Impres­sões Para­do­xais com Resquí­cios de Dali

Na fru­teira as per­gun­tas a res­pon­der mis­tu­ra­das com laran­jas e as per­gun­tas res­pon­di­das mis­tu­ra­das com limões

Literatura

Impres­sões Para­do­xais com Resquí­cios de Dali

Na fru­teira as per­gun­tas a res­pon­der mis­tu­ra­das com laran­jas e as per­gun­tas res­pon­di­das mis­tu­ra­das com limões

Publicado em 19 de agosto de 2006 por Olegario Schmitt

Meta­mor­fose de Nar­ciso — Sal­va­dor Dali

Rete­sar os ner­vos
endu­re­cendo para sem­pre minha nuca.
Mas­ti­gar pedras
e assim for­ta­le­cer meus den­tes.
Com cica­tri­zes
cons­truir for­ta­le­zas intrans­po­ní­veis.
Minha alma está presa.
Com clau­su­ras viver meu dia.
São pou­cos cacos
cons­truindo minha lápide,
mesmo enter­rado
meu corpo é inde­feso.
E assim amar um pouco,
um pouco, que seja.
Viver nas tre­vas,
desin­ven­tando o novo.

Tenho tan­tas coi­sas a pôr fora...

Aqui se encon­tra um pen­sa­mento per­dido,
ali uma janela para sem­pre aberta
aba­nando eter­na­mente a um vento que vem do norte,
um disco do 1937 World Jazz Fes­ti­val
que­brado como a boca ban­guela de Cae­tano,
um pouco mais adi­ante a minha perna,
na fru­teira as per­gun­tas a res­pon­der
mis­tu­ra­das com laran­jas
e as per­gun­tas res­pon­di­das
mis­tu­ra­das com limões,
a minha outra perna envol­vida por meus bra­ços
num gesto deses­pe­rado de auto-proteção,
e por fim a minha cabeça dedi­lhando um eterno poema,
apoi­ada de leve sobre meu cora­ção
que bate asas a um canto, inconsciente.

Ole­ga­rio Schmitt

In: No Pé da Letra, Blo­cos, 1999, RJ

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