Prado Veppo

Homenagem ao grande poeta santamariense

Literatura

Prado Veppo

Homenagem ao grande poeta santamariense

Publicado em 02 de outubro de 2005 por Olegario Schmitt

Luiz Guilherme do Prado Veppo (1932-1999)
Ilustração: Felipe Stanque Machado Junior

I

No primeiro dia, alguns homens
Plagiaram a revolta dos anjos
E instituíram o Direito
Divino dos Reis;

No segundo dia, a menina-moça Maria
Que morava num presépio de lata
Passou a se chamar de Madalena;

No terceiro dia, boiaram peixes
Na pesca milagrosa
Das minas submarinas;

No quarto dia, a água
Foi transformada em vinho
E os frustrados
Amanheceram bêbados;

No quinto dia, a Estrela de Belém
Desceu do eterno céu de Nagazaki
Metamorfoseada em bomba
E o Sol nasceu de dentro da terra;

No sétimo dia, o poeta Jesus
Caiu mais uma terceira vez
Sob o peso da vida desumana.

II

Então as crianças, os pássaros
E as flores
Pediram ao Dilúvio
Que os levasse
Porém as águas ficaram retidas
Nas represas
E o vento fugiu como um louco
Para não servir de testemunha.

III

Mas no primeiro dia, a História
Adolesceu cantando a Marselhesa;

No segundo dia, Madalena
Foi compreendida
E Maria foi perdoada;

No terceiro dia, a multidão
Passou a clamar
Pelo peixe e pelo pão;

No quarto dia, floresceu um cravo
Na boca do bêbado
Que morreu na calçada;

No quinto dia, com as pedras
Que soterraram o pai
Os filhos de Pedro
Começaram a edificar o sonho;

No sexto dia, a noite
Trouxe todas as estrelas
E a de Belém
Reapareceu ressuscitada;

No sétimo dia, a Poesia
Empurrou a porta do futuro.

Prado Veppo

In: Passos do Vislumbre, IELivro (RS), 1994

Comentários

  1. Iara callegaro
    18 de setembro de 2008

    Esta semana, minha filha da 1ª série estava buscando poemas para falar na escola. Lembrei daquele lindo/pequno poema que ouvi Prado Veppo recitar na biblioteca pública da querida Santa Maria:

    Tem dias que brigo comigo

    Me chamo de louco

    De eterno covarde

    Me chingo até tarde

    Depois me enterneço

    Me nano

    ….

    Que saudade deste querido poeta(não o conheci como médico), mas recitando Vinícios e seus poemas e falando com seu geito manso e nunca opressor.

    Senti saudades dele e desta cidade, santa Maria, onde na década de 80 tínhamos uma excelente dinâmica cultural. Me pergunto: será que ainda temos estas vivencias culturais ou o mercado e a industria cultural tomaram conta desta cidade? (Moro fora do RS há 18 anos)

    Alguém por aqui compartilhou este peródo comigo?

    um abraço na certeza de que as coisas boas devem ficar em nossas referencias.

  2. Olegario Schmitt
    19 de setembro de 2008

    Iara,

    interessantíssimo o seu comentário.

    Realmente Prado Veppo era um sujeito bastante doce.

    E simples, como tive a oportunidade de perceber ao conhecê-lo pessoalmente.

    Infelizmente a década de 80 passou. Não apenas em Santa Maria, a década de 80 passou para o mundo.

    As coisas agora são diferentes. Não saberia dizer, no entanto, se são diferentes para melhor ou para pior.

    As coisas são como são, enfim.

    Também não vivo mais lá. Mudei-me de corpo e alma para São Paulo.

  3. Felipe Stanque Macha
    1 de novembro de 2008

    Mais trabalhos de Felipe Stanque Machado Junior em:
    http://felipestanque.blogspot.com

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