Conhecimento Empírico

Ninguém nasce sabendo?

Reflexões

Conhecimento Empírico

Ninguém nasce sabendo?

Publicado em 09 de outubro de 2004 por Olegario Schmitt

Mão (Autorretrato)
Fundo: A Cor do Som de Uma Onda
Acrílica s/ vidro – Olegario Schmitt (2003)

Interessante como as pessoas podem trazer em si o conhecimento inato de algumas coisas. Fiquei meditando sobre isso hoje, depois de ter lido um trecho do Livro III de “O Mundo Como Vontade e Como Representação”, de Arthur Schopenhauer, onde ele discorre sobre a coisa em si de Kant e a idéia de Platão. Como posso ter resumido as idéias básicas do texto de Schopenhauer — o qual eu ainda não havia lido — sobre Kant e Platão, autores que ainda não li?

Há duas linhas de pensamento possíveis a partir daí: pela primeira, espiritualista, eu já conteria esse conhecimento desde antes de nascer; pela segunda, mais cética, certas coisas são evidentes e poderiam ser percebidas por qualquer pessoa com sensibilidade mais elaborada. Como sou espiritualista e, principalmente, não me considero capaz de pensar por mim mesmo à altura de Kant, Platão, Jaspers ou meu amado Schopenhauer, fico com a primeira opção.

Me senti como que transcrevendo suas idéias, adaptadas à minha realidade — a da poesia — com um ponto de vista mais genérico e básico sobre a questão.

Comentando sobre isso com um amigo, ele disse que Karl Jaspers já havia discorrido sobre essas idéias de maneira mais aprofundada, colocando os seres humanos em níveis diferentes e não se referindo à humanidade ou ao homem de forma genérica, como por exemplo faz Platão.

Segundo o que meu amigo falou sobre Jaspers, “exis­te em cada ser humano certa pro­pen­são inte­rior a alguma coisa” – Jaspersexistiria em cada ser humano certa propensão interior a alguma coisa. Portanto, a pessoa perceberia a poesia no barulho do riacho se já contivesse em si essa propensão a perceber poesia no barulho do riacho. O que não contradiz o que eu disse, com outras palavras, no último parágrafo do artigo “A Poesia Não é Natural”.

Também consegui captar no texto de Schopenhauer algo da linha da Psicologia de gestalt, no que se refere ao fenômeno. Segundo o pouco que sei sobre gestalt — e que minha amiga PhD em Psicologia Gestaltiana, leitora de carteirinha desse blog, poderá me corrigir se eu estiver errado —, somos aquilo que manifestamos.

Seguem abaixo trechos do texto de Schopen (é assim que o chamo, intimamente):

toda a experiência é apenas conhecimento do fenômeno, não da coisa em si: por isto suas leis não podem ser aplicadas à coisa em si.

Isto é válido inclusive para nosso próprio eu, que nós conhecemos unicamente como fenômeno, e não pelo que possa ser em si.

Por seu lado, Platão afirma: “As coisas deste mundo, percebidas por nossos sentidos, não possuem ser verdadeiro: elas sempre vêm a ser, mas nunca são: possuem apenas um ser relativo, são em conjunto apenas em e mediante sua relação recíproca”: assim é possível denominar todo seu ser-aí um não-ser.

Em conseqüência também não são objetos de um conhecimento propriamente dito (epistéme), pois este é possível quanto ao que é em e para si e de um modo sempre idêntico: elas porém são apenas o objeto de uma suposição sugerida pela sensação.

existente (óntôs ón) porque sempre é, mas nunca vem a ser, nem deixa de ser, são os modelos de tais imagens: as idéias eternas, as formas originais de todas as coisas.

Assim, apenas delas podemos ter um conhecimento propriamente dito, uma vez que pode ser objeto deste unicamente o que existe sempre e sob qualquer consideração (portanto em si), e não o que existe, mas também não existe, conforme seja enfocado”. Esta é a doutrina de Platão.

Esteja frente a nós um animal em sua vitalidade plena. Platão dirá: “Este animal não tem uma existência verdadeira, mas somente uma aparente, um devir constante, um ser-aí relativo, que pode ser chamado tanto não-ser quanto um ser. Verdadeiramente existente é apenas a idéia que se reproduz naquele animal, ou o animal em si mesmo (autô tô thérion), de tudo independente, mas existindo em e para si (kath ?eautò, aeì hosautôs)…

Kant diria por exemplo: “Este animal é um fenômeno no tempo, no espaço e na causalidade, que todos são as condições a priori da possibilidade da experiência que se encontram em nossa capacidade cognitiva, e não determinações da coisa em si.

Se você teve paciência de ler esses trechos de texto que, embora interessantíssimos, são profundamente complicados, saiba que isso tudo foi apenas para contra-argumentar meu amigo, que discordou de algumas coisas que eu disse em “A Poesia Não é Natural”.

O fato intrigante disso tudo é que dia seguinte a esse artigo, encontrei por “acaso” o texto de Schopenhauer, vindo reafirmar meu conhecimento empírico sobre o fato da poesia não estar no som do riacho, mas sim dentro de quem o ouve. Como pude — eis aqui o mistério — ter discorrido sobre o assunto antes de ter o devido conhecimento científico?

Como para algumas pessoas é mais fácil acreditar na sorte do que na vida após a morte e, sobretudo, na vida antes da vida…

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