A Igno­rânça É Uma Bênça?

Todo bônus tem seu ônus. Qual é o preço pago pelo conhecimento?

Reflexões

A Igno­rânça É Uma Bênça?

Todo bônus tem seu ônus. Qual é o preço pago pelo conhecimento?

Publicado em 27 de julho de 2004 por Olegario Schmitt

Refle­xão (Auto­re­trato)
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Há alguns dias, enquanto andava na rua, per­cebi um grupo de pes­soas rindo feito uns dia­bos. É incrí­vel como a inte­lec­tu­a­li­dade reflete-se na expres­são das faces e, dessa forma, pude per­ce­ber cla­ra­mente o nível cul­tu­ral desse grupo. Fiquei abis­mado ao ouvir que eles riam-se das mai­o­res boba­gens, das mai­o­res idi­o­ti­ces ima­gi­ná­veis, de coi­sas sem sentido.

Lembrei-me de ime­di­ato do conto de Vol­taire, His­tó­ria de Um Brâ­mane, lido ainda na minha ado­les­cên­cia, onde ele, per­ce­bendo que as pes­soas menos cul­tas pare­ciam ser mais feli­zes, ques­ti­ona o valor do conhe­ci­mento e da cultura.

Lembrei-me tam­bém das diva­ga­ções que fiz em razão dessa lei­tura. Pro­cu­rei meus manus­cri­tos, ei-las aqui:

O meu vizi­nho leu menos livros do que eu
e parece ser bem mais feliz.

Devido à sua igno­rân­cia ele não pode pen­sar
como é hor­rí­vel não ter ido a Paris esse ano
por­que ele nem sabe que Paris existe.

Eu sei que Paris existe.

Eu não fui a Paris este ano.

Ana­li­sar a feli­ci­dade tola daque­les tran­seun­tes fez com que eu me ques­ti­o­nasse, como Vol­taire, sobre qual seria o valor da cul­tura. Estou há meses mas­ti­gando a Divina Comé­dia de Dante e agora me per­gunto: para quê? Ler a Divina Comé­dia me fará mais feliz? Por que as lei­tu­ras de Nietzs­che, Hob­bes, Scho­pe­nhauer, Hegel, Kant?

Assim falando, sei que comporto-me como filis­teu, embora essas dúvi­das tenham lá o seu fundo filo­só­fico. Mas se lemos esse tipo de coi­sas para ser­mos mais cul­tos, pergunto-me, para que have­re­mos de ser mais cultos?

Depois que eu enten­der a esté­tica Hei­deg­ger,“Isso me tor­nará melhor ou pior, que ame mais ao pró­ximo?” isso fará com que eu veja de forma dife­rente a beleza de uma flor ou de um pôr-do-sol? Isso me tor­nará melhor ou pior, fará com que eu seja mais com­pre­en­sivo, que ame mais ao próximo?

A esté­tica de Hei­deg­ger fará com que eu ana­lise de forma dife­rente uma obra de arte, isso é certo, mas quando você olha para uma tela de Mon­drian, deve­ria impor­tar o que aquilo sig­ni­fica, de onde veio?

Real­mente impor­tante não deve­ria ser o fato de você gos­tar ou não do que vê? Deve­ría­mos gos­tar ou não de uma obra por seu impacto ime­di­ato, pri­má­rio, e não pelo con­ceito esté­tico que há por trás dela... Será mesmo pre­ciso ler o manual de ins­tru­ções para pas­sar­mos a gos­tar, ou não, do que vemos?

Quando você entra em dis­cus­são com uma pes­soa dotada de um certo nível cul­tu­ral, assim como você, de ime­di­ato forma-se um “duelo” de inte­li­gên­cias para ver quem domina mais sobre aquele deter­mi­nado assunto, não é sem­pre assim? E, você sabendo mais, o que você ganha? Você sabendo menos, o que você perde? A auto-estima? A vai­dade intelectual?

Sabe­mos que “atra­vés da cul­tura ampli­a­mos nossa visão de mundo“atra­vés da cul­tura ampli­a­mos nossa visão de mundo, mas jamais foi dito que esse conhe­ci­mento é fator pre­pon­de­rante para a feli­ci­dade: não estu­da­mos para ser­mos mais feli­zes, muito pelo con­trá­rio. O excesso de infor­ma­ções fará você enxer­gar as coi­sas com um leque muito maior de pos­si­bi­li­da­des, o que, auto­ma­ti­ca­mente, lhe fará ser uma pes­soa mais pre­o­cu­pada, mais pensativa.

Os tolos vêem os pro­ble­mas de forma super­fi­cial, não per­ce­bendo todas as suas com­pli­ca­ções e vari­an­tes, por isso eles são feli­zes de ime­di­ato. Você tendo mais infor­ma­ções do que um tolo, verá que as coi­sas não são bem assim, ana­li­sará os pro­ble­mas de todos os ângu­los à sua dis­po­si­ção, tecerá teo­rias, hipó­te­ses, tra­ta­dos de probabilidades...

E enquanto você investe seu tempo em pen­sar sobre os fatos, os tolos estão rindo à toa, feli­zes da vida.
— Não te enver­go­nhas de ser infe­liz, quando mora à tua porta um velho autô­mato que não pensa em nada e vive con­tente?
— Tens razão — respondeu-me ele — mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizi­nha, e, no entanto, não dese­ja­ria tal feli­ci­dade.
¹

¹ Vol­taire In: His­tó­ria de Um Brâmane

Comentários

  1. San­dra
    21 de agosto de 2010

    Tam­bém fico me ques­ti­o­nando, por­que tenho que ser outra pes­soa para con­se­guir rea­li­zar meus sonhos?

    Por­que? tan­tas cobranças?

    Eu, gosto de pes­soas sim­ples, te comer arroz, fei­jão e ovo..., mmmmmmm, adoro rsrsrs.

    Eu sou feliz com as coi­sas sim­ples do mundo, conheci Ale­ma­nha, Espa­nha, Chile, Por­tu­gal, Aus­tria, Argen­tina, Repu­blica Dome­ni­cana, França, só que nenhum des­ses luga­res vão subs­ti­tuir meu país só por eu não ter uma con­di­ção de finan­ceira boa.

    A coisa mais linda que tenho, por não ter está ambi­ção, é amar minha fami­lia, meus ami­gos e meu marido e amar aque­las pes­soas sim­ples que fala pro­brema, mais são lin­das por den­tro e tem o amor e ami­zade verdadeiro.

    Mas tudo bem, está e a vida..

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