Reflexões

Reflexões filosóficas, pseudo-filosóficas, falácias, desesperanças e niilismos.

Reflexões

Flashmob, internet e redes sociais. Zumbilândia pós-eletrônica. O público, o privado e as partes íntimas da Paris Hilton

Publicado em 19 de fevereiro de 2014 por Olegario Schmitt

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Quando, em 1981, Jean Baudrillard (1929-2007) escreveu sobre a sociedade do espetáculo no seu Simulacros e Simulações, predisse, em partes, o estado atual em que nos encontramos. Se ainda vivo fosse, é possível que estivesse mais do que nunca tendo verdadeiros curtos-circuitos intelectuais com base na observação do desenvolvimento de suas profecias eletrônico-apocalípticas.

Baudrillard “à parte”, é fato que, sendo usada por aproximadamente 2.7 bilhões de habitantes do planeta  — 1/3 da população mundial em outubro de 2013 (Fonte: International Telecommunications Union) —, a Internet tem se tornado a cada dia mais onipresente, onipotente e onisciente, se transformando no verdadeiro Deus da nossa sociedade compulsivamente conectada, especialmente entre os jovens.

Isso tudo, obviamente, abre espaço para inúmeros novos paradigmas no comportamento humano e cujas conseqüências a longo prazo ainda não são muito claras. Saliente-se, no entanto, que a Internet, em si, não é culpada ou responsável por  coisa alguma que as pessoas fazem através dela, sendo apenas um novo meio — instantâneo, “anônimo” e massivamente popular — para que cada um manifeste, da tranquilidade de suas telas, sua verdadeira natureza interior.

Alguns desses aspectos serão abordados livremente aqui, na intenção de que pensemos ou repensemos o papel que estamos desempenhando em relação às tecnologias, assim como o papel social que estamos, individualmente, assumindo e interpretando dentro do todo.

 

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A vida como espetáculo

PDF (1,2 Mb), 9 páginas

 

 

Em homenagem à descoberta do Bóson de Higgs, a dita “Partícula de Deus”

Publicado em 11 de outubro de 2013 por Olegario Schmitt
michelangelo

 

Quanto avanço já não teríamos feito se nos ocupássemos mais em descobrir a Verdade em detrimento de simplesmente ganhar discussões? Pelo contrário, parece que o que queremos mesmo é ter razão! “Ter razão”, aliás, é um contra-senso, assim como seria a expressão “estar certo” — é inerente à natureza humana querer que seu pensamento seja considerado como verdadeiro, não importando muito se ele verdadeiramente o seja.

Isso parece ser expressão de uma outra característica que permeia o comportamento humano, e talvez a pior delas: a sede pelo Poder. PoderDeter a verdade infere em exercer poder sobre quem não a detém, significa decidir e controlar o que é certo e o que é errado, o que é verdadeiro e o que é falso, de acordo com as próprias conveniências e com o uso do raciocínio ou da força, tanto faz.

Porque se estivéssemos realmente preocupados em alcançar a Verdade, não teríamos discussões, mas unicamente diálogos. Estabeleceríamos relações dialéticas, no sentido platônico do termo: “debate entre interlocutores comprometidos com a busca da verdade, através do qual a alma se eleva, gradativamente, das aparências sensíveis às realidades intangíveis ou idéias”. Em lugar disso o que mais vemos são as guerras, embates em escala global ou pessoal, e ambos igualmente devastadores à evolução humana, com cada um dos lados querendo estar mais certo do que o outro.

Nós já passamos da primeira década do Século XXI e isso é extremamente grave. Após os mais de mil anos de trevas da Idade Média pensávamos que, finalmente, havíamos renascido e alcançado a Era das Luzes.Era das
Cruzadas
Um milênio de controle da Igreja sobre o que deveria ser considerado verdade, com aqueles que discordavam sendo convenientemente traspassados pelas lanças dos Cruzados ou incinerados nas fogueiras da Inquisição, deveria ter sido suficiente para o nosso despertar.

