Para­nóia Completa

Pela oca­sião do aten­tado ao escri­tó­rio da ONU em Bagdá, o qual viti­mou o diplo­mata bra­si­leiro Sér­gio Vieira de Mello.

Literatura

Para­nóia Completa

Pela oca­sião do aten­tado ao escri­tó­rio da ONU em Bagdá, o qual viti­mou o diplo­mata bra­si­leiro Sér­gio Vieira de Mello.

Publicado em 16 de maio de 2004 por Olegario Schmitt

Cabe­ças cor­ta­das - Série Mat­ches

silên­cio & com­pleta soli­dão para estar em con­tato com minhas entra­nhas.
mas vizi­nhos. vizi­nhos azu­cri­nam o tempo todo.
às vezes sinto von­tade de ani­qui­lar meus vizi­nhos.
todos eles. agora mesmo fazendo baru­lho
nos cor­re­do­res. por­tas batendo, cam­pai­nhas tocando,
tro­lo­lós sobre a vida alheia. morte aos vizi­nhos!
poda­do­res da com­pleta liber­dade do ser humano!

deve­mos todos adaptar-nos à von­tade alheia?
mas qual von­tade den­tre todas deverá pre­do­mi­nar?
devo obe­de­cer à sín­dica fun­ci­o­ná­rios seguindo
os pas­sos do gerente? deve­mos todos ser iguais ao pre­si­dente?
e quem será o pre­si­dente do meu ins­tante, da minha pátria,
do meu mundo e da vida do meu filho que explode?

por isso agora serão 22h em nova ior­que e tal­vez mela­nie
esteja lá sen­tindo o pânico de viver sem bro­adway
que sus­tente a insus­ten­tá­vel leveza do ser.
tal­vez ela só qui­sesse poder feijão-com-arroz nova­mente.
ape­nas a tranqüi­li­dade de ser bra­si­leiro sem pré­dio
da onu matando amigo maneira trá­gica da demo­cra­cia existir.

colhendo o que plan­tou como pode Aquele Homem dor­mir
tendo a insô­nia de uma mãe, de um filho, de milha­res de pes­soas
anô­ni­mas a ele, anô­ni­mas à sua cons­ci­ên­cia tranqüila?

como pode That Hit­tler Upgrade, aquele Verme
com Olhos de Águia dor­mir em paz depois
que os fru­tos flo­res­cem, que as fru­tas apo­dre­cem
e ver­tem em lágri­mas nos pei­tos ras­ga­dos medi­dos
em esta­tís­ti­cas? a dor de uma mãe é mais uma esta­tís­tica
no seu tra­ves­seiro e Aquele Homem dorme tranqüilo.
como ele consegue?

mas vizi­nhos. vizi­nhos azu­cri­nam o tempo todo.
às vezes tenho von­tade de ani­qui­lar os vizi­nhos.
todos eles. agora mesmo inva­dindo bagdá ou
a minha pri­va­ci­dade. agora mesmo inva­dindo
o meu direito ego­cên­trico ao mono­pó­lio do instante.

pois anô­nimo a bagdá eu durmo agora. sem pre­si­den­tes
ou vizi­nhos meu sonho segue, sem bar­rei­ras.
ao menos há uma maneira de ser com­ple­ta­mente livre.

silence & com­plete lone­li­ness
to be in touch with my own entrails.
but neigh­bours. neigh­bours annoy all the time.
some­ti­mes I want to annihi­late my neigh­bours. all of them.
right now making noise in the cor­ri­dors. doors knoc­king, bells rin­ging,
foo­lish tal­king about another’s life. death to all neigh­bours,
trim­mers of the com­plete human being’s freedom!

right now will be 10 pm in new york and maybe mela­nie
is living the panic of being there without bro­adway
sus­tai­ning the unbe­a­ra­ble light­ness of being.
maybe all she wants is just rice-and-beans again,
just the tran­qui­lity of being bra­zi­lian without uno buil­dings
kil­ling fri­ends, tra­gic ways of the demo­cracy to exist.

why everyone should try to adapt to another’s wishes?
is it writ­ten somewhere in people’s minds
whose wishing of all should pre­vail over our own?
should we obey the syn­dics employees fol­lowing mana­gers?
should we all fol­low our nati­o­nal pre­si­dents?
but who’s the pre­si­dent of my ins­tant, who’s the pre­si­dent
of my whole world and of my explo­ding son’s life?

having what was plan­ted, how can That Man sleep in peace
with the insom­nia of a mother, of a son, of thou­sand peo­ple
to him anony­mous, anony­mous to his tran­quil cons­ci­ence?
how can That Hitler Upgrade, that Eagle Eyes worm sleep
in peace when fruits burn and putrefying flowed in tears?

rip­ped bosoms can be mea­su­red in sta­tis­tics?
a mother’s pain is just one more sta­tis­tic in his pil­low
and That Man sle­eps in peace. how can he do that?

but neigh­bours. neigh­bours annoy all the time.
some­ti­mes I want to annihi­late my neigh­bours. all of them.
right now inva­ding bagh­dad or my own pri­vacy.
right now inva­ding my right to the mono­poly of the instant.

miles away from bagh­dad, I also sleep now. no more bar­ri­ers.
at least there is a way to be com­ple­tely free.

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