Tião – O Macaco-Criança

Conto infantil

Literatura

Tião – O Macaco-Criança

Conto infantil

Publicado em 03 de fevereiro de 2005 por Olegario Schmitt

O circo ensina as pessoas a rir

da ingenuidade perdida dos animais.

Nesse caso, a “humanização” dos bichos

reflete claramente a falta de humanidade das pessoas

projetada em um macaco de vestido,

camuflada sob os risos.

 

Olegario Schmitt. Os Animais no Circo
In: No Pé da Letra, Ed. Blocos, 1999

Olá, criançada! O meu nome é Macaco Tião e eu trabalho no circo. Eu gosto muito quando as crianças riem das minhas travessuras, porque eu adoro crianças. Eu mesmo ainda sou um macaco-criança e não tenho nem dois anos. Agora eu queria que vocês prestassem bastante atenção, porque eu vou contar a história de como vim parar nesse circo.

Antes de trabalhar aqui eu vivia na floresta com o papai, a mamãe, o meu maninho Pimpolho e o resto da macacada. Lá em casa era sempre uma grande festa com a bicharada toda se divertindo muito, pulando de galho em“o Pimpolho sempre foi muito piolhento” galho e fazendo o maior alvoroço. O que eu mais gostava de fazer era catar piolhos no meu mano, que o Pimpolho sempre foi muito piolhento. Ele deitava de barriga pra cima num galho e deixava eu ficar catando os bichinhos na sua pelagem macia. A mamãe sempre estava por perto, porque éramos muito pequeninos ainda para podermos ficar sozinhos. O papai, do topo das árvores com aquela sua cara seriíssima, cuidava de todos nós.

Até que um dia apareceu lá em casa um grupo de caçadores com espingardas, redes e cães furiosos. Assim que viu aquilo, a macacada toda deu no pé o mais rápido que pode, fazendo alarido floresta afora, até que não fossem mais ouvidos por entre as folhagens. Mas a mamãe não conseguia fugir tão rápido quanto eles, porque tinha que nos carregar consigo. Então ela nos colocou em seu peito e nos agarramos firmemente nos seus pelos, tomando o maior cuidado para não cair como costumávamos fazer. O papai estava muito furioso, agitando seus braços e grunhindo de um jeito ameaçador.

Os caçadores impiedosos acertaram mamãe com uma dose de tranqüilizantes, com papai eu não sei o que houve. A mamãe foi ficando com muito sono e por pouco não despencou com a gente daquela altura toda onde estávamos. Nós três fomos capturados com uma rede, depois injetaram tranqüilizantes em mim e no meu mano também.

Quando acordei, eu já estava aqui, trancado nessa jaulinha escondida nos fundos do circo. Tão logo consegui ficar de pé, apareceu um senhor de bigodes com um chicote na mão. O nome dele é Sr. Domador e ele é muito mau. “O nome dele é Sr. Domador e ele é muito mau.”Mandava-me fazer coisas que eu não tinha nem idéia que existiam, como andar de bicicleta e virar cambalhota estrelinha. E eu também não entendia por que macacão tem esse nome se nós, macacos, nem gostamos de usar roupas. Depois de muitas chicotadas, aprendi muitas coisas. Hoje eu sei andar de bicicleta e sempre faço piruetas quando o Sr. Domador me manda. Eu nunca ouso contrariá-lo, porque da última vez que fiz isso, ele me deu mais chicotadas do que o normal e me deixou dois dias inteirinhos sem ração. Ai, que saudade do leitinho morno e adocicado da mamãe…

Nunca mais vi o papai, a mamãe ou mesmo o meu mano Pimpolho e todos os dias eu rezo muito para que eles estejam bem. Quando eu rezo, peço também a Deus que um dia os circos não tenham mais bichinhos como eu ou como o urso Babão — ele é babão porque vive lembrando de como era bom comer mel direto nas colméias das árvores e então ele se baba todo. O Babão também sabe andar em duas pernas como uma pessoa e às vezes eu faço de conta que ele é a mamãe, mas não é a mesma coisa.

Eu queria muito que vocês fizessem as mamães e os papais de vocês entender que o nosso lugar — o meu, o “O nosso lugar é no mato e não num picadeiro de circo”do Babão e de todos os outros bichos — é lá no meio do mato e não num picadeiro de circo e muito menos numa jaula. Conte para eles que o Sr. Domador aproveita-se da gente para ganhar dinheiro, sem ligar nem um pouquinho para o que realmente precisamos.

E lembrem-se também que existem muitos circos que são bem legais. São circos onde só tem gente, diferentes desse onde trabalho, e nesses circos também existem muitos palhaços, contorcionistas e malabaristas bem melhores do que eu, que sou apenas um macaquinho.

Sabe, eu gosto muito de fazer piruetas para as crianças rirem porque, como eu já disse, eu mesmo também sou um macaco-criança. Mas da próxima vez que algum de vocês for me assistir no circo ou até na televisão, lembrem que mesmo eu gostando muito de fazer vocês rirem, só ando de bicicleta e faço piruetas no picadeiro porque senão o Sr. Domador me enche de chicotadas e me deixa sem comida. E expliquem pros seus pais, que o que eu mais queria mesmo no mundo era um dia poder voltar para a minha casa lá na floresta e, sob o olhar cuidadoso do papai, me aninhar mais uma vez nos pelos macios da mamãe e ficar catando os piolhos do meu maninho Pimpolho.

Comentários

  1. Maurício Kann
    18 de agosto de 2007

    Belo conto! Que bom conhecer seu trabalho.

  2. Clarice
    2 de maio de 2013

    Triste realidade dos animais, usados pelo homem para o lucro, assim como no rodeio e em tantos outros, numa vida infeliz. 🙁

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