e eles” talvez seja o único que abrigue, em si mesmo, todos os pronomes pessoais — “o povo” inclui, necessariamente, eu, tu, ele, nós, vós e eles. Mesmo isso sendo aparentemente óbvio, quase sempre dizemos “eles, o povo” e nunca “nós, o povo”. “A culpa é do povo brasileiro!” Quantas vezes você e eu já dissemos isso, como se fizéssemos parte da população de outro país que não deste?

Mas ao mesmo tempo em que os dedos médios apontam de volta para o povo denunciando sua culpa, também o redimem, pois este vive dentro de um círculo vicioso: ao não ter acesso à cultura e educação, tem o seu poder de discernimento minado na sua base, o que o faz votar nos mesmos políticos de sempre e, estes, por sua vez, continuam a não investir em educação e infra-estrutura básica, o que faz com que o povo (os outros, é claro) continue ignorante e repita o processo, ad infinitum.

É curioso o significado que vejo no dedo anular. Misteriosamente, parece já apresentar “nossas pequenas corrupções diárias”uma pequena corrupção no próprio nome, uma vez que, por lógica, deveria se chamar anElar e não anUlar. Esse aponta para nossas pequenas corrupções diárias. Quando digo “nossas”, quero dizer realmente nossas. Quem nunca dobrou a esquina com seu carro sem ligar o sinal de alerta, que atire a primeira pedra. Quem nunca atendeu ao celular enquanto dirigia, idem.

Apesar do dedo anular apontar para corrupções as mais amplas, e elas serem diametralmente opostas à gravidade da corrupção política, nem por isso deixam de ser corrupções de valores.

Se assim não fosse, não haveriam cocôs de cachorro na calçada, não haveria inadimplência, jamais teria sido feito qualquer comentário em baixo tom sobre o comportamento do vizinho, tampouco aquele outro que você fez sobre a postura de um dos seus amigos quando este não estava presente.

Também no metrô as pessoas parariam sempre no lado direito da escada rolante, deixando a esquerda livre, os prédios de escritórios não insistiriam em tirar nossa foto porque isso acarreta em violação ao “uma vida inteira não basta” Artigo 5º, Inciso X, da nossa Constituição Federal, os supermercados sempre teriam todos os seus produtos com preços à mostra, ninguém furaria a fila… enough!! Acho que isso já é suficiente para provar meu ponto. Afinal, se eu fosse listar todas nossas pequenas currupções poderia levar toda a vida e isso ainda não seria suficiente.

Muitas vezes somos as vítimas dessas pequenas corrupções. Mas noutras vezes, querendo ou não, podemos ser os algozes. É importante ressaltar que cada um de nós, ao silenciar diante dessas pequenas corrupções diárias, também estará em si mesmo sendo corrupto, além de cometer crime de conivência.

Isso, por fim, nos leva ao dedo mínimo, que aponta para a nossa própria apatia, não nos permitindo fazer nada além de reclamar e tentar acertar nessa verdadeira roleta russa que é o voto, como se isso fosse o máximo esforço possível de ser feito para “o dedo mínimo que pode ser feito”tentar mudar a situação.

Concordo que é bastante difícil ter ânimo, uma vez que enquanto uma parte da população se esforça para mudar certas atitudes e retirar certos nomes do poder, a outra parte, representada simbolicamente pelos outros dois dedos, faz esforço contrário e os coloca de volta. É uma espécie de luta eterna entre o Davi-Mindinho contra o Golias-Pai-de-Todos, que não nos levará a lugar algum além da própria consciência tranqüila por ter feito a sua parte.

Mas será que podemos ao menos sonhar com o dia em que, dedos estendidos, mão espalmada, poderemos cumprimentar sem culpa a dignidade humana em todos os níveis sociais?

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