Reflexões

Reflexões filosóficas, pseudo-filosóficas, falácias, desesperanças e niilismos.

Reflexões

Reli­gião, Direito, Arte e Livre Expres­são podem con­vi­ver harmoniosamente?

Publicado em 11 de fevereiro de 2011 por Olegario Schmitt

Oblatvs, Cas­telo de Vide — Por­tu­gal
Série Mun­do­Vas­to­Mundo

Abor­dar um assunto essen­ci­al­mente reli­gi­oso sob uma ótica laica pode ser pre­ten­si­oso, mas mesmo assim pos­sí­vel, com algum esforço. Basta, na ver­dade, sepa­rar o joio do trigo e não ana­li­sar o assunto sob um ponto de vista que facil­mente poderá res­va­lar no fanatismo.

Afi­nal, não se trata aqui, em pri­meira ins­tân­cia, de uma ques­tão de reli­gi­o­si­dade, daquilo em que cada um crê ou deixa de crer, mas sim de res­peito, ou melhor, de res­peito ao direito natu­ral ques­tão de res­peitoalheio de ter suas cren­ças — não impor­tando, obvi­a­mente, em qual reli­gião, credo ou filo­so­fia —, assim como, igual­mente, o res­peito ao direito de cada indi­ví­duo de não ter nenhuma delas. Isso é ina­li­e­ná­vel, prin­cí­pio básico de civi­li­dade e huma­ni­dade e, por isso, uma ques­tão moral. Con­ti­nuar lendo »

Argu­men­tos rasos, tra­ba­lhos rasteiros...

Publicado em 05 de outubro de 2010 por Olegario Schmitt

Freqüen­te­mente são uti­li­za­das expres­sões como “esse tra­ba­lho é muito ras­teiro” ou “esse é um argu­mento raso”. Mas ras­teiro é perto do chão e chão já é quase pro­fundo. Do raso para o pro­fundo, igual­mente, basta um passo, a des­peito do grande risco de se cair num abismo.

Tal­vez fosse mais apro­pri­ado dizer “esse tra­ba­lho atin­giu as nuvens” ou “esse argu­mento é estra­tos­fé­rico”, da mesma forma que se fala de obje­tos voa­do­res não identificados.

Sim, por­que cer­tas obras e deter­mi­na­dos argu­men­tos pare­cem ter sido cri­a­dos por ver­da­dei­ros ali­e­ní­ge­nas, os quais falam uma“con­ver­sa­ção ali­e­ní­gena” lín­gua que ape­nas eles com­pre­en­dem. Some-se a isso os habi­tan­tes de outros pla­ne­tas, que não têm nada a ver com o pla­neta em ques­tão, mas unem-se aos pri­mei­ros seguindo a dinâ­mica out­si­der, não sig­ni­fi­cando que os segun­dos neces­sa­ri­a­mente com­pre­en­dam a lín­gua dos pri­mei­ros, mas sabem fin­gir muito bem.

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Você é daquele tipo que não julga? Para­béns, você é um cretino!

Publicado em 28 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Lago Argen­tino, El Calafate

Todo con­ceito é ou será um pre­con­ceito. Isso se dá a par­tir do momento em deter­mi­nada pes­soa pense dife­rente de você. O que acon­tece então é que o con­ceito DELA é que será o con­ceito, e o seu será o pré-conceito.

Taxar algo de pre­con­ceito é algo que não chega real­mente a ser um argu­mento, mas sim um golpe baixo, tão baixo a ponto de fazer A Arte de Insul­tar de Scho­pe­nhauer um livro para cri­an­ças em fase pré-cognitiva.

Trata-se de uma argu­men­ta­ção vazia em si mesma: por ser pre­con­ceito, não tem sen­tido, mas “argu­mento vazio“não tem sen­tido UNI­CA­MENTE por ser pre­con­ceito. Atente-se tam­bém para o fato de que o acu­sa­dor não con­si­dera sua pró­pria defi­ni­ção ela mesma um pre­con­ceito: pre­con­ceito é uni­ca­mente o con­ceito do outro.

