Suíte para Solo de Violoncelo

Conto funesto, sur­re­a­lista e alucinado

Literatura

Suíte para Solo de Violoncelo

Conto funesto, sur­re­a­lista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo aca­bado de se por, a tem­pe­ra­tura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ven­ti­la­dor de teto, de modelo anti­quado e pás muito lar­gas, gira vaga­ro­sa­mente sobre sua cabeça, mal e mal insi­nu­ando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes mati­za­das da rua vão tin­gindo len­ta­mente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inse­pa­rá­vel Suíte para Solo de Violoncelo.

A música pre­en­che o ambi­ente com os tim­bres angus­ti­an­tes daquele ins­tru­mento, cujo som ele acre­dita se asse­me­lhar ao choro incon­so­lá­vel que brota do fundo da gar­ganta de uma viúva. É com­ple­ta­mente tomado por mal de vivre um estado de tor­por, parte cau­sado pela pró­pria tem­pe­ra­tura, parte pelo mal de vivre que lhe acom­pa­nha desde sem­pre, mons­tri­nho de esti­ma­ção esse ao qual ali­menta inces­san­te­mente com novos deses­tí­mu­los, seja calor, música, ou pen­sa­men­tos obscuros.

Afunda-se na pol­trona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigo­ro­sa­mente do fundo de suas entra­nhas vai cres­cendo cada vez mais con­forme se deixa inva­dir pelos acor­des gra­ves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pas­toso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe for­nece um dedo ávido o qual vai intro­du­zindo com deses­pero e sofre­gui­dão bem fundo“lim­pando o salão” no seu nariz. Em ges­tos cir­cu­la­res, cavouca o inte­rior de seu septo bus­cando lá den­tro alguma coisa, uma idéia escon­dida, uma lágrima soli­di­fi­cada, um pedaço do pró­prio cére­bro que tenha escor­rido pelas nari­nas, qual­quer coisa que torne sua vida pior.

Após essa luta fer­re­nha, na cer­teza da sua soli­dão abso­luta, limpa os des­po­jos da caçada na pró­pria camisa. A música cresce, torna-se mais deses­pe­ra­dora, pare­cendo que a qual­quer momento o ins­tru­mento desa­bará sobre si mesmo diante dos movi­men­tos fre­né­ti­cos impos­tos por Yo-Yo Ma sem qual­quer traço de hesi­ta­ção, daquela maneira deci­dida mas ao mesmo tempo cheia de um amor sofrido que lhe brota do fundo do espí­rito. O arco fere as cor­das, as quais liber­tam um pranto rouco antes de final­mente deixarem-se domi­nar, não sem nenhuma resis­tên­cia, às ordens vir­tu­o­sas de seu mestre.

As luzes da rua pro­je­tam nas pare­des exó­ti­cas fili­gra­nas fei­tas uni­ca­mente de som­bra. Sem­pre gos­tou de obser­var essa dança soturna feita de ausên­cias, de ficar por horas a fio adi­vi­nhando nelas as mais diver­sas for­mas, como se estas fos­sem a sua espé­cie par­ti­cu­lar de nuvens.

Invo­lun­ta­ri­a­mente, seus olhos aten­tam para a foto­gra­fia sinis­tra de uma casa antiga que, mesmo des­co­nhe­cendo sua his­tó­ria, insiste em man­ter na parede junto às fotos de famí­lia. Lembra-se ape­nas de tê-la encon­trado, branca e preta, toda car­co­mida de tra­ças e fun­gos, entre os per­ten­ces de seu avô, numa das suas garim­pa­gens infin­dá­veis no sótão do falecido.

Lembra-se tam­bém que naquele ambi­ente empo­ei­rado de sua infân­cia, as ima­gens que então gos­tava de obser­var nas pare­des eram for­ma­das não por som­bras, mas por nes­gas de luz que atra­ves­sa­vam as fres­tas pelo vão do teto e atra­vés dos vidros que­bra­dos da janela. Ime­di­a­ta­mente lhe vem à“o sótão da infân­cia” memó­ria aquela sen­sa­ção de per­der a noção do tempo, con­cen­trado e soli­tá­rio, garim­pando obje­tos esque­ci­dos em toda sorte de tra­qui­ta­nas, cai­xas empo­ei­ra­das e mis­té­rios inson­dá­veis. Cur­tia inven­tar men­tal­mente suas pró­prias his­tó­rias para cada coisa que encon­trava, já mani­fes­tando desde então essa ten­dên­cia inata a coi­sas funes­tas: nesse pedaço de tule foi enro­lado o cor­pi­nho pálido de minha tia-avó nati­morta, com essa adaga de prata meu tio cor­tou os pul­sos após pro­funda desi­lu­são amo­rosa, tendo sido encon­trado por meu avô ape­nas cinco dias depois, já inchado naquele canto mesmo do sótão...

