
Escrever é uma forma de crime e, por isso, todo escritor cultiva dentro de si características peculiares a um serial-killer. Como este, consegue ignorar solenemente aquela vozinha do ego que diz “você não deveria fazer escrever isso, vão acabar pensando que você está falando é de você mesmo”. O assassino em série, como o escritor, na verdade sabe muito bem diferenciar o certo do errado, mas simplesmente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impelisse a matar escrever”. “Quando voltei a mim, já havia cometido o crime conto”.
Todo escritor é um sórdido. Nas cenas finais de Hamlet, os personagens invariavelmente matando-se uns aos outros, Shakespeare nada faz para impedi-los. Ele poderia transformar, subitamente, as espadas em lenços de seda e os venenos em purgantes, evitando assim o trágico desfecho. Mas Shakespeare não faz nada. E se não faz nada é porque na verdade ele gosta.
Todo escritor é por natureza suspeito e obstrui a justiça. Sendo ao mesmo tempo mentor intelectual e testemunha ocular de tudo o que acontece nas suas histórias — incluindo personagens “quando vi, já havia pulado pela janela“morrendo misteriosamente a torto e a direito —, quando interpelado costuma dizer de maneira lacônica: “quando vi, já havia pulado pela janela” ou “o personagem criou vida própria, não havia nada que eu pudesse fazer a respeito”. Isso quando não acaba, com a maior cara de pau do mundo, colocando a culpa inteira no mordomo.
De todos os crimes, sobretudo, o escritor é ladrão: apropria-se com a maior desfaçatez das características físicas, psicológicas, íntimas e sentimentais da vida alheia. “Sabe o que me aconteceu hoje?”. “Não...”, responderá ele, fazendo ar de desinteresse — parece que estou vendo — enquanto na verdade por dentro já lhe corrói a idéia transformar aquilo tudo em crônica. “Conte-me tudo, nos mínimos detalhes...” acrescenta, mas sem demonstrar interesse demais senão você desconfia. O escritor apropria-se das formas de pensar e agir dos outros, roubando-lhes detalhes da casa, da voz, as roupas, os trejeitos... e transforma tudo em personagem.
O escritor é um pervertido. Os atos de sadismo explícito aos quais Clarice Lispector nos sujeita com maestria sanguinária,“sofrer sem piedade” só alcançam o sucesso pleno — e por sucesso compreenda-se fazer-nos sofrer sem piedade — porque fazem uso meticuloso da nossa curiosidade mórbida que nos impele a saber o desfecho da cena ou os detalhes do acidente de trânsito, por pior que ele seja.
“Eu sentia agora o nojento na minha boca, e então comecei a cuspir, a cuspir furiosamente aquele gosto de coisa alguma [...] eu cuspia a mim mesma, sem chegar jamais ao ponto de sentir que enfim tivesse cuspido minha alma toda”1. Clarice não usa chicote, usa palavras. E nós gostamos de apanhar dela. Dupla perfeita. Quando o escritor é um sádico, o leitor é masoquista.
Todo escritor é um psicopata maquiavélico que utiliza o texto como meio de fuga, projeção e realização dos seus desejos os mais secretos. Afinal de contas e para todos os efeitos, o escritor mesmo não faz nada: quem faz é o personagem, o qual só faz obedecer cegamente a tudo o que o seu mentor lhe comanda.
Se você perguntar a um escritor se determinada história é autobiográfica ele quase sempre responderá que não, “autobiografia“porque o escritor é um falso. E se age dessa forma é porque lhe apraz esconder as evidências de que tudo o que uma terceira pessoa faz numa história não passa dele mesmo projetado nela.
Daí a similaridade intrínseca entre o escritor e o serial-killer. São inúmeros os criminosos que chamam seus atos de “obras”. Conseguindo subjugar o ego — que invariavelmente dirá que aquilo é errado — a realização dos dois será completa, porém com resultados (quase sempre) distintos.
É importante esclarecer que aqueles que cruzam o caminho de um escritor correm sério perigo. Não de ter um objeto furtado — o qual, afinal, poderia ser facilmente“sério perigo” substituído ou readquirido —, mas o perigo de ter furtado aquilo que lhe é mais intangível: a intimidade. O perigo não é de vir a ser assassinado literalmente, mas literariamente. A morte e os livros duram para sempre.
Ninguém escapa. Alguns, como Lya Luft, são tão descarados que chegam a confessar abertamente: “certo dia num almoço fiquei observando a família à mesa, e aquelas pessoas tão conhecidas me pareceram umas enormes salsichas”2. Essa, pelo menos, é honesta e parece não utilizar subterfúgios. Mas se alguém perguntasse, certamente diria se tratar de outra família que não a sua própria.
Creio que foi após ter percebido essas coisas devido ao profundo contato com todo tipo de evidências de crimes histórias, que Mário Quintana, poeta hábil, tradutor de Proust — e, portanto, conhecedor da natureza íntima do escritor —, vaticinou: “para o bem das águas e das almas, assassinemos o poeta”3.
Comentários
Bons escritores são assassinos, mas como não amá-los? São ladrões, mas que bom que roubam. A humanidade agradece. Delicioso texto (quantos você matou ou roubou para fazê-lo? rsrsrsr)
hehehe. acho que foi mais um “suicídio” mesmo.
obrigado pelo comentário.
Um serial killer do tipo dexter !
Ora essa, senhor serial killer, acabou de fazer-me sua vítima e ainda me fez gostar disso! Muito bom!
Olá!
Faço parte de um blog sobre autores, leitura e livros, e como achei muito interessantes este seu artigo, fiz um “post” com um link redirecionando para ele para que os nossos usuários possam, tambem, ter o prazer de ler.
Espero que não esteja violando o seu direito de autor e, se assim for, é só nos avisar que o retiramos imediatamente.
Um abraço
Olá, Fernando.
Obrigadão pelo link. Não se preocupe sobre os direitos de autor: ao mesmo tempo que os defendo ferrenhamente, também sou adepto da prática do “fair use”. Não haveria problema algum se você citasse o “introito”, portanto, ao mesmo tempo que uma atitude transparente como a sua jamais poderia ser considerada ofensiva.
AbraçOle
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