Do escri­tor como assassino

As simi­la­ri­da­des entre escri­to­res e serial-killers

Literatura

Do escri­tor como assassino

As simi­la­ri­da­des entre escri­to­res e serial-killers

Publicado em 24 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Escre­ver é uma forma de crime e, por isso, todo escri­tor cul­tiva den­tro de si carac­te­rís­ti­cas pecu­li­a­res a um serial-killer. Como este, con­se­gue igno­rar sole­ne­mente aquela vozi­nha do ego que diz “você não deve­ria fazer escre­ver isso, vão aca­bar pen­sando que você está falando é de você mesmo”. O assas­sino em série, como o escri­tor, na ver­dade sabe muito bem dife­ren­ciar o certo do errado, mas sim­ples­mente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impe­lisse a matar escre­ver”. “Quando vol­tei a mim, já havia come­tido o crime conto”.

Todo escri­tor é um sór­dido. Nas cenas finais de Ham­let, os per­so­na­gens inva­ri­a­vel­mente matando-se uns aos outros, Sha­kes­pe­are nada faz para impedi-los. Ele pode­ria trans­for­mar, subi­ta­mente, as espa­das em len­ços de seda e os vene­nos em pur­gan­tes, evi­tando assim o trá­gico des­fe­cho. Mas Sha­kes­pe­are não faz nada. E se não faz nada é por­que na ver­dade ele gosta.

Todo escri­tor é por natu­reza sus­peito e obs­trui a jus­tiça. Sendo ao mesmo tempo men­tor inte­lec­tual e tes­te­mu­nha ocu­lar de tudo o que acon­tece nas suas his­tó­rias — incluindo per­so­na­gens “quando vi, já havia pulado pela janela“mor­rendo mis­te­ri­o­sa­mente a torto e a direito —, quando inter­pe­lado cos­tuma dizer de maneira lacô­nica: “quando vi, já havia pulado pela janela” ou “o per­so­na­gem criou vida pró­pria, não havia nada que eu pudesse fazer a res­peito”. Isso quando não acaba, com a maior cara de pau do mundo, colo­cando a culpa inteira no mordomo.

De todos os cri­mes, sobre­tudo, o escri­tor é ladrão: apropria-se com a maior des­fa­ça­tez das carac­te­rís­ti­cas físi­cas, psi­co­ló­gi­cas, ínti­mas e sen­ti­men­tais da vida alheia. “Sabe o que me acon­te­ceu hoje?”. “Não...”, res­pon­derá ele, fazendo ar de desin­te­resse — parece que estou vendo — enquanto na ver­dade por den­tro já lhe cor­rói a idéia trans­for­mar aquilo tudo em crô­nica. “Conte-me tudo, nos míni­mos deta­lhes...” acres­centa, mas sem demons­trar inte­resse demais senão você des­con­fia. O escri­tor apropria-se das for­mas de pen­sar e agir dos outros, roubando-lhes deta­lhes da casa, da voz, as rou­pas, os tre­jei­tos... e trans­forma tudo em personagem.

O escri­tor é um per­ver­tido. Os atos de sadismo explí­cito aos quais Cla­rice Lis­pec­tor nos sujeita com maes­tria san­gui­ná­ria,“sofrer sem pie­dade” só alcan­çam o sucesso pleno — e por sucesso compreenda-se fazer-nos sofrer sem pie­dade — por­que fazem uso meti­cu­loso da nossa curi­o­si­dade mór­bida que nos impele a saber o des­fe­cho da cena ou os deta­lhes do aci­dente de trân­sito, por pior que ele seja.

Eu sen­tia agora o nojento na minha boca, e então come­cei a cus­pir, a cus­pir furi­o­sa­mente aquele gosto de coisa alguma [...] eu cus­pia a mim mesma, sem che­gar jamais ao ponto de sen­tir que enfim tivesse cus­pido minha alma toda”1. Cla­rice não usa chi­cote, usa pala­vras. E nós gos­ta­mos de apa­nhar dela. Dupla per­feita. Quando o escri­tor é um sádico, o lei­tor é masoquista.

Todo escri­tor é um psi­co­pata maqui­a­vé­lico que uti­liza o texto como meio de fuga, pro­je­ção e rea­li­za­ção dos seus dese­jos os mais secre­tos. Afi­nal de con­tas e para todos os efei­tos, o escri­tor mesmo não faz nada: quem faz é o per­so­na­gem, o qual só faz obe­de­cer cega­mente a tudo o que o seu men­tor lhe comanda.

