Iden­ti­dade e Diferença

Sobre “A pro­du­ção social da iden­ti­dade e da dife­rença” de Tomaz Tadeu da Silva

Reflexões

Iden­ti­dade e Diferença

Sobre “A pro­du­ção social da iden­ti­dade e da dife­rença” de Tomaz Tadeu da Silva

Publicado em 23 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

O autor dis­corre nesse ensaio como se dá o pro­cesso social de cons­tru­ção da iden­ti­dade e da dife­rença. Isso que ele chama de “peda­go­gia da dife­rença”, é fun­da­men­tal para a estru­tu­ra­ção do seu pen­sa­mento uma vez que todo nosso pro­cesso cog­ni­tivo comu­mente é cons­truído sobre a “peda­go­gia da igual­dade” (ou, com outras pala­vras, da “peda­go­gia da identidade”).

Como a cons­tru­ção cul­tu­ral de sen­tido cons­ci­en­te­mente se dá por ana­lo­gia e não por anti­no­mia1, por isso se mos­tra impres­cin­dí­vel toda a parte ini­cial do ensaio, jus­ta­mente para des­cons­truir esse “lin­gua­gem: sis­tema de dife­ren­ças“vício lingüís­tico: citando Sau­surre, Da Silva aponta o incons­ci­ente desse pro­cesso: “a lin­gua­gem é, fun­da­men­tal­mente, um sis­tema de dife­ren­ças”. Ao mos­trar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apre­senta o cami­nho con­trá­rio daquilo que con­si­de­ra­mos a cons­tru­ção do conhe­ci­mento: ao dizer­mos os sinô­ni­mos esta­mos dizendo igual­mente todos os antô­ni­mos. Isso obvi­a­mente faz todo o sen­tido, mas nunca pen­sa­mos nisso.

Todo o dis­curso sobre a cons­tru­ção dos sig­nos é uma espé­cie de enge­nha­ria reversa da atri­bui­ção da iden­ti­dade e da dife­rença e, afi­nal, é ape­nas com­pre­en­dendo intrin­se­ca­mente a dinâ­mica de um deter­mi­nado pro­cesso que se torna pos­sí­vel desconstruí-lo.

É difí­cil, no entanto, con­cor­dar inte­gral­mente com “dizer que são o resul­tado de atos de cri­a­ção sig­ni­fica dizer que não são ‘ele­men­tos’ da natu­reza, que não são essên­cias, que não são coi­sas que este­jam sim­ples­mente aí”. Quando ele diz “natu­reza”, den­tro do con­texto, quer obvi­a­mente dizer “soci­e­da­des não-humanas“TODA A NATU­REZA e, por­tanto, tal argu­mento não explica a exis­tên­cia de gru­pos soci­ais não-humanos como abe­lhas, for­mi­gas e leões, ape­nas para citar alguns exem­plos. Esses casos, embora não sejam casos de soci­e­da­des huma­nas e, por­tanto, fora da alçada da soci­o­lo­gia, não dei­xam de serem rela­ções soci­ais per si. Não havendo cul­tura entre esses seres, conclui-se que a iden­ti­dade nem sem­pre é cri­ada, que pode ser natu­ral, ao con­trá­rio do que afirma o autor.

Tal­vez a iden­ti­dade des­ses casos não-humanos pudesse ser per­fei­ta­mente expli­cada sob a ótica das rela­ções estabelecidos-outsiders2: o que define uma abe­lha é o fato de per­ten­cer, ou não, à deter­mi­nada col­méia. Embora esses seres não pos­suam lin­gua­gem sufi­ci­en­te­mente desen­vol­vida e, por­tanto, não se uti­li­zam de sig­nos, isso não sig­ni­fica que não tenham iden­ti­da­des e dife­ren­ças: os mem­bros alheios a deter­mi­nado grupo ou colô­nia são suma­ri­a­mente recha­ça­dos. Oras, não se pode­ria con­si­de­rar alguém, ou algo, alheio a um grupo se não exis­tisse uma iden­ti­dade gru­pal comum e deter­mi­nante, seja ela qual for.

