
Geralmente, basta que as pessoas ouçam seu nome para já ficarem com medo. Seu ladrido, então, é de arrepiar os mais destemidos que até esse ponto ainda não haviam pensado em correr.
Mas para quem o conhece, seu nome parece como aquelas coisas que a gente não sabe por que se chamam assim, como quadros-negros e seguros de vida... No entanto, isso só durará até que outro, que não ele, tente conseguir algum carinho do seu dono. Imediatamente seu nome vem à tona, em ataque de ciúme possessivo: Furioso! Ou simplesmente Fúria, para os íntimos.
Não há amigo no mundo que seja fiel como ele.“Qualquer que seja a hora do dia ou da noite está pronto para manifestar o seu afeto” Qualquer que seja a hora do dia ou da noite está pronto para manifestar o seu afeto. Não há leitura, programa de TV, internet ou indisposição que o impeçam do carinho imediato.
Se você não sabe o que é amor incondicional, mas incondicional mesmo de verdade, no duro, é porque não conhece Furioso.
Ele não gasta o pensamento com filosofias sobre as diferenças entre ser e estar. Por nunca ter lido Schopenhauer, sua vida é simples. Sua felicidade é feita de pequenas coisas que, para seu prazer, geralmente são tolas demais para os seres humanos: um fêmur de ovelha, uma costela de vaca, ou correr atrás de passarinhos.
Sua única grande preocupação é lembrar onde foi mesmo que enterrou aquele ossinho que guardou pra depois. Também cultiva suas pulginhas, só para ter algo que o incomode; para que sua vida, como disse Quintana, não seja “tão chata quanto um cachorro sem pulgas”.
Quando não ganha carinho, não se magoa nem fica de mal: insiste bastante pedindo com a pata. Se mesmo assim não surtir efeito, desiste e fica de canto, sempre atento.
Basta que se olhe para ele para que venha correndo e, se for repreendido, decepciona-se “decepciona-se, mas no dia seguinte esquece“consigo mesmo por não ter sido perfeito para quem ele ama. Mas no dia seguinte esquece.
É improvável deitar na rede sem que ele passe e dê uma lambida. Na verdade, minuto a minuto, ele inventa caminhos que passem pela rede, só para o pretexto da lambida, até que você desista de tirar um cochilo.
Ele também nem se importa se você está usando chinelos; não liga a mínima se está ou não usando roupas de marca, se engordou ou emagreceu, se seu carro é do ano... essas coisas são fúteis demais para ele, inteligentemente tão mais interessado em afagos do que em status quo.
Observando o comportamento desse animal sem nenhum cogito ergo sum ou metafísica, sem literatura ou complexas figuras de linguagem, sem adereços ou credicards, às vezes penso que o Furioso é muito melhor do que eu.
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