Pedro lembrando Inês

Para ti, “que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite”…

Literatura

Pedro lembrando Inês

Para ti, “que me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a manhã da minha noite”…

Publicado em 03 de outubro de 2005 por Olegario Schmitt

Máscara da Alegria Eterna

Pedro, Lembrando Inês

Nuno Júdice


Em quem pensar, agora, senão em ti? Tu, que
me esvaziaste de coisas incertas, e trouxeste a
manhã da minha noite. É verdade que te podia
dizer: «Como é mais fácil deixar que as coisas
não mudem, sermos o que sempre fomos, mudarmos
apenas dentro de nós próprios?» Mas ensinaste-me
a sermos dois; e a ser contigo aquilo que sou,
até sermos um apenas no amor que nos une,
contra a solidão que nos divide. Mas é isto o amor;
ver-te mesmo quando te não vejo, ouvir a tua
voz que abre as fontes de todos os rios, mesmo
esse que mal corria quando por ele passámos,
subindo a margem em que descobri o sentido
de irmos contra o tempo, para ganhar o tempo
que o tempo nos rouba. Como gosto, meu amor,
de chegar antes de ti para te ver chegar: com
a surpresa dos teus cabelos, e o teu rosto de água
fresca que eu bebo, com esta sede que não passa. Tu:
a primavera luminosa da minha expectativa,
a mais certa certeza de que gosto de ti, como
gostas de mim, até ao fim do mundo que me deste.


In: Pedro, Lembrando Inês, Ed. D. Quixote, 2001

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