Como as afir­ma­ções do texto obvi­a­mente ape­nas têm sen­tido quando veri­fi­ca­das do ponto de vista humano3,“soci­o­lo­gia: não-estudo das rela­ções soci­ais não-humanas” jamais do ponto de vista geral natu­ral, e usur­pando de forma cap­ci­osa as idéias dis­cor­ri­das pelo autor, “soci­o­lo­gia” é, por­tanto, “o não-estudo das rela­ções soci­ais não-humanas”. Esse con­ceito de certa forma con­tra­ria a expres­são uti­li­zada pelo autor: “somos huma­nos”. Somos huma­nos do ponto de vista natu­ral, é o que o autor quis dizer, já que do ponto de vista huma­nista4 os seres “huma­nos” mui­tas vezes con­se­guem se mos­trar extre­ma­mente o oposto5.

Já a “meta­fí­sica da pre­sença” de Der­rida, onde a “plena pre­sença (da ‘coisa’, do con­ceito) no signo é inde­fi­ni­da­mente adi­ada” tal­vez possa expli­car tam­bém nossa admi­ra­ção pelas ima­gens, uma vez que estas são con­si­de­ra­das, desde o iní­cio do pro­cesso de cons­tru­ção dos sig­nos, ainda no homem das caver­nas6, como sendo subs­ti­tuin­tes dos refe­ren­tes. O fas­cí­nio pelas ima­gens tal­vez se deva, por­tanto, a essa busca posi­ti­vista e incons­ci­ente de tra­zer o refe­rente à plena pre­sença do signo.

O dis­cor­rido no capí­tulo “A iden­ti­dade e a dife­rença: o poder de defi­nir” ajuda a ampliar a visão sobre as dis­tin­ções entre “nós” e “eles” que comu­mente são fei­tas. Há algum tempo havia per­ce­bido a ten­dên­cia geral de dizer, por exem­plo, “o povo bra­si­leiro é muito burro”: é como se quem pro­nun­ci­asse“nós vs. eles: o poder de defi­nir” tal frase fizesse parte da popu­la­ção de outro país que não deste7. Não havia per­ce­bido à época que tal afir­ma­ção se trata na ver­dade de ten­ta­tiva de esta­be­le­cer uma rela­ção de poder, atra­vés de opo­si­ção biná­ria: ao dizer “ele, o povo, é burro” se está dizendo tam­bém “eu, que não faço parte ‘dele’, sou inte­li­gente”. Além da auto-elevação atra­vés da dimi­nui­ção do outro, tam­bém se trata de um pro­cesso de isen­ção de culpa, isso sem falar na ten­ta­tiva de esta­be­le­cer rela­ções estabelecidos-outsiders8, onde os out­si­ders são nada menos do que a popu­la­ção inteira de um país, excetuando-se, obvi­a­mente, a pró­pria pes­soa e todos aque­les que con­cor­dem com ela.

É impres­si­o­nante per­ce­ber o quanto tais afir­ma­ções acon­te­cem no dia-a-dia per­mi­tindo, inclu­sive, vari­a­ções mais poli­das soci­al­mente como “povão” (“sim, eu até faço parte do ‘povo’, mas me dife­ren­cio do ‘povão’ o qual, por sua vez, é estúpido”).

Por outro lado, o ques­ti­o­na­mento da iden­ti­dade e da dife­rença pro­posto pelo autor mais à frente no texto traz em si algo que vejo como grande perigo: ao elu­ci­dar as rela­ções entre iden­ti­dade e poder, o autor me pare­ceu que­rer redu­zir o mundo a um grande sopão amorfo e sem“sopão amorfo” carac­te­rís­ti­cas pró­prias, uma vez que cada carac­te­rís­tica pró­pria seria uma dife­rença de iden­ti­dade e toda dife­rença de iden­ti­dade uma ten­ta­tiva de exer­cer poder sobre outrem. Psi­co­lo­gi­ca­mente não se é pos­sí­vel ser, ou seja, exis­tir sem algo que nos defina, sem um papel que esta­be­leça nosso lugar no mundo e nor­teie nos­sas inter-relações com ele.

