Con­fis­sões de um Veterano

Sobre o “Ensaio teó­rico sobre as rela­ções estabelecidos-outsiders” de NOR­BERT, E. e SCOT­SON, J. L.

Reflexões

Con­fis­sões de um Veterano

Sobre o “Ensaio teó­rico sobre as rela­ções estabelecidos-outsiders” de NOR­BERT, E. e SCOT­SON, J. L.

Publicado em 04 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Durante toda a minha vida sem­pre tive imensa difi­cul­dade de per­ten­cer a algum grupo (ou tribo, como se diz con­tem­po­ra­ne­a­mente) espe­cí­fico — aca­bando por tran­si­tar entre diver­sos meios hete­ro­gê­neos entre si sem me sen­tir real­mente per­ten­cendo a nenhum deles. Minha aná­lise até então era de que a não-aceitação acon­te­cia devido a dife­ren­ças iden­ti­fi­ca­ti­vas — de gos­tos, ide­o­lo­gias ou méti­ers. Por exem­plo, na ado­les­cên­cia nunca fui aceito no grupo que gos­tava de heavy-metal por gos­tar igual­mente de música clás­sica e bossa-nova; estes, por sua vez, tam­bém não me acei­ta­vam jus­ta­mente pelo motivo inverso. Nunca fui muito bem aceito entre os artis­tas plás­ti­cos por ser tam­bém escri­tor, e entre os escri­to­res por ser tam­bém fotó­grafo, e entre os fotó­gra­fos, embora em menor escala, pelos dois moti­vos anteriores.

A soci­e­dade exige — e cobra isso de maneira nem sem­pre tácita — que se per­tença1 por inteiro “a soci­e­dade exige que se per­tença“a esse ou àquele grupo: ou você é escri­tor, ou é fotó­grafo, ou é artista plás­tico. E se gos­tar de Bel­lini então que não ouse ouvir AC/DC. Se gos­tar de coi­sas que os outros não gos­tam, os outros não gos­ta­rão de você — a acei­ta­ção se dá na medida em que não são expos­tas tais coi­sas que o fazem dife­rente dos demais. Quanto mais igual, maior a chance de pertencer.

No entanto essas sim­ples dife­ren­ças de “gosto” não escla­re­ciam o uni­verso de situ­a­ções que eu per­ce­bia sem, no entanto, compreendê-las com­ple­ta­mente. Não escla­re­cem, por exem­plo, meu des­prezo pelos “bixos” da facul­dade ou a minha difi­cul­dade em que­brar as bar­rei­ras para ingres­sar em deter­mi­nada tribo urbana e registrá-los fotograficamente.

É inte­res­sante obser­var, como mos­tra muito bem o texto, que as rela­ções estabelecidos-outsiders não ocor­rem em gru­pos neces­sa­ri­a­mente homo­gê­neos (EMO’s/não-EMO’s), sendo que a única seme­lhança entre eles pode ser jus­ta­mente o fato de uns esta­rem den­tro e outros fora.

No pri­meiro dia de facul­dade houve o trote, do qual “par­ti­ci­pei” com extrema má-vontade — “essa é a quarta facul­dade que ini­cio e não tenho mais paci­ên­cia para MAIS UM trote”, era o que eu pen­sava2. “trote: ritual de inte­gra­ção?“No entanto, me esfor­cei para fazer parte desse “ritual” jus­ta­mente por acre­di­tar que me aju­da­ria na inte­gra­ção com os esta­be­le­ci­dos, digo, vete­ra­nos. Quando per­gun­tei a uma vete­rana qual era exa­ta­mente o sen­tido daquele ritual ridí­culo ela me res­pon­deu “ah, sei lá cara, é por­que já fize­ram isso com a gente”.

Não é pos­sí­vel con­si­de­rar esse tipo de res­posta satis­fa­tó­ria, prin­ci­pal­mente quando vindo de uma pes­soa com o cabelo roxo — foi ape­nas atra­vés da lei­tura desse texto que con­se­gui enten­der a dinâ­mica não ape­nas o des­prezo do qual fui alvo, mas sobre­tudo a de meu pró­prio des­prezo pelos “bixos”.

