Furi­oso

Quem dera os homens fos­sem mais pare­ci­dos com os cães...

Reflexões

Furi­oso

Quem dera os homens fos­sem mais pare­ci­dos com os cães...

Publicado em 25 de novembro de 2006 por Olegario Schmitt

Geral­mente, basta que as pes­soas ouçam seu nome para já fica­rem com medo. Seu ladrido, então, é de arre­piar os mais des­te­mi­dos que até esse ponto ainda não haviam pen­sado em correr.

Mas para quem o conhece, seu nome parece como aque­las coi­sas que a gente não sabe por que se cha­mam assim, como quadros-negrossegu­ros de vida... No entanto, isso só durará até que outro, que não ele, tente con­se­guir algum cari­nho do seu dono. Ime­di­a­ta­mente seu nome vem à tona, em ata­que de ciúme pos­ses­sivo: Furi­oso! Ou sim­ples­mente Fúria, para os íntimos.

Não há amigo no mundo que seja fiel como ele.“Qual­quer que seja a hora do dia ou da noite está pronto para mani­fes­tar o seu afeto” Qual­quer que seja a hora do dia ou da noite está pronto para mani­fes­tar o seu afeto. Não há lei­tura, pro­grama de TV, inter­net ou indis­po­si­ção que o impe­çam do cari­nho imediato.

Se você não sabe o que é amor incon­di­ci­o­nal, mas incon­di­ci­o­nal mesmo de ver­dade, no duro, é por­que não conhece Furioso.

Ele não gasta o pen­sa­mento com filo­so­fias sobre as dife­ren­ças entre ser e estar. Por nunca ter lido Scho­pe­nhauer, sua vida é sim­ples. Sua feli­ci­dade é feita de peque­nas coi­sas que, para seu pra­zer, geral­mente são tolas demais para os seres huma­nos: um fêmur de ove­lha, uma cos­tela de vaca, ou cor­rer atrás de passarinhos.

Sua única grande pre­o­cu­pa­ção é lem­brar onde foi mesmo que enter­rou aquele ossi­nho que guar­dou pra depois. Tam­bém cul­tiva suas pul­gi­nhas, só para ter algo que o inco­mode; para que sua vida, como disse Quin­tana, não seja “tão chata quanto um cachorro sem pulgas”.

Quando não ganha cari­nho, não se magoa nem fica de mal: insiste bas­tante pedindo com a pata. Se mesmo assim não sur­tir efeito, desiste e fica de canto, sem­pre atento.

Basta que se olhe para ele para que venha cor­rendo e, se for repre­en­dido, decepciona-se “decepciona-se, mas no dia seguinte esquece“con­sigo mesmo por não ter sido per­feito para quem ele ama. Mas no dia seguinte esquece.

É impro­vá­vel dei­tar na rede sem que ele passe e dê uma lam­bida. Na ver­dade, minuto a minuto, ele inventa cami­nhos que pas­sem pela rede, só para o pre­texto da lam­bida, até que você desista de tirar um cochilo.

Ele tam­bém nem se importa se você está usando chi­ne­los; não liga a mínima se está ou não usando rou­pas de marca, se engor­dou ou ema­gre­ceu, se seu carro é do ano... essas coi­sas são fúteis demais para ele, inte­li­gen­te­mente tão mais inte­res­sado em afa­gos do que em sta­tus quo.

Obser­vando o com­por­ta­mento desse ani­mal sem nenhum cogito ergo sum ou meta­fí­sica, sem lite­ra­tura ou com­ple­xas figu­ras de lin­gua­gem, sem ade­re­ços ou cre­di­cards, às vezes penso que o Furi­oso é muito melhor do que eu.

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