Infelizmente não foi. O que vimos e estamos vendo cada vez mais com o avanço da Ciência, principalmente no último século, está se transformando lentamente numa verdadeira Cruzada Científica, onde apenas o que a Ciência diz ser verdade é efetivamente verdade. Exatamente ao contrário do que a Religião fazia antes.

Mais uma vez recaímos no Calcanhar de Aquiles da humanidade: a necessidade de Poder, seja ele real ou ilusório, trazendo em seu encalço tudo aquilo que a alimenta — vaidade, ignorância e desumanidades. Mais uma vez, em detrimento de estabelecermos relações dialéticas entre “duas” verdades, a Religiosa e a Científica, o que temos é uma guerra constante e tácita pelo poder da Razão, como se houvesse qualquer razão numa guerra.

Para termos uma vaga noção do quanto essa “briga” entre Ciência e Religião é estúpida, e o quanto nós, seres humanos tão científicos, não deveríamos ser tão estúpidos assim, muito pelo contrário, podemos considerar rapidamente alguns pontos de duas teorias “contrárias” de criação: a Teoria Criacionista (religiosa) e a Teoria Evolucionista (científica).

Pela primeira, dizem os textos sagrados que D’us criou Adão e Eva. E logo aí já parece ocorrer um lapso comum de interpretação pois o que D’us criou não foi exatamente Adão, mas ‘āḏām. ‘āḏām é uma expressão de origem hebraica significando tanto ‘āḏām & hawwâ“humano” quanto “a partir da terra” (‘ăḏāmâ: terra, barro). Aquele que nasce de ‘ăḏāmâ (terra) é ‘āḏām: “a partir da terra”, ou “nascido do barro”, ou “humano”, mantendo não por acaso o radical encontrado também em “húmus” (do latim humus: chão, solo, terra). E, a partir de uma costela de ‘āḏām, criou ‘iššâ (mulher), a qual mais tarde seria chamada por ‘āḏām de hawwâ (mãe de tudo o que vive).

É preciso sempre levar em conta o altíssimo nível simbólico, metafórico e metafísico dos textos sagrados. Nenhuma palavra do texto original foi empregada por acaso, cada uma delas possuindo sentidos ocultos intrínsecos e interconectados. É preciso levar em conta também que as religiões, assim como a filosofia, têm origem nos mitos, ou seja, em relatos simbólicos de natureza arquetípica. Talvez o que seja importante nos textos sagrados não é exatamente o que é dito, mas sim o significado do que é dito, o sentido dos fatos e das palavras utilizados para transmitir uma idéia. É a idéia que importa, e não necessariamente o fato em si.

O fato, que ao longo dos séculos foi extensamente adaptado, transcodificado, mal-interpretado e mal-traduzido (intencionalmente ou não), é que em nenhum momento D’us criou um homem chamado Adão e uma mulher chamada Eva, porque Adão e Eva não são substantivos próprios. São, aliás, muito mais adjetivos (“nascido da terra” e “mãe de tudo o que vive”) do que substantivos!

Mas o ser humano em geral tem essa dificuldade inerente em lidar com o sublime e com as idéias abstratas. Dá mais trabalho, exige mais meditação, reflexão e raciocínio: é mais fácil pensar que D’us criou um homem chamado Adão e uma mulher chamada Eva, do que tentarmos alcançar o verdadeiro significado existente na imagem de D’us insuflando seu hálito no barro e fazendo dali surgir a vida.

Some a isso a nossa necessidade estéticanecessidade estética por imagens, e daí para os “retratos” feitos por Michelângelo na Capela Sistina será apenas um pulo!