Pois bem, ser alguma coisa, qual­quer coisa, implica neces­sa­ri­a­mente em cor­re­la­ci­o­nar aquilo que se é com o que os outros não são quando com­pa­ra­dos conosco — não é pos­sí­vel que algo exista sem refe­ren­cial em con­trá­rio. É assim que nossa psi­que, além da pró­pria exis­tên­cia, é constituída.

Tal­vez o que o autor tenha que­rido dizer, sem no entanto fazê-lo, é que se eu sou efe­ti­va­mente branco, isso não sig­ni­fica nada além do fato que eu sou branco e não negro. Isso ape­nas. E que seria ques­ti­o­ná­vel (para dizer o mínimo) se uti­li­zar disso para exer­cer poder sobre aque­les que não são bran­cos como eu.

Em con­tra­po­si­ção, se eu sou bra­si­leiro isso sig­ni­fica que sou por­ta­dor de inú­me­ras carac­te­rís­ti­cas his­tó­ri­cas e lingüís­ti­cas, cul­tu­rais enfim, que me defi­nem como tal e não como esta­du­ni­dense, por “as carac­te­rís­ti­cas cul­tu­rais me defi­nem” exem­plo. Isso sig­ni­fica, neces­sa­ri­a­mente, em dizer que ao me defi­nir como bra­si­leiro eu quero exer­cer poder sobre os outros? Ou sig­ni­fica dizer que ao me defi­nir desta forma isso reforça minha iden­ti­dade de grupo, enri­que­cendo a cul­tura pró­pria e carac­te­rís­tica de meu país, prevenindo-nos assim de nos tor­nar­mos uma filial estadunidense?

Da mesma forma quando Da Silva diz “João é pouco inte­li­gente”, e afirma que isso fun­ci­ona como uma sen­tença nor­ma­tiva — o que de fato o é — que pode­ria, além de des­cre­ver, aca­bar pro­du­zindo efe­ti­va­mente aquilo que afirma, isso sig­ni­fica que: a) não existe nenhum João pouco inte­li­gente; b) se João é pouco inte­li­gente e o per­ce­be­mos “não chame João de burro (mesmo que ele o seja)“isso não pode ser dito; ou c) isso ape­nas é válido para os Joões que não são pouco inteligentes?

Sim, por­que base­ado nas con­seqüên­cias de se uti­li­zar sen­ten­ças nor­ma­ti­vas des­cri­tas pouco mais à frente no texto, facil­mente se con­clui que dizer “João é pouco inte­li­gente” é algo pés­simo e que deve ser evi­tado, mesmo que seja verdade.

O autor aponta os pro­ces­sos e des­creve sobre como eles se dão, mas não aponta mui­tos cami­nhos. Quando o faz, ape­nas sus­cita mais dúvi­das, ou seja, abre cami­nho para o duvi­doso. Ao escla­re­cer que ao dizer­mos “João é pouco inte­li­gente” além de des­cre­ver João tam­bém o defi­ni­mos, é quase como se dis­sesse tam­bém “por­tanto não diga­mos isso, mesmo que seja ver­dade, do con­trá­rio João se tor­nará ainda menos inteligente”.

Abre-se um cami­nho aí, como se nota, para o desen­vol­vi­mento exa­cer­bado do “poli­ti­ca­mente cor­reto”, da poli­dez social ou, seja, da hipo­cri­sia gene­ra­li­zada. É seguindo esse cami­nho do poli­ti­ca­mente cor­reto, jus­ta­mente, que os EEUU proi­bi­ram a uti­li­za­ção da expres­são “polí­ti­ca­mente cor­reto” “negro”, substituindo-a por “afro-descendente” sem no entanto desen­vol­ver polí­ti­cas públi­cas de inclu­são social vol­ta­das a essa par­cela da popu­la­ção. Con­ve­nha­mos que subs­ti­tuir “negro” por “afro-descendente” não muda abso­lu­ta­mente nada per si, exceto a pró­pria expres­são uti­li­zada, sendo que a segunda delas se mos­tra ainda pior ao defi­nir os negros como “des­cen­den­tes de outro lugar que não este”.