De repente, tem a impres­são de que as som­bras na parede da sua sala for­mam o con­torno de peque­nas mão­zi­nhas fúne­bres e fan­tas­ma­gó­ri­cas que pare­cem apon­tar em dire­ção à foto­gra­fia, jun­ta­mente com a quase-certeza de ouvir tam­bém peque­nos cochi­chos infan­tis se mate­ri­a­li­zando no meio da sala, para ime­di­a­ta­mente depois, entre risi­nhos ner­vo­sos, se dis­per­sa­rem no vazio do espaço.

Per­cebe que a foto­gra­fia parece ter uma fonte de luz pró­pria a qual, bro­tando de algum lugar inde­fi­nido, é pro­je­tada uni­ca­mente sobre ela. O calor e a música aumen­tam, envolvendo-o ao mesmo tempo em que flu­tuam no meio da sala. O ambi­ente, começa a ficar tur­vado, distanciando-se de si cada vez mais e for­mando um vór­tice a par­tir da fotografia.

Em ins­tan­tes, vê-se trans­por­tado para den­tro da sala de estar daquela casa sinis­tra da ima­gem. “den­tro da foto­gra­fia” Ape­sar de não ter memó­ria sobre que lugar seja aquele,consegue adivinhá-lo ins­tin­ti­va­mente. Ouve, vindo de algum ponto dis­tante, a alga­zarra de cri­an­ças que brin­cam de roda ao som de uma can­tiga que, como a pró­pria casa, lhe é bas­tante fami­liar e ao mesmo tempo desconhecida.

Ao pas­sar, um cão sar­nento de olhos ver­des e ace­sos como duas lan­ter­nas roça sua perna para logo em seguida, vol­tando a cabeça para trás, mostrar-lhe seus den­tes expos­tos. Sem qual­quer aviso, o cão prin­ci­pia a derreter-se como se feito de cera, enquanto solta um uivo dia­bó­lico e cheio de dor. Aos pou­cos vai fundindo-se sobre si mesmo, aca­bando por transformar-se em uma rata­zana bas­tante imensa e em avan­çado estado de decomposição.

Cho­cado e para­li­sado dos pés à cabeça, olha atô­nito para aquela besta, que lhe retri­bui o olhar. Nota que ela, ao levan­tar sua cabeça em dire­ção a ele, prin­ci­pia a can­tar uma antiga mar­chi­nha de car­na­val, que lem­bra ter ouvido muito na infân­cia, em com­pa­nhia de seu avô:

Rato, rato, rato
Assim gri­ta­vam os com­pra­do­res ambu­lan­tes
Rato, rato, rato,
Para ven­der na aca­de­mia aos estu­dan­tes
Rato, rato, rato
Dá bas­tante amo­la­ção
Quando pas­sam os garo­tos, todos rotos
A com­prar rato, capitão

Sem dar-lhe tempo para se recu­pe­rar do susto, a rata­zana começa a devo­rar a si mesma, a par­tir do pró­prio rabo. Aquilo que o bicho mas­tiga e engole ter­mina por escor­rer atra­vés de suas cos­te­las expos­tas, dei­xando ape­nas uma gosma pas­tosa “rata­zana líquida“e escura abaixo de si. Quando resta final­mente ape­nas sua cabeça sobre uma poça putre­fata, ela con­clui seu espe­tá­culo sór­dido aspirando-se pelo pró­prio nariz. Tomado de náu­sea, vê aquela massa amorfa por fim transformar-se com­ple­ta­mente em um enorme gato, preto, gordo e de olhos ver­des cin­ti­lan­tes, o qual, por sua vez, sai em dis­pa­rada no ins­tante em que ouve o latido rai­voso de um cão pres­tes a agarrar-lhe, mas que no entanto nunca aparece.

Para­li­sado e total­mente pos­suído pelo mais puro medo, aguarda mais alguns ins­tan­tes para ver se algo mais acon­tece, mas nada. Tudo é silên­cio, na sala e fora dela.

Len­ta­mente pro­cura tomar ciên­cia do local onde está. Cor­ti­nas de veludo, que tal­vez um dia tives­sem sido verde-musgo, pen­dem pra­ti­ca­mente desde o teto até o chão, dei­xando pas­sar ape­nas peque­nas nes­gas de luz pelas fres­tas, as quais acen­dem as par­tí­cu­las de poeira que flu­tuam no entre­luz da sala. Dois sofás anti­gos com o esto­fado com­ple­ta­mente ras­gado repou­sam “o ambi­ente“sobre um tapete persa puído e des­bo­tado, entre­me­a­dos por uma escar­ra­deira de por­ce­lana trin­cada. Do lado oposto, uma pol­trona de estilo colo­nial pende envi­e­sada para frente, com uma das per­nas que­brada. No cen­tro da sala, sob um lus­tre pesado de cris­tal ama­re­lado e com diver­sos pin­gen­tes fal­tando, percebe-se a mesa de cen­tro, feita de már­more e par­tida ao meio como se tivesse cedido ao pró­prio peso do tempo.

