Nor­ma­li­dade

Até onde vai o seu con­ceito de “normal”?

Reflexões

Nor­ma­li­dade

Até onde vai o seu con­ceito de “normal”?

Publicado em 23 de setembro de 2004 por Olegario Schmitt

Parem o Mundo Que Eu Quero Des­cer (Auto-Retrato)

O mundo anda um não sei quê pra não sei como.

A coisa está assim já faz tempo: matam-nos aos pou­cos, um punhado de cada vez.

Depois das guer­ras — com seus milhões de mor­tos, a eli­mi­na­ção de mais de 6 milhões de judeus, milha­res de japo­ne­ses e viet­na­mi­tas, além dos afri­ca­nos que, desde sem­pre, mor­rem de fome todos os dias — a gente pen­sou que o inferno havia esta­bi­li­zado den­tro dessa “nor­ma­li­dade”. Está­va­mos acos­tu­ma­dos a pen­sar que o mundo era assim mesmo e qual­quer eli­mi­na­ção em massa já era tão déjà vu que não cau­sava mais frisson.

Então explo­di­ram as Tor­res Gêmeas.

Ainda aba­la­dos pelo cho­que da tra­gé­dia, pen­sa­mos que agora sim já haviam mor­tes sufi­ci­en­tes e pode­ría­mos vol­tar a viver na “paz” de antes.

Mas logo inva­di­ram o Ira­que, cen­te­nas foram mor­tas num tea­tro da Rús­sia, explo­di­ram um trem em Madri e, sim, fica­mos chocados.

Quando dego­la­ram Nick Burg, com ima­gens trans­mi­ti­das pela TV, nos ques­ti­o­na­mos pro­fun­da­mente “dego­la­ram mais um — não é mais novi­dade“sobre o valor da vida humana. Mas como as dego­las con­ti­nuam até hoje, agora só se diz “dego­la­ram mais um” — não é mais novidade.

Dia­ri­a­mente no Ira­que são mor­tas tan­tas pes­soas quanto nesse aten­tado da Espa­nha, mas parece que quando os mor­tos são sem­pre os mes­mos, isso só serve para esta­tís­tica e tudo fica den­tro dessa mal­dita “nor­ma­li­dade”. A rea­li­dade é que já esta­mos tão acos­tu­ma­dos com ira­qui­a­nos sendo mor­tos que quando vemos no noti­ciá­rio que mor­re­ram mais 50 num aten­tado, isso nos choca muito menos do que se dis­ses­sem que mor­re­ram 50 num aten­tado em Madri. É como se os ira­qui­a­nos pudes­sem ser livre­mente mor­tos, que nem liga­mos, mas os ame­ri­ca­nos e os espa­nhóis não.

Eu fico me per­gun­tando: nosso futuro é assim, habi­tu­ado a tan­tas mor­tes? Até que ponto esse nosso con­ceito cole­tivo de “nor­ma­li­dade” pode ser esticado?

E por que é, afi­nal, que os “donos” do Mundo não aper­tam aquele mal­dito botão e aca­bam com todos nós de uma vez? Será que eles são assim tão sádi­cos que pre­fe­rem ir matando-nos aos poucos?

Todos eli­mi­na­dos, acabariam-se os pro­ble­mas do mundo! Num único golpe racis­tas e negros, puri­ta­nos e homos­se­xu­ais, nazis­tas e judeus, cató­li­cos e muçul­ma­nos — sobre­tudo os cul­pa­dos pelo crime de serem dire­fen­tes da maioria.

Será mesmo pre­ciso que seja­mos mor­tos assim, pouco a pouco, um punhado de cada vez, den­tro dessa mal­dita “normalidade”?

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