Se você per­gun­tar a um escri­tor se deter­mi­nada his­tó­ria é auto­bi­o­grá­fica ele quase sem­pre res­pon­derá que não, “auto­bi­o­gra­fia“por­que o escri­tor é um falso. E se age dessa forma é por­que lhe apraz escon­der as evi­dên­cias de que tudo o que uma ter­ceira pes­soa faz numa his­tó­ria não passa dele mesmo pro­je­tado nela.

Daí a simi­la­ri­dade intrín­seca entre o escri­tor e o serial-killer. São inú­me­ros os cri­mi­no­sos que cha­mam seus atos de “obras”. Con­se­guindo sub­ju­gar o ego — que inva­ri­a­vel­mente dirá que aquilo é errado — a rea­li­za­ção dos dois será com­pleta, porém com resul­ta­dos (quase sem­pre) distintos.

É impor­tante escla­re­cer que aque­les que cru­zam o cami­nho de um escri­tor cor­rem sério perigo. Não de ter um objeto fur­tado — o qual, afi­nal, pode­ria ser facil­mente“sério perigo” subs­ti­tuído ou read­qui­rido —, mas o perigo de ter fur­tado aquilo que lhe é mais intan­gí­vel: a inti­mi­dade. O perigo não é de vir a ser assas­si­nado lite­ral­mente, mas lite­ra­ri­a­mente. A morte e os livros duram para sempre.

Nin­guém escapa. Alguns, como Lya Luft, são tão des­ca­ra­dos que che­gam a con­fes­sar aber­ta­mente: “certo dia num almoço fiquei obser­vando a famí­lia à mesa, e aque­las pes­soas tão conhe­ci­das me pare­ce­ram umas enor­mes sal­si­chas”2. Essa, pelo menos, é honesta e parece não uti­li­zar sub­ter­fú­gios. Mas se alguém per­gun­tasse, cer­ta­mente diria se tra­tar de outra famí­lia que não a sua própria.

Creio que foi após ter per­ce­bido essas coi­sas devido ao pro­fundo con­tato com todo tipo de evi­dên­cias de cri­mes his­tó­rias, que Mário Quin­tana, poeta hábil, tra­du­tor de Proust — e, por­tanto, conhe­ce­dor da natu­reza íntima do escri­tor —, vati­ci­nou: “para o bem das águas e das almas, assas­si­ne­mos o poeta”3.

1 LIS­PEC­TOR, Cla­rice. A pai­xão segundo G. H. Rio de Janeiro: Rocco, 1964.
2 LUFT, Lya. Pen­sar é trans­gre­dir. Rio de Janeiro: Record, 2004.
3 QUIN­TANA, Mário in O Apren­diz.

Comentários

  1. Mar­cos
    28 de março de 2010

    Bons escri­to­res são assas­si­nos, mas como não amá-los? São ladrões, mas que bom que rou­bam. A huma­ni­dade agra­dece. Deli­ci­oso texto (quan­tos você matou ou rou­bou para fazê-lo? rsrsrsr)

  2. Ole­ga­rio Schmitt
    28 de março de 2010

    hehehe. acho que foi mais um “sui­cí­dio” mesmo.

    obri­gado pelo comentário.

  3. Paulo RkSp
    26 de maio de 2010

    Um serial kil­ler do tipo dexter !

  4. Dani­ela Borges
    18 de maio de 2011

    Ora essa, senhor serial kil­ler, aca­bou de fazer-me sua vítima e ainda me fez gos­tar disso! Muito bom!

  5. Fer­nando (J.José)
    6 de fevereiro de 2012

    Olá!

    Faço parte de um blog sobre auto­res, lei­tura e livros, e como achei muito inte­res­san­tes este seu artigo, fiz um “post” com um link redi­re­ci­o­nando para ele para que os nos­sos usuá­rios pos­sam, tam­bem, ter o pra­zer de ler.

    Espero que não esteja vio­lando o seu direito de autor e, se assim for, é só nos avi­sar que o reti­ra­mos imediatamente.

    Um abraço

  6. Ole­ga­rio Schmitt
    7 de fevereiro de 2012

    Olá, Fer­nando.

    Obri­ga­dão pelo link. Não se pre­o­cupe sobre os direi­tos de autor: ao mesmo tempo que os defendo fer­re­nha­mente, tam­bém sou adepto da prá­tica do “fair use”. Não have­ria pro­blema algum se você citasse o “introito”, por­tanto, ao mesmo tempo que uma ati­tude trans­pa­rente como a sua jamais pode­ria ser con­si­de­rada ofensiva.

    Abra­çOle

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