
Lembrança da época em que eu vivia atolado em apurações de saldo — e pensava, secretamente, na ironia do destino que era um poeta atolado em números —, posto aqui esse soneto libertário, verdadeira catarse contábil, na asserção exata do termo.
Soneto Contábil
Eu confesso: odeio a Distribuição
Do Lucro Líquido Sobre o Capital Próprio,
Os Impostos de Renda e a Apuração
Do Lucro do Exercício, porque o grande ópio
Da minha vida sempre será o ócio,
Ficar coçando o saco sem preocupação
Com os clientes ou os lucros dos negócios,
Esquecer os prazos e a queda da inflação,
Mandar pro inferno toda a incomodação
Do escritório e daqueles empresários
A quem a gente nunca pode dizer não,
Passar os dias numa completa vadiação
Sem nunca mais lembrar do Livro Diário
E do Balancete de Verificação!
08.11.2002
Hoje vivo feliz, atolado em códigos HTML, xHTML, PHP, Perl, ASP, JavaScripts e ActionScripts, além de animações em Flash e bancos de dados MySQL. Em vez das Contribuições Sociais ou dos Lucros Bruto e Líquido do Exercício, preocupo-me agora com as variáveis das functions, os targets dos keyframes das timelines, os ifs, elses e dowhiles — e fico imaginando o quão irônico é o fato de eu achar isso tudo o máximo...
Soneto Camoniano Agateemélico
(Reprogramado)
Eu confesso: amo as Programações
“Agateeméle”, “peagapê” e javascript,
As variáveis, as functions, os Do Ifs,
Else e Do Whiles, porque o grande ópio
Da minha vida sempre será o código,
Desenhar o site todinho em Flash
Buscando a completa satisfação
Dos clientes através do equilíbrio
Estético da programação visual,
Fazer do computador extensão
Dos meus braços, agindo tal e qual
Um nerd: vivo em contínua clicação
E, através do menu ou do botão,
Faço o upload bem no meu coração.
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