“Her­moso es!”

" />

D. H. Lawrence III

Her­moso es!”

Literatura

D. H. Lawrence III

Her­moso es!”

Publicado em 05 de março de 2005 por Olegario Schmitt

O Leão da Montanha

D. H. Lawrence


Elevando-se atra­vés da neve de janeiro, den­tro do Cânion do Lobo
Escu­ros cres­cem os abe­tos, azul é o bál­samo, sons de água ainda não con­ge­lada, e a tri­lha ainda está evidente.

Homens!
Dois homens!
Homens! O único ani­mal do mundo a temer!

Eles hesi­tam.
Nós hesi­ta­mos.
Eles têm uma arma.
Nós não temos nenhuma.

Então todos avan­ça­mos, para encontrarmo-nos.

Dois mexi­ca­nos, foras­tei­ros, emer­gindo da escu­ri­dão e da neve e das entra­nhas do Vale do Lobo.
O que eles estão fazendo aqui nesta tri­lha que desa­pa­rece lentamente?

O que ele estará car­re­gando?
Algo ama­relo.
Um cervo?

Qué tiene amigo? —
León —

Ele sorri tola­mente, como se fosse pego fazendo algo errado.
E nós sor­ri­mos, tola­mente, como se não sou­bés­se­mos.
Ele está bas­tante dócil e ao mesmo tempo soturno.

É um leão da mon­ta­nha,
Um gato longo, esguio, ama­relo como uma leoa.
Morta.

Capturou-a esta manhã, ele diz, sor­rindo abobalhado.

Levanta sua face,
Sua face redonda, res­plan­des­cente, bri­lhante como geada.
Sua cabeça redonda, bem dese­nhada, com duas ore­lhas mor­tas:
E lis­tras no gelo bri­lhante da sua face, raios escu­ros deli­ca­da­mente pon­ti­a­gu­dos,
Raios escu­ros, afi­a­dos, deli­ca­dos no gelo bri­lhante de sua face.
Lin­dos olhos mortos.

Her­moso es!

Ele saem em dire­ção à aber­tura do vale;
Nós segui­mos para a escu­ri­dão melan­có­lica de Lobo.

E acima das árvo­res eu encon­trei sua toca,
Um buraco nas pedras ala­ran­ja­das que projetam-se ful­gu­ran­tes, uma pequena caverna.
E ossos, e galhos, e uma subida íngreme.
Pois é, ela nunca tri­lhará aquele cami­nho nova­mente, com o lam­pejo ama­relo do longo salto de um leão da mon­ta­nha!
E sua cara res­plan­des­cente e lis­trada nunca mais ficará à espreita, saindo da som­bra da caverna na pedra ala­ran­jada,
Acima das árvo­res da boca escura do Vale do Lobo!

Ainda assim, olhei.
E para além do escuro do deserto, como um sonho, nunca real;
Para a neve das mon­ta­nhas de San­gre de Cristo, o gelo das mon­ta­nhas de Pico­ris
E perto, atra­vés do penedo nevado oposto, árvo­res ver­des per­ma­ne­cendo imó­veis na neve, como um brin­quedo de Natal.

E eu penso nesse mundo vazio havia abrigo para mim e um leão da mon­ta­nha.
E eu penso no mundo além, o quão facil­mente pre­ser­va­re­mos um milhão ou dois de huma­nos
E nunca sen­ti­re­mos sua falta.
Porém, que rombo no mundo é a falta da cara esbran­qui­çada daquele esguio leão da montanha.

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt

Mon­tain Lion
D. H. Lawrence

Clim­bing through the Janu­ary snow, into the Lobo canyon
Dark grow the spruce-trees, blue is the bal­sam, water sounds
still unfro­zen, and the trail is still evident.

Men!
Two men!
Men! The only ani­mal in the world to fear!

They hesi­tate.
We hesi­tate.
They have a gun.
We have no gun.

Then we all advance, to meet.

Two Mexi­cans, stran­gers, emer­ging out of tile dark and snow
and inward­ness of the Lobo val­ley.
What are you doing here on this vanishing trail’?

What is he car­rying?
Something yel­low.
A deer?

Que tiene, amigo? —
León —

He smi­les, foo­lishly, as if he were caught doing wrong.
And we smile, foo­lishly, as if we didn’t know.
He is quite gen­tle and dark-faced.

It is a moun­tain lion,
A long, long slim cat, yel­low like a lio­ness.
Dead.
He trap­ped her this mor­ning, he says, smi­ling foolishly.

Lift up her face,
Her round, bright face, bright as frost.
Her round, fine-fashioned head, with two dead ears;
And stri­pes in the bril­li­ant frost of her face, sharp, fine dark rays,
Dark, keen, fine eyes in the bril­li­ant frost of her face.
Beau­ti­ful dead eyes.

Her­moso es!

They go out towards the open;
We go on into the gloom of Lobo.
And above the trees I found her lair,
A hole in the blood-orange bril­li­ant rocks that stick up, a lit­tle cave,
And bones, and twigs, and a peri­lous ascent.

So, she will never leap up that way again, with the yel­low
flash of a moun­tain lion’s long shoot!
And her bright stri­ped frost-face will never watch any more,
out of the sha­dow of the cave in the blood-orange rock,
Above the trees of the Lobo dark valley-mouth!

Ins­tead, I look out.
And out to the dim of the desert, like a dream, never real;
To the snow of the San­gre de Cristo moun­tains, the ice of
the moun­tains of Pico­ris,
And near across at the oppo­site steep of snow, green trees
moti­on­less stan­ding in snow, like a Christ­mas toy.

And I think in this empty world there was room for me and
a moun­tain lion.
And I think in the world beyond, how easily we might spare
a mil­lion or two of humans
And never miss them.
Yet what a gap in the world, the mis­sing white frost-face of
that slim yel­low moun­tain lion!

Nenhum comentário

Seja o primeiro a comentar!

Comente

Designed by