gilda

A his­tó­ria de uma infanta nada infantil

Literatura

gilda

A his­tó­ria de uma infanta nada infantil

Publicado em 12 de março de 2007 por Olegario Schmitt

Cri­an­ças víti­mas das minas — Fran­cesco Zizola

gilda, Seus Olhos e Seu Sorriso


era uma nega fulô
à qual cha­ma­vam de gilda.
e para ela rir gos­toso
os três meni­nos faziam-lhe cóce­gas:
um na sola dos pés,
o outro no sovaco,
e o outro na barriga.

depois um dedo no umbigo,
catar pio­lho na flo­resta miúda de pelos...
e aquele cheiro
de fruta sucu­lenta e úmida
enchendo o ar
enchendo os sen­ti­dos
enchendo as cuecas...

em troca
eles lhe davam
as suas sementes.

e ela lhes devol­via
o seu olhar vazio
e o seu sor­riso
sem dentes.



gilda e o Cobertor


gilda foi para a capi­tal com a famí­lia
aju­dando a inchar a bar­riga
do cin­tu­rão da miséria.

gilda sem sobre­nome,
gilda inó­cua e sem história.

para seus pais
era mais uma pedra
sobre a bar­riga,
mais uma bar­riga
sem pedra.

gilda, por ser tão nada,
até de enterro foi pou­pada
e agora é uma ferida
soter­rada pelas pedras.

doze anda­res de con­creto
da cons­tru­ção demo­lida.
um para cada ano
de sua vida sem alento.

eis a anja tosca agora tapada
por um cober­tor ainda mais frio
do que não teve em vida.

gilda nunca ganhou aquilo que não havia:
amor numa bar­riga vazia
ou ajuda dessa gente sombria.

sob os entu­lhos nin­guém pro­cu­rou
aquilo que não sabia existir...

gilda, esque­cida,
teve ape­nas o tra­ba­lho de sor­rir
com seu sor­riso sem den­tes,
fechar os seus olhos vazios
e mor­rer de frio.



gilda e as Sementes


mor­reu gilda
com as semen­tes den­tro
e ainda vivas

ai, aquela negui­nha fulô
e seu sor­riso sem den­tes
ai, aquela negui­nha fulô
e seu corpo doente.

gilda dava aula de saca­na­gem
sem nunca ter ido à aula.
gilda era crack
em bebe­ra­gem
e em enfor­car
suas bone­cas que­bra­das
e atirá-las do alto
dos seus doze anos.

tão bai­xi­nho gilda estava
que nem se ouvia o baru­lho
do seu corpo caindo
do seu corpo fodendo
desmaiado.

e sobre tudo pai­rava
ainda o seu sor­riso sem den­tes
como que para mos­trar
que não era ela o doente.

eram qua­tro cri­an­ças
que não brin­cam de roda.

os três fazem um cír­culo
e fumam mais uma pedra.

esquece-se da fome
esquece-se de gilda
esquece-se do frio.

esque­cido
mais um dia nasce
e os olhos não vêem mais nada.


In: O Amor & Outras Coi­sas Que Coçam, Ed. do Autor, 2003

Comentários

  1. Viní­cius Mariano
    9 de maio de 2007

    ugh! feliz­mente os teus — e outros — olhos vêem ainda alguma coisa, e as tuas expres­sões sabem mos­trar :-) = me lem­brou o filme “Anjos do Sol”, já viste? abraços!

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