E, no meio disso tudo, a origem da vida de acordo com a visão religiosa deixa com extrema facilidade de ser um relato simbólico com intenção de transmitir uma mensagem, algo que só pode ser plenamente alcançado dentro de um certo grau de abstração, e passa a ser um fato, inclusive com seus personagens devidamente nomeados (e através da arte sacra eles passaram a ter não apenas um nome, mas também um rosto — é assim que eles se parecem!). D’us não apenas deixa de ser algo inominável, inimaginável e incomensurável, como passa a ser um velho de barba branca posando para os indiscutivelmente maravilhosos retratos de Michelangelo!

Um dos argumentos utilizados por aqueles que afirmam que a Bíblia não passa de literatura, é que a Ciência não apenas diz, mas comprova através de experimentos científicos, que a vida teve sua origem em um sopão orgânico formado principalmente por aminoácidos e proteínas. Afirmam, inclusive, que o barro ou, como gostam de dizer, “os minerais argilosos”, formaram não apenas o suporte, mas também o próprio sistema genético da vida primitiva. ‘āḏām, lembra?, aquele nascido a partir da terra? De que maneira uma coisa nega a outra?

O que a Ciência nunca conseguiu replicar, e muito menos explicar, foi como essa sopa química adquiriu vida de repente, mas afirma veementemente que não foi um sopro divino,nem um sopro de evidência pois “não há evidências científicas” que o comprovem. Mesmo assim ela sabe… ou melhor, a Ciência crê (se não conseguiu provar nem uma coisa nem outra mas ainda afirma que apenas uma delas é verdade, então isso é uma crença, não é?) que não foi o sopro divino com a mais absoluta certeza! Para ela, tolos são apenas os crentes, que crêem sem ter provas!

A Ciência sabe, no entanto, que no princípio eram seres unicelulares muito simples, semelhantes a amebas, que de repente — ela também não sabe como, nem porquê — adquiriram a capacidade de se dividir em dois. O que ela sabe — utilizando palavras no sentido figurado para que a Ciência, essa tola, seja capaz de compreender — é que arrancando a costela de uma ameba, dá pra fazer duas amebas (e me perdoem, ambos os lados, se isso for blasfêmia). Essas amebas então podem fazer sexo e se reproduzir, produzindo outras amebas. Bilhões e bilhões de amebas de anos depois, darwinianamente — e, convenhamos, com inúmeras evidências científicas irrefutáveis —, sabemos que isso acabou por originar seres hominídios, entre outras bestas.

Mas é claro que não foi assim, e agora a Religião é quem sabe, porque se está escrito na que não foram bilhões e bilhões de anos e sim sete dias, começando exatamente num domingo mesmo num tempo em que não existia calendário, então têm de ser exatamente SETE dias. Também não podem se tratar de imagens metafóricas permitindo às pessoas, com toda sua ignorância na época em que os textos foram registrados, compreenderem facilmente os setes estágios de evolução da criação do universo e, sobretudo, entenderem o primordial: “da terra à terra, do pó ao pó”, conforme ratifica cientificamente a Lei de Lavoisier: “na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”.

Nunca existiram tantos ateus quanto agora. E o resultado geral desse ateísmo está aí para todo mundo ver: decadência moral, cultural e política para todos os lados! Essa é a nossa evolução, é assim que evoluímos de seres religiosos em seres científicos, e é assim que a Ciência tem nos tornado “superiores”. O ser humano até hoje, em pleno Século XXI, falha em compreender que não consegue chumanidade capengaaminhar de maneira eficaz quando unicamente apoiado ou sobre a Ciência ou sobre a Religião, e que talvez seja por isso que temos dois braços, duas pernas, dois olhos e dois hemisférios cerebrais (um, aliás, responsável pelo raciocínio lógico, e o outro pelo pensamento simbólico — mas fazemos mau uso dos dois igualmente). E também acontece, para nossa sorte ou tragédia, de termos apenas uma boca, e é nesse ponto que começa a despencar essa Torre de Babel frágil que é a humanidade, com tantas verdades diferentes sendo vociferadas aos quatro ventos.

