Nalú Nogueira

Essa poeta é uma serendipidade ambulante

Literatura

Nalú Nogueira

Essa poeta é uma serendipidade ambulante

Publicado em 12 de agosto de 2009 por Olegario Schmitt

terminal

Nalú Nogueira

quero rasgar a dor das coisas terminadas
não pousar os olhos sobre as fotografias
não torturar-me com a leitura das palavras
doces — agora eternamente frias.

quero espicaçar minh’alma descaradamente inútil
com o velho picador de gelo prateado
furar também a carne sem servência
refazer-me — em desvelo e prudência

e afogar em fogo alcoólico o terror
das noites em que foge o perdão
(vai bem distante)
em gelo tilintante sufocar soluços
de autopiedade
apelar para a santíssima trindade
em gritos hereges de embriaguez desvairada.

sair na calçada gritando:
— alguém me possua!
e esperar que venha qualquer miserável
que me coma e me livre, enfim,
de ser tua.

o piano

Nalú Nogueira

Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.

sobre as dores

Nalú Nogueira

Falta-me o ar.
A noite desceu com
o peso de mil toneladas
sobre os meus ombros
esquálidos:

— que posso eu contra
o peso de mil sonhos destruídos?

Soneto para cantar a dor

Nalú Nogueira

quero fazer os versos mais sentidos
para cantar ao mundo a dor que sinto
com minha voz de vidro estilhaçado
e o meu olhar de sombras revestido.

quero escrever os versos mais bonitos
dizer: ó noite, bruma aveludada!
ó querubins valsando em plena lua!
ó lumiar de estrelas do infinito!

mas vou dizer os versos mais doídos
jogar a dor que sinto em cada face
entrar em dor e alma em cada ouvido

e assim tocar, talvez, o mais descrente
e exorcizar, quem sabe, o que me mata
e crer, por fim, num deus que não me bata.

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