O resto da sala encontra-se envol­vido pela penum­bra. A atmos­fera nau­se­a­bunda tem um ar pesado e espesso que cheira a mofo, carne podre e urina de gato.

Veri­fica que há algum deta­lhe na mesa de cen­tro e, movido pela curi­o­si­dade, resolve inves­ti­gar mais de perto. Um cala­frio lhe atra­vessa a espi­nha quando, nas ins­cri­ções enta­lha­das dire­ta­mente na pedra, con­se­gue ler per­fei­ta­mente o seu nome, sua data de nas­ci­mento e o dia de hoje. Um gemido rouco e pro­fundo escapa de sua gar­ganta enquanto, tre­mendo com­pul­si­va­mente, dirige seu olhar para o canto de cima do már­more, onde uma mol­dura oval pra­te­ada deixa ante­ver uma foto­gra­fia ama­re­lada e reco­berta pela poeira. Limpa o vidro com a palma da mão e dessa vez o grito de hor­ror é liber­tado com toda a força de seus pul­mões, pois per­cebe cla­ra­mente que a pes­soa naquela foto é na ver­dade ele mesmo e que a mesa do cen­tro da sala é a sua pró­pria lápide.

Tonto, vai sen­tindo o calor do ambi­ente tomar o seu corpo, o ar pesado e fétido impedindo-lhe de res­pi­rar. Suas per­nas vão per­dendo as for­ças e seu corpo pende len­ta­mente em dire­ção ao chão.

Caído sobre o tapete, em posi­ção fetal e com a cabeça repou­sada sobre seu braço, a sen­tir os cala­frios da morte lhe arre­pi­ando os ossos, ainda vis­lum­bra a um canto o vulto obs­cu­re­cido de um objeto.

Pouco a pouco, sua vista se acos­tu­mando com a penum­bra, dis­tin­gue se tra­tar de um velho vio­lon­celo com a haste que­brada e várias cor­das arre­ben­ta­das. O corpo do ins­tru­mento pende para um lado e o res­tante jaz, em defi­ni­tivo e mor­tal silên­cio, esten­dido à sua frente.

As cri­an­ças reto­mam sua alga­zarra típica enquanto den­tro da sala um som de vio­lon­celo começa a cres­cer “Pre­lú­dio“bro­tando do nada. Reco­nhece ime­di­a­ta­mente aquela música tão fami­liar. É o Pre­lú­dio e con­forme suas pál­pe­bras len­ta­mente vão se fechando tenta, com os olhos cheio de pânico, dar seu último sus­piro, mas o ar não lhe vem.

Acorda num pulo, ten­tando puxar fôlego sofre­ga­mente, mas seu nariz está entu­pido. Engole, enfim, o ar pela boca de maneira deses­pe­rada, como um nada­dor que volta à tona depois de um mer­gu­lho pro­fundo. Trê­mulo, sente seu cora­ção pal­pi­tar agi­tado, o fluxo do san­gue pul­sando ace­le­rado junto aos seus ouvidos.

O vinil, tendo che­gado ao fim, faz um chi­ado repe­ti­tivo girando em falso no toca-discos. Em algum lugar, ainda ouve cri­an­ças can­tando aquela velha can­ção de roda.

Comentários

  1. Raquel Yoshiura
    21 de março de 2010

    Ole­ga­rio,

    Pasma!

    Ratos?! Ahhh... senti um frio na espi­nha, uma angústia.

    Pre­ciso de um doce!

    Escreva mais... Gostei!

    bj

  2. Estelle
    12 de abril de 2010

    Uma mis­tura de Gabriel Gar­cia Mar­quez e os con­tos de Kafka. Foi o que me veio de sen­ti­mento quando li. Não con­se­gui não ir até o fim. Bj

  3. Ole­ga­rio Schmitt
    13 de abril de 2010

    Mmle. Gau­tier, fico muito feliz que você tenha gostado.

    Sabe, essas coi­sas que você disse, aqui e pes­so­al­mente, é em busca desse tipo de rea­ção que a gente escreve, em busca de pro­vo­car emo­ções e ima­gi­na­ções em quem lê.

    Obri­ga­dão pelo seu retorno. Abraço apertadOle

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