Por uma questão de lógica, a Verdade é só uma, não sendo possível que existam duas delas, sobretudo se uma nega a outra e vice-versa. Não houvesse essa espécie de guerra pelo Poder da Verdade, talvez conseguíssemos finalmente admitir que ambas, Religião e Ciência, não são verdades contrárias (não implicando, portanto, que uma delas seja necessariamente falsa), mas sim visões e abordagens diferentes sobre a mesma coisa. E é justamente essa coisa, esse todo como um todo, que é a Verdade. E é justamente esse Todo que a Ciência está a milhas e milhas distante de compreender MINIMAMENTE, que é D’us.

É necessário e saudável que existam vários pontos de vista sobre a mesma Verdade. Talvez nem mesmo seja possível que a Verdade seja alcançada, ou mesmo considerada como tal, se não for dessa forma, a partir da união pacífica e dialética de visões aparentemente dicotômicas. Elas deveriam se somar em vez de se excluírem, permitindo assim que fosse alcançada uma verdade muito mais ampla. Enquanto insistirmos que uma é mais verdadeira do que a outra, ou ainda pior, que apenas uma é a única Verdade verdadeira, continuaremos a nos perder de nós mesmos.

Será apenas com a amplidão do pensamento alcançada através do reconhecimento e da humildade do espírito que poderemos chegar pelo menos a sonhar em estarmos mais perto de algo que possamos chamar de Verdade de Todas as Verdades.

Os gritos de torcida e a catarse velada da homossexualidade latente

Publicado em 16 de maio de 2013 por Olegario Schmitt
Frutinhas

Frutinhas

O jogo do Corinthians ontem pelas oitavas de final da Libertadores chamou atenção para algo que apenas um surdo não perceberia: a infinidade de homens, torcendo por este time ou contra ele, gritando alucinados nas janelas dos edifícios: “chuuuupaaaaaa! Chupa que é de uvaaaa”.

Ah, as coisas que as pessoas fazem e dizem sem ter a mínima idéia de tudo o que deixam escapar pelas frestas, à disposição das interpretações do observador mais atento… Você já parou para pensar no que significa realmente a expressão “chupa que é de uva”?

A origem dessa expressão está na música homônima de uma banda de forró eletrônico chamada “Aviões do forró”, lançada em 2009:

“Na sua boca eu viro uva.
Chupa que é de uva.
Chupa. Chupa. Chupa.
Chupa que é de uva”.

A esse ponto, dadas as referências, acho que já é possível deferir o contexto sócio-cultural onde isso tudo se encerra.

Para que não se diga que isso tudo é coisa da minha cabeça, Luizane Schneider, mestre em Processos Lexicais, Retóricos e Argumentativos,  afirma que “[chupa que é de uva] sesexo oral refere ao sexo oral”, acrescentando que “O verbo chupar no modo imperativo indica que o homem está impondo sexo oral à mulher. Considerando-a um ser inferior e de fácil acesso, que pode ser facilmente iludida[…]”.

Me desculpem a baixeza da afirmação, mas tratar mulher como objeto sexual e não como um ser humano é coisa de viado. Psicologicamente, há vários processos envolvidos em tal postura. Ao subjugar a mulher, o homem reafirma para si mesmo sua superioridade, seu poder, e também sua própria masculinidade. Deixando de lado os conceitos complexospsicologia da viadagem e usando uma linguagem extremamente simplória: macho que é macho tem plena consciência de si mesmo. Se não houvesse nele qualquer sombra de dúvidas, seja quanto a sua heterossexualidade ou quanto à sua superioridade/poder/igualdade, não precisaria afirmar e/ou reafirmar qualquer coisa que fosse nesse sentido. Donde se infere o óbvio: além de ser coisa de viado, diminuir as mulheres é coisa de frouxos que, consciente ou inconscientemente, se sabem frouxos.

