O bom egoísmo

Desculpe-me

Reflexões

O bom egoísmo

Desculpe-me

Publicado em 13 de janeiro de 2005 por Olegario Schmitt

Artista desconhecido - XXIV Bienal de São Paulo

Diferente daquele egoísmo que todos conhecemos, acredito haver outro tipo de egoísmo, de índole louvável e sub-repticiamente oculto atrás de boníssimas intenções.

Quando por exemplo me preocupo com a saúde do filho do meu melhor amigo, o faço por motivo egoísta, pois se o filho do meu melhor amigo fica doente, meu melhor amigo fica mal, e se meu melhor amigo fica mal, eu fico mal também.

Sem suberfúgios, eu me preocupo com a saúde do filho do meu melhor amigo, mas pensando na verdade em meu próprio bem-estar.

Outra situação onde penso haver fundamento egoístico — embora também seja um egoísmo bom — é o pedido de desculpas.

Quando alguém diz “desculpe-me”, pensa-se à primeira vista e superficialmente que esse pedido, gesto de profunda humildade, resume apenas a bondade de quem reconheceu seu erro. Mas se analisarmos essa mesma atitude por outro ponto de vista ela poderá adquirir sentido diverso.

Desculpar significa tirar a culpa. “Desculpar significa tirar a culpa.”Quando alguém diz “desculpe-me”, está portanto dizendo, com outras palavras e sem deturpar o sentido, “tire a culpa de mim”.

Para que se chegue onde quero chegar, imagine-se hipoteticamente uma situação:

Um sujeito A, nesse exemplo designado Haroldo, é ofendido por um sujeito B, designado Bertoldo.

Ao dar-se conta de seu erro, Bertoldo humildemente diz: “Desculpe-me, Haroldo” ou, em outras palavras: “Tire a culpa de cima de mim, Haroldo”.

Como Bertoldo não sente em sua própria pele a dor de Haroldo, a única forma de mesurá-la será através de suposições ou de experiência própria em situações semelhantes pelas quais ele tenha passado anteriormente. Mas a dor real que Haroldo sente, Bertoldo não a sente em si: “o que ele sente realmente é apenas a sua própria dor.”o que ele sente realmente é apenas a sua própria dor. Quando Bertoldo portanto pede desculpas a Haroldo, está levando em conta unicamente o descoforto que o sofrimento do amigo causa nele mesmo. Obviamente ele sente alguma coisa (culpa, não é disso que se trata?) pois se o sofrimento do amigo não lhe causasse qualquer emoção, ele não pediria desculpas.

Pensando dessa maneira, o pedido de desculpas de Bertoldo, assim como a minha preocupação com a saúde do filho do meu melhor amigo, por mais recheados de boas intenções que sejam, não deixam de ocultar em si mesmos um princípio, este na verdade egoísta.

Da mesma forma procedem muitos atos de caridade. Quando alguém pratica a caridade, o faz porque o sofrimento dos desafortunados lhe causa dor e desconforto. A pessoa não consegue ficar tranqüila com sua consciência se não ajudar os mais necessitados. E quando o faz, sente paz interior.

Não quero com minhas palavras que as pessoas deixem de desejar a saúde alheia, que não peçam mais desculpas ou não ajudem os necessitados. Minha intenção é unicamente fazer com que se veja, de maneira bastante lúcida e sem máscaras, tudo que inconscientemente se oculta, até mesmo por trás dos melhores gestos.

Assim, quando você desejar saúde, pedir desculpas ou praticar um ato de caridade — e, para o seu próprio bem, FAÇA-OS! — tenha apenas a plena consciência de já ter recebido o pagamento pelo seu gesto: o bem-estar pessoal.

Moral da História: até o egoísmo, quando bem canalisado, pode ser altamente positivo para todos.

Você pode deixar sua opinião registrada

Seu ponto de vista é importante. A reação do leitor é um termômetro valioso para o autor.

Contribua com sua opinião

Designed by