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Por­que Time Nenhum é muito legal!

Publicado em 12 de janeiro de 2010 por Olegario Schmitt

Sobre­tudo aqui no Bra­sil, sem­pre há essa exi­gên­cia de que se torça para algum time de fute­bol. É por isso que quando conto qual é meu time do cora­ção cos­tumo rece­ber rea­ções vari­ando desde “o que há de errado com ele?” até “de que pla­neta ele veio?”, com as mais dife­ren­tes gra­da­ções entre um e outro extremo.

Pois sai­bam todos que da mesma forma que há tor­ce­do­res do Fla­mengo, do Corinthi­ans e até do Pal­mei­ras, eu sem­pre fui tor­ce­dor roxo de Time Nenhum. Time Nenhum ganha todos os cam­pe­o­na­tos; Time Nenhum rouba meu tempo que pode­ria ser gasto com inú­me­ras outras coi­sas mais inte­res­san­tes; Time Nenhum tem uma cami­seta dife­rente todos os dias, ao con­trá­rio dos outros times, que usam quase sem­pre a mesma, de dese­nho sofrí­vel; Time Nenhum não incita a vio­lên­cia das tor­ci­das adver­sá­rias; Time Nenhum detesta con­ver­sas de futebol.

Aquele argu­mento de que “fute­bol é a ale­gria naci­o­nal” é uma grande esto­pada. O Cam­pe­o­nato Bra­si­leiro sendo dis­pu­tado todos os anos por 40 times dife­ren­tes, quem torce para qual­quer um dife­rente de Time Nenhum tem 97,5% de chance de se tor­nar um per­de­dor. Tor­cer para outro time que não o meu é fazer uma esco­lha pra­ti­ca­mente certa de ser triste no final do cam­pe­o­nato e de se tor­nar um per­de­dor em outro setor de sua vida além dos outros todos de sempre.

Por­tanto, deixem-me em paz com a esco­lha do time do meu cora­ção: Time Nenhum me traz alegrias.

Você não gosta de mim? Ainda bem. Obrigado.

Publicado em 23 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Não há coisa que inti­ma­mente mais me cause pra­zer no mundo do que saber ou perceber-me odiado.

Isso se dá por­que aque­les que me amam pos­suem em rela­ção a mim certa pro­por­ção de simi­la­ri­dade: amam-me somente por­que até certo ponto sou simi­liar a elas mes­mas e é pro­vá­vel que pes­soa alguma ame a alguém que não seja si própria.

De minha parte, amo-as pelos mes­mos moti­vos: amá-las é uni­ca­mente amar o tanto de mim que vejo nelas, já que ao res­tante desprezo.

Igual­mente, saber-me amado por deter­mi­na­das pes­soas me seria um cas­tigo tão insu­por­tá­vel que gosto quando elas me odeiam pois assim tenho cer­teza de que não somos iguais em nada.

Sobre “A pro­du­ção social da iden­ti­dade e da dife­rença” de Tomaz Tadeu da Silva

Publicado em 23 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

O autor dis­corre nesse ensaio como se dá o pro­cesso social de cons­tru­ção da iden­ti­dade e da dife­rença. Isso que ele chama de “peda­go­gia da dife­rença”, é fun­da­men­tal para a estru­tu­ra­ção do seu pen­sa­mento uma vez que todo nosso pro­cesso cog­ni­tivo comu­mente é cons­truído sobre a “peda­go­gia da igual­dade” (ou, com outras pala­vras, da “peda­go­gia da identidade”).

Como a cons­tru­ção cul­tu­ral de sen­tido cons­ci­en­te­mente se dá por ana­lo­gia e não por anti­no­mia1, por isso se mos­tra impres­cin­dí­vel toda a parte ini­cial do ensaio, jus­ta­mente para des­cons­truir esse “lin­gua­gem: sis­tema de dife­ren­ças“vício lingüís­tico: citando Sau­surre, Da Silva aponta o incons­ci­ente desse pro­cesso: “a lin­gua­gem é, fun­da­men­tal­mente, um sis­tema de dife­ren­ças”. Ao mos­trar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apre­senta o cami­nho con­trá­rio daquilo que con­si­de­ra­mos a cons­tru­ção do conhe­ci­mento: ao dizer­mos os sinô­ni­mos esta­mos dizendo igual­mente todos os antô­ni­mos. Isso obvi­a­mente faz todo o sen­tido, mas nunca pen­sa­mos nisso.