A origem dessa expressão está, portanto, envolvida na questão do exercício de poder sobre a mulher, pois a música é cantada por um homem. A coisa muda um pouco de figura, no entanto, quando homens gritam-na para outros homens, com toda força de seus pulmões, das janelas dos edifícios ou das arquibancadas dos estádios.

Na sociolinguística há algo conhecido como “inferência”. Segundo Holanda (2001), inferênciainferência é “deduzir pelo raciocínio”. Beaugrande e Dressler afirmam também que a inferência “consiste em suprir conceitos e relações razoáveis para preencher lacunas e descontinuidades de um mundo textual”.

Através da inferência ela mesma é possível se chegar a toda sorte de conclusões. Voltando à gritaria de ontem, basicamente o que cada homem estava gritando para os outros homens do(s) time(s) adversário(s) era: “faça sexo oral em mim”. Ora, como se sabe, estando dois homens envolvidos em tal atividade, não importando aí quem faz e quem recebe, ambos são igualmente homossexuais. Ou, ao menos, estão homossexuais.

Pode-se, obviamente, dizer que era “mera força de expressão” visando demonstrar/exercer poder sobre a torcida adversária, não havendo aí, portanto, qualquer fundo fatídico ou real.

Mas dizem Sperber & Wilson (2001) que “a comunicação é feita pela pessoa que comunica ao fornecer evidência de intençõesuma evidência de suas intenções, e pelo ouvinte a inferir as intenções dele a partir dessa evidência” e que “a comunicação inferencial ostensiva consiste em tornar manifesto a um receptor, a intenção de se tornar manifesto em nível básico de informação”.

Ou seja, nada realmente muda o fato de que homens estão gritando para outros homens que lhes façam sexo oral e estabeleçam, dessa forma, relações homossexuais consigo. catarseNão se trata de juízo de valor, assim como também não importa o pretexto utilizado: nenhuma das possíveis inferências, com todos seus contextos sócio-culturais, muda o fato de que é exatamente isso o que está sendo não apenas dito, mas gritado em forma de catarse.

“Na sua boca eu viro uva” “Chupa que é de uva”, gritavam os corinthianos de um lado. “Senta que é de menta”, respondiam os adversários de outro. E, por momentos podia-se chegar a pensar que não se tratava, afinal, de futebol. Pois que da próxima vez façam o favor de arrumar uma cama e de deixar meu silêncio em paz!

 

 

BEAUGRANDE, Robert-Alain de; DRESSLER, Wolfgang. apud NETO, Reginaldo Nascimento. Inferências: a força persuasiva do dito pelo não dito no estabelecimento de comportamentos sociais. UNIOESTE, 2008.
HOLANDA, Aurélio Buarque de. Dicionário de Língua Portuguesa. 5. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2001.
SCHNEIDER, Luizane. A depreciação da mulher em inferências musicais. Link
SPERBER, Dan & WILSON, Deirdre. Relevância: comunicação e Cognição. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2001.

Dos procariontes aos seres humanos, passando por Michel Teló

Publicado em 06 de maio de 2013 por Olegario Schmitt
Cabeça de porco

Cabeça de porco

Só para deixar claro, funk é cultura. Pode não ser cultura erudita (ou, se me permitem a redundância, “cultura culta”), mas definitivamente é cultura — da mesma forma que uma pintura, sendo ela boa ou ruim, ainda é arte plástica (não é, Nuno Ramos?). É como disse Arnaldo Antunes: “bactérias num meio é cultura”, de forma que até mesmo Arnaldo Antunes é cultura.

Deixando as bactérias de lado por enquanto, quantas vezes já ouvimos a expressão “nunca tive acesso à cultura”?… Pois bem, na segunda década do século XXI, 3Gs, 4Gs, falta de acessoinclusões digitais e etecéteras depois, todo tipo de cultura está ao alcance de um clique. A velha desculpa do “não ter acesso” a cada dia se mostra exatamente isso mesmo, uma desculpa. Não cola mais.

