A Metafísica da Pedra Que Cai

Sobre a mania das pessoas em ver significado especial em tudo

Reflexões

A Metafísica da Pedra Que Cai

Sobre a mania das pessoas em ver significado especial em tudo

Publicado em 15 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Estudo para a Série Pictografias

Primeiro, quero deixar claro que a intenção dessa reflexão não é a de questionar a existência de D’us, pois considero o Óbvio inquestionável. E D’us, para mim, será sempre uma questão de obviedade, jamais de crença: não acredito que Ele existe, eu vejo que ele existe.

Minha intenção também não é a de dar nenhuma explicação ou resposta para qualquer coisa, mas unicamente questionar, chamar à reflexão.

É incrível perceber o quanto temos a tendência de preferir a versão metafísica dos fatos, uma vez que a realidade pode se apresentar muito chata, sem romantismo nenhum.

Percebi isso de maneira clara há algum tempo, quando uma amiga — sim, eu tenho o péssimo hábito de utilizar as pessoas como “cobaias” comportamentais — reclamou que havia caído uma pedra do seu colar de pedrinhas de quartzo.

“A pedrinha caiu porque era a hora de ela cair”, eu disse, e seus olhinhos no mesmo instante brilharam: “A pedrinha caiu porque era a hora de ela cair”a pedra havia caído por um motivo muito, muito especial, metafísico, transcedental, totalmente desconhecido, mas jamais por mero acidente.

Passei a perguntar-me quantas vezes utilizamos tais artifícios no nosso dia-a-dia? Isso não seria, na verdade, tentar tornar a “realidade” mais aceitável através da “fantasia”?

Por que será tão mais fácil aceitar a versão “enfeitada” das coisas em vez de aceitar simplesmente a realidade nua e crua como ela é?

Por que é mais complicado aceitar que a pedra caiu porque estava mal colada, ou seja, por mera ação da gravidade?

O que vem a significar exatamente “a hora de ela cair”, uma vez que essa “hora de cair” é algo completamente relativo: poderia ter acontecido várias semanas depois, ou até mesmo jamais ter acontecido, se estivesse bem colada.

A metafísica está na queda da pedra ou na incompetência do ourives que não fez seu trabalho direito? Está no fato de ele estar mal-dormido por ter ido à festa de aniversário de sua namorada na noite anterior e, por isso, ter colado mal a pedra? A metafísica está então no aniversário da sua namorada? Ou quem sabe não estaria na concepção da menina por seus pais, mais tarde resultando no namoro dos dois até que, no seu 28º aniversário, ele perdesse a hora na festa, chegasse ao trabalho com sono, colasse mal a pedra para então, e só então, ela cair? Isso significa que a pedra começou a cair 28 anos atrás? Indo mais além com isso, até os pais dos pais da menina e assim por diante, a queda da pedra teria então começado com Adão e Eva sendo expulsos do paraíso?

Meu D’us, que complicação! Não é bem mais fácil pensar que a pedra simplesmente caiu? Mas isso não tem graça nenhuma, não é?

Analisemos, por exemplo, uma caneta repousando sobre a mesa. Ela permanece ali por estar em perfeito“the pen is on the table” equilíbrio: a pressão que a caneta exerce sobre a mesa é exatamente a mesma que a mesa exerce sobre a caneta. Se assim não fosse, a caneta cairia mesa adentro, ou então permaneceria voando, solta no ar.

Essa caneta está sobre a mesa porque D’us quis?

Como isso é uma questão de física básica, Equilíbrio dos Corpos, significa que Newton desvendou o mistério divino?

Com tantos horrores pelo mundo, será que D’us não tem mais nada para fazer além de manter as canetas sobre a mesa e as pedrinhas de quartzo presas nos colares?

Isso são meras perguntas, jamais afirmações de coisa alguma. Como nenhum de nós sabe o que exatamente é D’us, uma vez que cada um tem o seu próprio conceito sobre Ele — inclusive o de que Ele não existe — como haveremos nós de saber o que D’us quer ou deixa de querer?

Como não sabemos quase nada sobre tudo e muito menos ainda sobre D’us, não seria mais lúcido e sensato se nos apegássemos apenas à versão tangível dos fatos, à realidade dura e chata dos acontecimentos?

A pedra caiu. Ponto final.

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