Todo o dis­curso sobre a cons­tru­ção dos sig­nos é uma espé­cie de enge­nha­ria reversa da atri­bui­ção da iden­ti­dade e da dife­rença e, afi­nal, é ape­nas com­pre­en­dendo intrin­se­ca­mente a dinâ­mica de um deter­mi­nado pro­cesso que se torna pos­sí­vel desconstruí-lo.

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É “fogo que arde sem se ver”, mas não é amor

Publicado em 17 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Série Ins­tan­tâ­neos Con­cei­tu­ais ou Non-Sense Sobre o Des­tino de Uma Cabeça de Fósforo

Erra muito menos quem, com olhar som­brio, con­si­dera esse mundo como uma espé­cie de inferno e, por­tanto, só se pre­o­cupa em con­se­guir um recanto à prova de fogo.
Scho­pe­nhauer In: Afo­ris­mos Para a Sabe­do­ria de Vida

De peca­dor metido em tal ori­fí­cio ficava de fora dos pés à bar­riga da perna, ficando oculto o resto do corpo. Ardiam-lhes as plan­tas dos pés, ace­sas por inteiro, e nesse sofrer tanto se estor­ciam que teriam podido rom­per laços e cor­das. Do cal­ca­nhar aos dedos cor­riam cha­mas, infla­ma­das como se fla­me­jas­sem sobre corpo untado com gor­dura.
Dante In: A Divina Comé­dia, Canto XIX do Inferno

A lín­gua tam­bém é um fogo; sim, a lín­gua, qual mundo de iniqüi­dade, colo­cada entre os nos­sos mem­bros, con­ta­mina todo o corpo, e inflama o curso da natu­reza, sendo por sua vez infla­mada pelo inferno.
Evan­ge­lho de Tiago, 3,6

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Sobre o “Ensaio teó­rico sobre as rela­ções estabelecidos-outsiders” de NOR­BERT, E. e SCOT­SON, J. L.

Publicado em 04 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

Durante toda a minha vida sem­pre tive imensa difi­cul­dade de per­ten­cer a algum grupo (ou tribo, como se diz con­tem­po­ra­ne­a­mente) espe­cí­fico — aca­bando por tran­si­tar entre diver­sos meios hete­ro­gê­neos entre si sem me sen­tir real­mente per­ten­cendo a nenhum deles. Minha aná­lise até então era de que a não-aceitação acon­te­cia devido a dife­ren­ças iden­ti­fi­ca­ti­vas — de gos­tos, ide­o­lo­gias ou méti­ers. Por exem­plo, na ado­les­cên­cia nunca fui aceito no grupo que gos­tava de heavy-metal por gos­tar igual­mente de música clás­sica e bossa-nova; estes, por sua vez, tam­bém não me acei­ta­vam jus­ta­mente pelo motivo inverso. Nunca fui muito bem aceito entre os artis­tas plás­ti­cos por ser tam­bém escri­tor, e entre os escri­to­res por ser tam­bém fotó­grafo, e entre os fotó­gra­fos, embora em menor escala, pelos dois moti­vos anteriores.

A soci­e­dade exige — e cobra isso de maneira nem sem­pre tácita — que se per­tença1 por inteiro “a soci­e­dade exige que se per­tença“a esse ou àquele grupo: ou você é escri­tor, ou é fotó­grafo, ou é artista plás­tico. E se gos­tar de Bel­lini então que não ouse ouvir AC/DC. Se gos­tar de coi­sas que os outros não gos­tam, os outros não gos­ta­rão de você — a acei­ta­ção se dá na medida em que não são expos­tas tais coi­sas que o fazem dife­rente dos demais. Quanto mais igual, maior a chance de pertencer.

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