Do que você precisa?

O que faz com que o Ser seja?

Reflexões

Do que você precisa?

O que faz com que o Ser seja?

Publicado em 11 de setembro de 2007 por Olegario Schmitt

Lendo um artigo sobre as rela­ções entre ser e dis­curso em Par­mê­ni­des e Pla­tão, decidi que é melhor dei­xar essa briga para os pei­xes gran­des, prin­ci­pal­mente por­que tenho a ten­dên­cia de con­cor­dar com Par­mê­ni­des e quem sou eu para dis­cor­dar de Platão?

No entanto, tal lei­tura levan­tou uma ques­tão: do que real­mente pre­ci­sa­mos para “ser”?

Tome­mos, sem iro­nias, a seguinte afir­ma­ção verdadeira:

Eli­sete é mulher bonita e inteligente.

Se Eli­sete não fosse inte­li­gente, con­ti­nu­a­ria exis­tindo? Sem dúvida! E se não fosse bonita? Idem. Seria burra e feia como uma porta, mas con­ti­nu­a­ria exis­tindo. “Ser sem os aces­só­rios do Ser“Da mesma forma con­ti­nu­a­ria sendo se homem, gato ou árvore.

Tirando de Eli­sete tudo aquilo que é aces­só­rio, que é pre­di­cado do seu ser, sobra­ria ape­nas a seguinte afirmação:

Eli­sete é.

Porém, e se ela tivesse sido parida na selva, ime­di­a­ta­mente aban­do­nada por sua mãe e cri­ada por lobas? Não mais seria sequer Eli­sete, por­que não seria cha­mada de coisa nenhuma.

E, por isso, dei­xa­ria de ser?

Jamais!

É. Esse ser “é”, mais nada. Essa é sua essên­cia. A par­tir do momento em que for dito “Eli­sete é”, além de “ser” ela passa a “ser Eli­sete”, sendo agora duas coi­sas e não mais uma — ela pode inclu­sive ser divi­dida ao meio, pois per­deu a sua unidade.

E esse é o drama: Pla­tão dis­corda de Par­mê­ni­des quando diz que não é pos­sí­vel “ser” sem dis­curso (“Eli­sete é”), Par­mê­ni­des“não é pos­sí­vel Ser sem dis­curso” — Pla­tão diz que ao dis­cur­sar sobre o ser, ele passa a ser outra coisa.

Agora que se sabe que, de uma forma ou de outra, Eli­sete é — dei­xe­mos de lado esses dois, que bri­guem entre si na eter­ni­dade! —, ainda resta a per­gunta: o que Eli­sete pre­cisa para ser feliz?

Para ser feliz, pri­meiro é neces­sá­rio que Eli­sete “seja”. Nota-se que já temos aí meio cami­nho andado.

No entanto, “ser” e “exis­tir” não são lá gran­des coi­sas, por­que tudo existe, até mesmo o nada*. Até mesmo as pedras “são”, ape­sar de que, pelo que se sabe, não são feli­zes nem tris­tes: para ser feliz é pre­ciso ser bem mais do que uma rocha.

“Penso, logo existo” — Des­car­tes“Penso, logo existo”, disse Des­car­tes. Até hoje nunca encon­trei pedra com cére­bro mas, afi­nal, quem sou eu para negar Des­car­tes? A ques­tão é que mesmo assim, alheias a tudo, anen­cé­fa­las e mais estú­pi­das do que nunca, as pedras exis­tem, e moro den­tro de uma grande pilha delas.

Para ser feliz, em segundo lugar, pressupõe-se neces­sá­rio ser vivo e ter um cére­bro que pense, isso não seria mal. Eli­sete pensa, logo é venturosa.

Como sabe­mos, bas­tam ali­mento e água para que algo ou alguém seja vivo. Para ser feliz além de estar vivo e ter um cére­bro, tudo o mais será aces­só­rio, meros enfei­tes do ser.

Final­mente, do que Eli­sete pre­cisa para ser feliz? Ape­nas de si mesma.

* Todo esse dis­curso é parte de uma busca em pro­var que o Nada existe. E mais: não ape­nas existe como tem uti­li­dade prá­tica. Não obs­tante, ainda irei além: qual­quer dia des­ses, quando eu final­mente encon­trar o Nada, farei uma foto dele e mos­tra­rei para todo mundo. Para quem duvida, só digo que não tenho Nada a perder...

Comentários

  1. Viní­cius Mari
    11 de setembro de 2007

    Mazááá!!! Acho que todos esta­mos bem-humorados hoje :D Juro que, depois de ler o pri­meiro pará­grafo, pen­sei “lá vem o Ole­gá­rio com a super-análise...” Ri e con­ti­nuei... Ole, depois de tanta abs­tra­ção, tu tá quase che­gando na meta­fí­sica! hehehe todos somos. essên­cia. o resto? lucro ou preju. Gos­tei desse Par­mê­ni­des! De qual­quer forma, tô no mesmo time que tu de não dis­cor­dar de nenhum dos gran­dões, e con­cor­dar que Eli-7 é inte­li­gente, bonita, vir­tu­osa e ven­tu­rosa! Ave Eli-seven! Gosto de pen­sar em essên­cia como poten­ci­a­li­dade que con­tém tudo. Isso falando de huma­nos ape­nas... e alguns, ape­nas... hahahahaha Da tua última frase, adi­ci­ono só mais um item: um cora­ção :-) = E vai que as pedras são feli­zes e mudas: afi­nal, nunca nos dis­se­ram nada, né? Abra­ços, Vinícius

  2. Vol­nei
    14 de outubro de 2007

    Oi ! Tá, se como Par­mê­ni­a­des disse...o ser é, e o nada, nada é. Então posso enten­der o SER, como sendo o con­trá­rio de tudo e não o tudo como pres­supôe o ser. Putz, isso como disse uma vez a um pro­fe­sor, parece um cachorro ten­tando mor­der o rabo...e acho tam­bém, que isso é que torna o tema fascinante...valeu...abração

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