A Rea­li­dade

É de comer pura ou é de pas­sar em cima do pão?

Reflexões

A Rea­li­dade

É de comer pura ou é de pas­sar em cima do pão?

Publicado em 16 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Inter­ven­ção Digi­tal sobre Pictografia

O que é essa coisa a que cha­ma­mos rea­li­dade, afi­nal? Você pode até pen­sar que vive nela, mas isso não é ver­dade: o que é, por exem­plo, uma árvore?

— É um vege­tal, com­posto de raí­zes, tronco e galhos, folhas, flo­res, fru­tos e semen­tes — dirá o botânico.

— É um ele­mento mágico, mani­fes­ta­ção de Gaya — dirá o exotérico.

— É fonte de car­vão — dirá o carvoeiro.

— É a minha casi­nha — dirá o inseto.

Quem está certo e quem está errado? Todos e nenhum: a única maneira de abran­ger a rea­li­dade com­pleta da árvore é analisá-la, ao mesmo tempo, sob todos os pon­tos de vista pos­sí­veis, incluindo aí, obvi­a­mente, aque­les fora do nosso alcance inte­lec­tual e espiritual.

Alcan­çar a rea­li­dade da árvore, por­tanto, é tarefa impos­sí­vel: será sem­pre o que eu acho que é árvore, “alcan­çar a rea­li­dade é tarefa impos­sí­vel“o que você acha que é árvore, mas jamais o que a árvore é na sua totalidade.

D. W. Hamlyn, em Uma His­tó­ria da Filo­so­fia Oci­den­tal, referindo-se ao Ethi­cal Stu­dies (1876), do filó­sofo bri­tâ­nico F. H. Bra­dley (1846–1924), diz que “o argu­mento gira em torno do ponto que, no que inte­ressa ao juízo, não há pos­si­bi­li­dade de uma iden­ti­fi­ca­ção da rea­li­dade, ou de parte dela, exceto por refe­rên­cia a idéias. Apre­senta uma clas­si­fi­ca­ção de juí­zos e diz que em nenhum dos casos, nem mesmo naque­les que deno­mina de ‘juí­zos ana­lí­ti­cos de sen­tido’, que passa por ana­li­sar ape­nas a exis­tên­cia ime­di­ata, o juízo pode ser incon­di­ci­o­nal­mente ver­da­deiro. Quer isto dizer que o máximo que se pode fazer por meio do juízo é enun­ciar a ver­dade con­di­ci­o­nal de que, “a rea­li­dade só pode ser vista em ter­mos de idéias inter-relacionadas“se a rea­li­dade é carac­te­rís­tica desta ou daquela maneira, ela tam­bém tem que ser carac­te­ri­zada des­tas ou daque­las outras manei­ras. No que inte­ressa ao juízo, isto é, ao enten­di­mento, a rea­li­dade só pode ser vista em ter­mos de idéias inter-relacionadas e as rela­ções em ques­tão são ‘inter­nas’ — mais do que con­tin­gen­tes e não inde­pen­den­tes de seus ter­mos, como as exter­nas. Para o juízo, a rea­li­dade é um sis­tema e a ver­dade con­siste na coe­rên­cia de seus ele­men­tos”.

O que vemos, por­tanto, é ape­nas aquela parte da rea­li­dade que con­se­gui­mos alcan­çar. Ape­nas D’us tem — ou um deus teria — acesso à rea­li­dade com­pleta. O que temos não passa de inter­pre­ta­ções idi­os­sin­crá­ti­cas, juí­zos de rea­li­dade.

Identifica-se como psi­có­tico o indi­ví­duo que perde a capa­ci­dade de ter juízo da rea­li­dade — pro­cesso men­tal medi­ante o qual se é capaz de dis­tin­guir o que per­tence à nossa rea­li­dade interna do que per­tence à rea­li­dade externa — e con­si­dera seus pen­sa­men­tos, fan­ta­sias, ima­gi­na­ções e sonhos como sendo reais.

E já que tudo que alcan­ça­mos pode ser muito pouco com­pa­rado com o todo, o mínimo que pode­mos fazer é apegarmo-nos a essa “rea­li­dade” sem deturpá-la, sem desen­vol­ver­mos carac­te­rís­ti­cas bei­rando à psicose.

Comentários

  1. Edi­leuza Machado
    23 de agosto de 2008

    Acho que o texto pode­ria ter sido mais abran­gente ao que se refere juizo da rea­li­dade. Estou pes­qui­sando sobre o tema e con­se­gui muito pouca coisa, paera um tra­ba­lho na faculdade.

  2. Ole­ga­rio Schmitt
    25 de agosto de 2008

    Resu­mindo, você gos­ta­ria muito que eu tivesse feito o tra­ba­lho todo pra você, não é?

    Vá sonhando...

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