Ou o que levaria o vídeo mais visto da 5ª Sinfonia de Beethoven ter 16 milhões de acessos no Youtube durante o período de CINCO ANOS, em comparação ao funk “Ah Lelek Lek Lek Lek” com 34 milhões de acessos no período de TRÊS MESES? Falta de acesso à cultura?

“metarrefrão microtonal e polissemiótico”É fato inquestionável que, dos que tiveram acesso ao Youtube, a avassaladora maioria preferiu o (segundo Tom Zé) “metarrefrão microtonal e polissemiótico” grudento e rasteiro em detrimento às harmonias altamente sofisticadas, complexas e elaboradas da 5ª Sinfonia.

Sim, você pode usar aqueles argumentos fáceis e discursos prontos da filosofia de boteco sobre a deficiência da educação, o contexto sócio-econômico, a corrupção em Brasília, etc., etc.. E em partes isso até explicaria as dicotomias existentes entre um extremo e outro da escala da cultura… mas explicaria também “Ai Se Eu Te Pego” sendo a 6ª música mais vendida NO MUNDO em 2012, com seu respectivo vídeo tendo quase 500 milhões de acessos em um ano?

Como a educação e o contexto sócio-econômico explicariam o sucesso de Michel Teló na Europa, continente supostamente mais civilizado e mais culto que o nosso? Como se justifica mundo civilizadoo seu sucesso na mesma Europa mãe de Beethoven e Mozart e Shakespeare e Victor Hugo ou na Itália avó de Cícero e Sêneca, mãe de Vivaldi e Verdi, se isso não é nem mesmo justificável num país pai de Villa-Lobos e Machado de Assis? (E, convenhamos, Machado de Assis está acessível em todo canto por menos de R$ 10,00).

Não, não são as faltas de acesso, hábito, costume e/ou educação (enfim, cultura ela mesma) que justificam os sucessos Lelek/Ai se eu te pego: o que justifica isso tudo é a própria mediocridade humana.

Nós, seres humanos, parecemos conter em nós mesmos a tendência inata para sermos medíocres… “Medíocre”, aliás, não parece ser uma palavra muito adequada, pois lembra aquilo que é “mediano”, que “está no meio termo”, e a natureza humana manifestada claramente em nossas escolhas musicais está em sua imensa maioria mais para rasteira mesmo, como qualquer coisa que se arraste entre a lama e o brejo.

Assim sendo, não nos deixemos iludir pelos bilhões de anos que levamos para evoluir de procariontes até seres humanos. Não nos iludamos também pelas existências de Mozart ou Einstein. Apesar de serem da mesma espécie que a nossa, eles são excessões. amebas darwinianas: questão de DNAMichel Teló é o padrão (do contrário, não faria sucesso).

É como se ainda tivéssemos enraizados nas profundezas do nosso ser traços indeléveis do DNA daquelas mesmas amebas darwinianas, incrustados em nossos espíritos muito mais profundamente do que em nossos corpos.

“Do pó ao pó”, dizem o Gênesis e o Eclesiastes. Acrescente aí um pouco de água e teremos bastante lama para chafurdarmos a vida inteira entre um extremo e outro. E o que mais tem na lama, como sabemos, é cultura de bactérias! W. Churchill, que gostava de porcos, não me deixa mentir: “Os cães olham-nos de baixo, os gatos de cima. Os porcos olham-nos de igual para igual”.

Religião, Direito, Arte e Livre Expressão podem conviver harmoniosamente?

Publicado em 11 de fevereiro de 2011 por Olegario Schmitt

Oblatvs, Castelo de Vide – Portugal
Série MundoVastoMundo

Abordar um assunto essencialmente religioso sob uma ótica laica pode ser pretensioso, mas mesmo assim possível, com algum esforço. Basta, na verdade, separar o joio do trigo e não analisar o assunto sob um ponto de vista que facilmente poderá resvalar no fanatismo.

