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A curi­o­si­dade matou o gato

Reflexões

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A curi­o­si­dade matou o gato

Publicado em 26 de maio de 2005 por Olegario Schmitt

Pan­dora — J. W. Waterhouse (1896)

É incrí­vel, mas você não pôde resis­tir, não é? Teo­ria comprovada!

Se eu pedisse a você que tomasse conta de uma caixa, você pro­va­vel­mente cui­da­ria dela sem mai­o­res pro­ble­mas. Mas e se eu pedisse que tomasse conta dessa caixa e por nada no mundo olhasse o que há den­tro dela, você conseguiria?

Desde o seu pri­mór­dio a huma­ni­dade já não con­se­guia resis­tir à curi­o­si­dade. Quando Deus disse a Adão e Eva “vós não come­reis o fruto proi­bido, nem o toca­reis, para que não mor­rais” (Gn, 3), a Ser­pente — cons­ci­ên­cia de Eva? — disse que isso era men­tira, que Deus na ver­dade não que­ria que eles comes­sem do fruto para que não se tor­nas­sem tam­bém deu­ses (Gn 3, 4–5).

Se Deus não tivesse adver­tido a Adão e Eva sobre o fruto proi­bido, eles o teriam comido? Sendo inú­me­ras as árvo­res exis­ten­tes no Paraíso é pro­vá­vel que, sem essa adver­tên­cia, eles sim­ples­mente nem se des­sem conta da exis­tên­cia do fruto proibido.

Já a mulher de Lot, adver­tida pelo Senhor de que não deve­ria olhar para trás durante a reti­rada de Sodoma — e tal­vez por isso mesmo —, não con­se­guiu resis­tir a dar uma espi­a­dela por sobre o ombro, aca­bando trans­for­mada em está­tua de sal.

Mais tarde nas­ceu o mito da caixa de Pan­dora, a quem Zeus incum­biu de levar a Pro­me­teu uma caixa onde se encon­tra­vam todos os males do mundo. Mas depois de ter rou­bado o fogo dos deu­ses, Pro­me­teu sabia que coisa boa não pode­ria vir deles e, dessa forma, aca­bou por recu­sar o pri­meiro “pre­sente de grego” da his­tó­ria.“Epi­metheu: aquele que pensa depois” Porém, seu irmão Epi­metheu (o impru­dente ou aquele que pensa depois), não con­se­guiu resis­tir à beleza de Pan­dora e casou-se com ela, mas não sem antes adver­tir sua amada: “Ó, Pan­di­nha, por nada no mundo abra essa caixa!” Mordendo-se de curi­o­si­dade, é óbvio que ela não con­se­guiu resis­tir por muito tempo e abriu a caixa mesmo assim, liber­tando de den­tro dela todos os males. Arre­pen­dida, quando ten­tou fechar a tampa res­tava den­tro da caixa ape­nas a espe­rança, que ficou tran­cada na borda.

Se Epi­metheu não tivesse adver­tido Pan­dora sobre a aber­tura da caixa, ela a teria aberto?

Outro mito seme­lhante tem com a per­so­na­gem Psiqué. Apai­xo­nada por Cupido, ela faz de tudo para con­se­guir de sua sogra, Vênus, o con­sen­ti­mento para o seu amor. Esta, como boa sogra, impõe duras pro­vas a Psiqué, sendo que na última delas disse: “Toma esta caixa, vai às som­bras infer­nais e entrega-a a Pro­sér­pina, dizendo: ‘Minha senhora Vênus quer que lhe man­des um pouco da tua beleza, pois, tra­tando de seu filho enfermo, ela per­deu alguma da sua pró­pria.’” Mesmo sendo adver­tida por mis­te­ri­osa voz de que não deve­ria, de forma alguma, abrir tal caixa, Psiqué não con­se­guiu resis­tir e aca­bou liber­tando de den­tro dela não a beleza de Pro­sér­pina, mas o Sono Estí­gio que tomou posse de si, fazendo-a cair no meio do cami­nho como um cadá­ver sem senso de movi­mento. Vênus, conhe­ce­dora da curi­o­si­dade femi­nina, armara-lhe essa sabendo de ante­mão que ela não con­se­gui­ria resistir.

Tam­bém conta a lenda que She­ra­zade era esposa de um sul­tão que matava suas con­cum­bi­nas depois de servir-se delas. Mas She­ra­zade, muito astuta, deci­diu contar-lhe uma his­tó­ria dife­rente toda noite. Ven­cido por sua curi­o­si­dade, ele não a matava para con­se­guir ouvir a pró­xima, por 1001 noi­tes con­se­cu­ti­vas, até que aca­bou apaixonando-se por ela.

Sabendo que todos tra­ze­mos um sul­tão curi­oso den­tro de nós, Samuel Bec­kett, em Espe­rando Godot, estra­pola com a curi­o­si­dade humana: a ação cen­tral de toda a peça está em espe­rar Godot, que nunca chega e tam­pouco se sabe ao certo quem seja. Se Godot real­mente“Gali­leu espe­rando Godot com sua curi­o­si­dade atô­mica” che­gasse, acabaria-se o mis­té­rio e a peça per­de­ria sua graça.

No lado da ciên­cia temos como bom exem­plo Gali­leu que, movido por sua curi­o­si­dade astronô­mica, aca­bou por des­co­brir que era a Terra que girava em torno do Sol, e não o con­trá­rio. Aca­bou sendo con­de­nado pela Inqui­si­ção a abdi­car publi­ca­mente de suas idéias. Era isso ou a fogueira, por­tanto não deve ter sido difí­cil escolher...

Mais tarde Oppe­nhei­mer, con­ta­mi­nado pelo desejo de conhe­cer os áto­mos a fundo, aca­bou por inven­tar a bomba atô­mica. Mas, inqui­si­ção extinta, quem morre dessa vez são os japoneses.

Mas, afi­nal de tudo, é gra­ças a Eva e à sua Curi­o­si­dade Ori­gi­nal (e gra­ças tam­bém a Adão por com­pac­tuar com ela) que sabe­mos agora o que acon­tece quando come­mos do fruto proi­bido. Pode­ria ter sido pior: se nada hou­vesse acon­te­cido tal­vez ainda hoje vive­ría­mos todos nus sem nem mesmo ter­mos cons­ci­ên­cia disso.

Mesmo que por vezes acabe matando o gato, é jus­ta­mente essa curi­o­si­dade nata, quase infan­til, que faz com que a huma­ni­dade evolua.

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