Literatura

Contos, crônicas, poesias e traduções.

Literatura

Meio-termo da cara!

Publicado em 03 de junho de 2009 por Olegario Schmitt

Série Alguns de Meus Órgãos Sexuais

O Nariz

Rafael Alcides Perez

O nariz tem condição de juíz.
Ao contrário do olho esquerdo e do direito, que tomaram partido,
o nariz, inescrutável, se mantém ao centro
— com algo de espada ou de martelo.
Imitando-o, a boca.
Porém a boca é hipócrita:
sorri à esquerda e à direita.

Tradução: Olegario Schmitt


La Nariz

Rafael Alcides Perez

La nariz tiene condición de juez.
Al contrario del ojo izquierdo y del derecho, que han tomado partido,
la nariz, inescrutable, se mantiene en el centro
— con algo de espada o de martillo.
Imitándola, la boca.
Pero la boca es hipócrita:
sonríe a la izquierda y a la derecha.

In: Y se mueren y mueren y mueren. Venezuela, 1988

Para Jung

Publicado em 02 de Maio de 2009 por Olegario Schmitt

Really a Self-Portrait

Aprendi a amar o Outro
dentro de mim.

Meu Mr. Hyde, meu irmãozinho
feio, meu monstrinho
de estimação.

Não mais censuro suas ações
repugnantes e rebeldes:
em vez disso, acolho-o
em meus braços cheios
de doçura maternal.

Digo-lhe mansamente
“meu pobre monstrinho,
por que tanta revolta?”

Ronroa sonolento
— não passa de um gatinho
assustado dormindo
no meio da sala.

Olegario Schmitt

Acróstico fotográfico

Publicado em 14 de Janeiro de 2009 por Olegario Schmitt

Uma história difícil de acreditar

Publicado em 30 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

R.I.P.

Deu-se que não comia porco. Nem puchero, nem morcilha, nem cabeça, nem torresmo. Em suma, não comia nada daquilo que fazia um gaúcho verdadeiramente gaúcho, macho fodedor de tendências zoófilas — e de toda gaúcha uma fêmea intimamente resignada, submissa ao seu provedor.

Mas não era o fato em si de não comer porco que os agredia. Antes, era simplesmente a ausência de algum motivo plausível: se não pudesse fazê-lo devido a doença gravíssima, vá lá. Transformar-se-ia inclusive numa espécie de mártir da tradição, impedido unicamente pela própria vida em risco — não seria simplesmente por vontade de não comer:“sem motivo plausível” “Querer até que queria, coitado, mas não podia”, diriam eles entre si, mas somente na sua ausência e com aquele ar falsamente consternado de quem vislumbra o doce sofrimento alheio. Se viesse a morrer por intoxicação, então, mais do que mártir seria herói, sua história contada e recontada ao longo das gerações. “Aquilo sim que era gaúcho”, diriam com olhar sonhador e sem disfarçar uma pontinha de inveja…

Se quisesse, mas não pudesse, então esse fato inexplicável estaria enfim explicado. Mas não possuía úlcera gástrica ou triglicerídios nas nuvens ou ameaça iminente de infarto nem herpes que fosse para justificar sua falta. Nadinha de nada.

Dava-se unicamente o absurdo de não comer porco, e por isso era visto como alguma espécie de extraterrestre aterrisado de algum planeta mui longínquo e exótico, do qual a gente só sabe a existência de ouvir falar ou através da TV. “alienígena homossexual” Um planeta habitado unicamente por homossexuais não-comedores-de-porco. Um planeta de maricas não-pujantes e que, pelo andar da carroça, tudo levava a crer que também não arrotavam ou peidavam em público, não expeliam cuspe ao coçar o saco, não seguravam os ossos com as mãos e não utilizavam palitos de dentes nem mesmo em privado.

Um gaúcho que não comia porco, eis aqui uma história digna de se contar. Ver esse sujeito mesmo com meus próprios olhos, nunca vi. Mas quem viu e me contou jura que isso é verdade. Um verdadeiro absurdo, como se pode perceber.