Afinal, não se trata aqui, em primeira instância, de uma questão de religiosidade, daquilo em que cada um crê ou deixa de crer, mas sim de respeito, ou melhor, de respeito ao direito natural questão de respeitoalheio de ter suas crenças — não importando, obviamente, em qual religião, credo ou filosofia —, assim como, igualmente, o respeito ao direito de cada indivíduo de não ter nenhuma delas. Isso é inalienável, princípio básico de civilidade e humanidade e, por isso, uma questão moral. Continuar lendo »

Argumentos rasos, trabalhos rasteiros…

Publicado em 05 de outubro de 2010 por Olegario Schmitt

Freqüentemente são utilizadas expressões como “esse trabalho é muito rasteiro” ou “esse é um argumento raso”. Mas rasteiro é perto do chão e chão já é quase profundo. Do raso para o profundo, igualmente, basta um passo, a despeito do grande risco de se cair num abismo.

Talvez fosse mais apropriado dizer “esse trabalho atingiu as nuvens” ou “esse argumento é estratosférico”, da mesma forma que se fala de objetos voadores não identificados.

Sim, porque certas obras e determinados argumentos parecem ter sido criados por verdadeiros alienígenas, os quais falam uma“conversação alienígena” língua que apenas eles compreendem. Some-se a isso os habitantes de outros planetas, que não têm nada a ver com o planeta em questão, mas unem-se aos primeiros seguindo a dinâmica outsider, não significando que os segundos necessariamente compreendam a língua dos primeiros, mas sabem fingir muito bem.

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Você é daquele tipo que não julga? Parabéns, você é um cretino!

Publicado em 28 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Lago Argentino, El Calafate

Todo conceito é ou será um preconceito. Isso se dá a partir do momento em determinada pessoa pense diferente de você. O que acontece então é que o conceito DELA é que será o conceito, e o seu será o pré-conceito.

Taxar algo de preconceito é algo que não chega realmente a ser um argumento, mas sim um golpe baixo, tão baixo a ponto de fazer A Arte de Insultar de Schopenhauer um livro para crianças em fase pré-cognitiva.

Trata-se de uma argumentação vazia em si mesma: por ser preconceito, não tem sentido, mas “argumento vazio”não tem sentido UNICAMENTE por ser preconceito. Atente-se também para o fato de que o acusador não considera sua própria definição ela mesma um preconceito: preconceito é unicamente o conceito do outro.

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Porque Time Nenhum é muito legal!

Publicado em 12 de janeiro de 2010 por Olegario Schmitt

Sobretudo aqui no Brasil, sempre há essa exigência de que se torça para algum time de futebol. É por isso que quando conto qual é meu time do coração costumo receber reações variando desde “o que há de errado com ele?” até “de que planeta ele veio?”, com as mais diferentes gradações entre um e outro extremo.

Pois saibam todos que da mesma forma que há torcedores do Flamengo, do Corinthians e até do Palmeiras, eu sempre fui torcedor roxo de Time Nenhum. Time Nenhum ganha todos os campeonatos; Time Nenhum rouba meu tempo que poderia ser gasto com inúmeras outras coisas mais interessantes; Time Nenhum tem uma camiseta diferente todos os dias, ao contrário dos outros times, que usam quase sempre a mesma, de desenho sofrível; Time Nenhum não incita a violência das torcidas adversárias; Time Nenhum detesta conversas de futebol.

Aquele argumento de que “futebol é a alegria nacional” é uma grande estopada. O Campeonato Brasileiro sendo disputado todos os anos por 40 times diferentes, quem torce para qualquer um diferente de Time Nenhum tem 97,5% de chance de se tornar um perdedor. Torcer para outro time que não o meu é fazer uma escolha praticamente certa de ser triste no final do campeonato e de se tornar um perdedor em outro setor de sua vida além dos outros todos de sempre.

Portanto, deixem-me em paz com a escolha do time do meu coração: Time Nenhum me traz alegrias.

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