Des­co­bri que ele não se deve neces­sa­ri­a­mente a algum fator pes­soal — embora mui­tas vezes uti­li­ze­mos jus­ta­mente este argu­mento —, mas sim a uma série de nor­mas e regras de pos­tura pre­es­ta­be­le­ci­das silen­ci­o­sa­mente pelos que já esta­vam lá antes de mim. Por exem­plo, nós, os esta­be­le­ci­dos“a dita­dura dos esta­be­le­ci­dos pri­meiro” pri­meiro, acre­di­ta­mos que não se deve se espar­ra­mar pelos cor­re­do­res atra­pa­lhando o nosso trân­sito — nós, jus­ta­mente nós que já está­va­mos lá antes, tendo de pedir licença àque­les que che­ga­ram depois? Ina­cei­tá­vel! Os cor­re­do­res todos nos per­ten­cem. Tam­bém acre­di­ta­mos, quase sem­pre de maneira incons­ci­ente, que não se deve ficar parado nas esca­das do Bar do Tio, atra­pa­lhando nossa entrada, por­que o Bar do Tio é nosso por direito: nós o con­quis­ta­mos a duras penas àque­les que já esta­vam preestabelecidos.

Com­pre­endi, inti­ma­mente emba­ra­çado, que os “bixos” são con­si­de­ra­dos infe­ri­o­res uni­ca­mente por terem che­gado depois. Tam­bém per­cebi por que nós outros, por nossa vez, tam­bém éra­mos tra­ta­dos dessa mesma forma.

É um ciclo que nunca acaba. O trote, antes de ser uma ati­vi­dade de “inte­gra­ção” entre calou­ros e veter­naos, é um pro­cesso, um ritual, de esta­be­le­ci­mento de rela­ção dominantes/dominados, superiores/inferiores ou, como pre­ten­dem os soció­lo­gos, estabelecidos/outsiders.

O que é dito é que se subjugar-mo-nos ao trote, sere­mos acei­tos. A per­fí­dia se encon­tra no fato de que não nos é dito que não sere­mos acei­tos de um jeito ou de outro. E esse ciclo é repe­tido ano após ano — os nos­sos “bixos”, por sua vez, tam­bém têm a neces­si­dade de se sen­ti­rem supe­ri­o­res e encon­tra­rão sua des­forra naque­les que che­ga­rem depois deles.

Nossa estra­té­gia incons­ci­ente de estig­ma­ti­za­ção dos “bixos” se resume basi­ca­mente a chamá-los de “bixos” em toda opor­tu­ni­dade pos­sí­vel (e, inclu­sive, cri­ando opor­tu­ni­da­des ape­nas para), isso acom­pa­nhado por comen­tá­rios feri­nos e olha­res de des­prezo. Pode não sur­tir efeito no pri­meiro dia, tam­pouco no segundo, mas ao longo de um semes­tre inteiro cer­ta­mente alcan­çará algum sucesso.

Essa dinâ­mica social dos cor­re­do­res das facul­da­des torna-se pos­sí­vel por­que nós, vete­ra­nos, difi­cil­mente pre­ci­sa­mos da ajuda daque­les que “estão abaixo de nós”: não há rela­ção de neces­si­dade ou depen­dên­cia de nós em rela­ção a eles. Outros­sim, pre­ci­sa­mos freqüen­te­mente da ajuda dos “dinâ­mica social dos cor­re­do­res da facul­dade” nos­sos vete­ra­nos e, se sou­ber­mos nos com­por­tar de maneira sufi­ci­en­te­mente sub­missa, con­se­gui­re­mos con­tar com sua ajuda, como um cão que ganha um ossi­nho. Note-se que esses ges­tos de ajuda, tanto o que rece­be­mos como o que even­tu­al­mente damos, é sem­pre for­ne­cido sob uma aura de “extrema bene­vo­lên­cia de minha parte em ajudá-lo, pois você é ‘meu bixo’ não mere­cendo de mim nada além de meu desprezo”.