Consórcio de cirurgias plásticas

Publicado em 02 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Cher

Ultimamente as pessoas têm andado mais esticadas: cirurgia plástica, botox, lipoescultura… é um tal de corta, estica e costura sem fim.

Tenho uma velha tia que já foi tão esticada, mas tão esticada, que quando você acha que ela está sorrindo está na verdade “tudo jóinha?”com cãibra no dedão do pé. E quando ela diz “jóia” com o dedão da mão direita o dedo do meio da mão esquerda faz um gesto obsceno. É por isso que ela só faz “jóia” com a mão esquerda no bolso e a ponta do pé esticada.

Se todas as suas operações para levantamento dos seios tivessem sido feitas de uma única vez, chegaríamos à alarmante conclusão de que eles acabariam parando nas omoplatas. A sorte da senhora — de tetas perfeitas — é ter idade suficiente para ter distribuído todas essas cirurgias ao longo dos anos.

E quando você observa o quadril escultural e a barriguinha perfeita, até esquece que ela mandou retirar quatro costelas dali. É nesse ponto que a expressão “corpo escultural” acaba sinistramente adquirindo outro sentido e pergunta-se: até que ponto?

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A história de uma viciada… em orelhas!

Publicado em 02 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Lady Spirro

Meus olhos cintilantes cor-de-telha estão vidrados no monitor, ao mesmo tempo em que os meus dedos destripam furiosamente o teclado.

São 22 horas e o sol azul se põe no horizonte vertical da Net-Heart, enquanto Lady Spirro engole “viciada… em orelhas”mais uma de minhas orelhas.

Preciso fazer com que ela pare com isso, já é a terceira orelha minha que ela come só nessa semana e eu acho que ela está ficando viciada. Estou preocupado.

Lady Spirro é uma coisa estranha. Há alguns anos atrás eu me arriscaria a chamá-la de mulher, mas hoje eu não sei mais de nada. Ainda mais com essa gosma verde que escorre incessantemente dos seus lábios.

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E de expressar esse sentimento

Publicado em 02 de dezembro de 2008 por Olegario Schmitt

Olegario Schmitt - A Cor do Som de Uma Onda - Acrílica sobre vidro

Meu amor, amar é mais simples do que se poderia supor, sabias? Amar é mais fácil do que a gente imagina e há muitas maneiras, muitas intensidades de se sentir essa coisa.

Eu, por exemplo, quando digo “eu te amo” não quero com isso dizer que tu és o grande amor da minha vida, tampouco é uma promessa de que o que sinto será eterno.

Por isso, quando digo “eu te amo” não sintas medo e não entres em pânico de forma alguma, pois não imponho a esse “sem esperar nada em troca”sentimento qualquer tipo de responsabilidade recíproca. Não espero por esse sentimento qualquer tipo de resposta ou atitude, pois amar é sentir sem cobrar, sem querer nada em troca. Amar é simplesmente sentir.

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Antropomorfização dos animais de estimação

Publicado em 03 de novembro de 2008 por Olegario Schmitt

Primo Lucas

Por acaso existe acaso? Após ter escrito o artigo anterior (Animais de Estimação), eis que este livro vem parar em minhas mãos: Sobre o Olhar, de John Berger, com tradução de Lya Luft.

Segue um trecho do primeiro artigo, chamado “Por que olhar os animais?”:

No passado, famílias de todas as classes mantinham animais domésticos porque eles serviam a um objetivo útil — cães de guarda, cães de caça, gatos para matar ratos, e assim por diante. A prática de manter animais independente de sua utilidade, manter exatamente os animais de estimação (no século XVI, a palavra habitualmente se referia a um cordeiro criado na mamadeira) é uma inovação moderna e, na escada social em que atualmente existe, é única. É parte daquele afastamento universal porém pessoal para dentro da pequena unidade privada da família, decorada ou mobiliada com objetos do mundo exterior, que é um traço tão distintivo das sociedades de consumo.

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