Por fim, as últi­mas argu­men­ta­ções do ensaio, quando por exem­plo Da Silva cita José Luis Pardo9, são gene­ra­lis­tas e por si mes­mas aca­bam por tam­bém defi­nir, por tam­bém iden­ti­fi­car aquilo que deve e aquilo que não deve ser feito den­tro desse “poli­ti­ca­mente cor­reto”. Se as dife­ren­ças de iden­ti­dade devem ser ampla­mente per­mi­ti­das, irres­tri­ta­mente — o autor nunca cita que em alguns casos algu­mas dife­ren­ças não devem ou não deve­riam ser per­mi­ti­das —, então sig­ni­fica que eu não tenho o direito de con­si­de­rar os neo­na­zis­tas des­pre­zí­veis: eles por sua vez têm o direito de serem dife­ren­tes de mim e que­re­rem ani­qui­lar aque­les que são dife­ren­tes deles mes­mos. Tam­bém não posso con­de­nar os homo­fó­bi­cos, nem os racis­tas. Ou as pes­soas têm o direito de serem dife­ren­tes, ou não têm, do con­trá­rio seria dizer“per­mi­tir e per­mis­si­vi­dade: há dife­ren­ças e dife­ren­ças “as pes­soas têm direito de serem dife­ren­tes desde que não con­tra­riem aquilo que eu acredito”.

Da Silva não escla­rece, sobre­tudo, a linha tênue que separa “per­mi­tir” de “per­mis­si­vi­dade”, tam­pouco que há “dife­ren­ças” e dife­ren­ças. Diz ape­nas: as dife­ren­ças devem ser per­mi­ti­das. Ponto.

Embora tenha tre­chos extre­ma­mente posi­ti­vos — o pró­prio ques­ti­o­na­mento des­sas rela­ções já é um deles — alguns argu­men­tos aca­bam por colapsar-se sobre si mes­mos, num movi­mento de auto-anulação elíp­tica. Não é à toa que é um soció­logo não muito conhecido.

1 A anti­no­mia se dá em nível secun­dá­rio, mui­tas vezes incons­ci­ente.
2 NOR­BERT, E. e SCOT­SON, J. L. Ensaio teó­rico sobre as rela­ções estabelecidos-outsiders
3 Soci­o­lo­gia, s.f., estudo cien­tí­fico da orga­ni­za­ção e do fun­ci­o­na­mento das soci­e­da­des huma­nas e das leis fun­da­men­tais que regem as rela­ções soci­ais, as ins­ti­tui­ções etc. (Hou­aiss)
4 Erasmo de Rot­ter­dam, Cal­vino, Compte, ape­nas para citar alguns.
5 Hitler, Franco, Mugabe, ape­nas para citar alguns.
6 Para o homem das caver­nas o dese­nho do bisão não era “um dese­nho do bisão”, mas o bisão em si. Esse con­ceito de subs­ti­tui­ção do refe­rente pelo signo, no caso das ima­gens, tam­bém foi refor­çado pelo Posi­ti­vismo que ensi­nou a pen­sar a foto­gra­fia como “cap­tura cien­tí­fica do real”, por­tanto fiel e exata à rea­li­dade regis­trada. Mesmo esse pen­sa­mento tendo sido des­cons­truído por inú­me­ros pen­sa­do­res até os dias de hoje, entre eles B. Kos­soy, tal raci­o­cí­nio incons­ci­ente ainda per­siste entre os “não-iniciados”.
7 SCH­MITT, Ole­ga­rio. Os dedos de Dió­ge­nes.
8 “hie­rar­qui­za­ção das iden­ti­da­des e das dife­ren­ças”, página 83
9 “Res­pei­tar as dife­ren­ças não pode sig­ni­fi­car “dei­xar que o outro seja como eu sou” ou “dei­xar que o outro seja dife­rente de mim tal como eu sou dife­rente (do outro)”, mas dei­xar que o outro seja como eu não sou, dei­xar que ele seja esse outro que não pode ser eu”

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