Já aque­les que se sub­me­tem taci­ta­mente às nos­sas nor­mas — igual­mente táci­tas — de con­vi­vên­cia vão sendo gra­du­al­mente acei­tos: já é pos­sí­vel ver inte­ra­ção entre alguns de nós e alguns deles e a “recom­pensa pela sub­mis­são às nor­mas espe­cí­fi­cas do grupo” é tão somente pode­rem nos diri­gir a pala­vra. Parece pouco, mas den­tro da nossa soci­o­di­nâ­mica isso é o máximo que se pode alcan­çar, uma vez que nada no mundo fará com que eles tenham che­gado antes.

Da mesma forma, a dinâ­mica out­si­der é fiel­mente obser­vada pelos “bixos”, os quais pare­cem per­ce­ber a nossa irri­ta­ção com suas ati­tu­des espa­lha­fa­to­sas e fazem ape­nas ocu­par mais espaço, freqüen­te­mente extra­po­lando os limi­tes do bom senso.

Mas quais bene­fí­cios são esses que o poder de esta­be­le­ci­dos nos traz, afi­nal? Nenhuns, abso­lu­ta­mente nenhuns além do poder em si. É isso que é ver­da­dei­ra­mente ridí­culo na natu­reza humana:“os bene­fí­cios” a prin­cí­pio nenhuma van­ta­gem extra se nos afi­gura, nem mesmo num hori­zonte lon­gín­quo: nos­sos pro­fes­so­res são ou serão os mes­mos, as dis­ci­pli­nas as mes­mas, a mesma bibli­o­teca, os mes­mos livros, equi­pa­men­tos, cor­re­do­res, o mesmo tudo — mas a hege­mo­nia se mos­tra agri­doce quando expe­ri­men­tada pela nossa pró­pria boca.

E o que fare­mos quando no último semes­tre do pró­ximo ano sere­mos os úni­cos estu­dan­tes do Bacha­re­lado em Foto­gra­fia nessa uni­dade? Os “bixos”, jun­ta­mente com os “bixos” deles, serão todos trans­fe­ri­dos para o Cam­pus. Vol­ta­re­mos então nos­sas rela­ções sádi­cas de poder uns con­tra os outros? Con­tra os estu­dan­tes do curso téc­nico, quiçá? Será igual­mente diver­tido menos­pre­zar aque­les que não estão em con­di­ção de igual­dade por esta­rem em um curso “inferior”?

Tudo isso ainda é uma incóg­nita. Esta­rei de olho.

1 Por per­ten­cer entenda-se seguir de bom grado um deter­mi­nado con­junto de regras e nor­mas.
2 Mas é pro­vá­vel que, incons­ci­en­te­mente, fosse ape­nas minha rea­ção con­tra a sujei­ção ao poder de outrem.

Comentários

  1. Lau­di­ceia
    28 de outubro de 2009

    muito boa essa refle­xão que vc fez, e vai me aju­dar no meu tra­ba­lho de filo­so­fia os esta­be­le­ci­dos e os out­si­ders. tenho cer­teza que vai aju­dar mui­tos aca­de­mi­cos também.

  2. Ole­ga­rio Schmitt
    29 de outubro de 2009

    Lau­di­ceia,

    muito obri­gado por seu retorno.

    Fico imen­sa­mente feliz em poder ter con­tri­buído de alguma forma.

    Às vezes olhava esse texto, meio grande demais para um blog, e ficava me per­gun­tando se alguém o leria, qual seria o ponto, afi­nal, em publi­car uma coisa des­sas aqui.

    Por isso seu comen­tá­rio foi rece­bido como um grande incentivo.

    Um grande abraço aos con­fra­des da filosofia.

    Ole­ga­rio

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