D. H. Lawrence II

“Ela disse também para mim”

Literatura

D. H. Lawrence II

“Ela disse também para mim”

Publicado em 05 de março de 2005 por Olegario Schmitt

Daydreaming – Anton J. C. Lemmers
(Man seeing himself as the ultimated power in a vision of a bizon bull)

‘Ela Disse Também Para Mim’

D. H. Lawrence


Ela disse também para mim: ‘Por que você está envergonhado?
Aquela porção de peito que aparece entre
a abertura da sua camisa, por que cobrí-la?
Por que suas pernas e suas coxas bem fortes não deveriam
ser ásperas e cabeludas? — Estou contente que elas sejam assim.
Você é tímido, seu bobinho, sua coisinha bobinha e tímida.
Os homens são as criaturas mais tímidas, eles nunca sairão
de suas carapaças. Como qualquer cobra
dormindo em sua cama de folhas mortas, vocês correm para suas roupas.
E eu os amo tanto! Ereto e limpo e típico é o corpo de um homem,
como um instrumento, uma espada, como uma lança, ou um remo,
que regozijo para mim —’
Então ela deslizou suas mãos e contornou minha silhueta,
de tal forma que eu comecei a pensar sobre mim mesmo, e o que eu era.

Ela disse para mim: ‘Que instrumento, o seu corpo!
único e perfeitamente distinto de tudo o mais!
Que ferramenta nas mãos do Senhor!
Apenas D’us poderia deixá-lo com esse formato.
Parece que o Seu toque, moldando-o,
criou essas nuances no seu tórax, agarrou-o sob os peitos
e trouxe-lhe à excelência de sua forma,
mais sutil do que um velho arco de violino levemente retesado.

‘Quando era criança, eu amava a chibata de papai
que ele tanto usava.
Eu amava segurá-la, parecia-se quase como uma parte sua.
E também suas canetas, e o sinete sobre sua mesa.
Algo parecia urgir através de mim quando os tocava.

‘Então isso está em ti, mas aqui
Eu sinto o regozijo!
D’us sabe o que eu sinto, mas isso é deleite!
Olha, você é asseado e fino e distinto!
Admiro-te tanto, você é tão bonito: esses traços limpos da sua silhueta, essa firmeza, este molde duro!
Eu preferiria morrer antes de macular o seu corpo com uma única cicatriz.
Quem dera eu pudesse apertá-lo como o punho do Senhor,
e possuí-lo —’

Assim ela disse, e eu questionei,
sentido-me aprisionado e ferido.
Isso não fez-me livre.

Agora eu digo para ela: ‘Nem ferramenta, ou instrumento, ou D’us!
Não me toque ou examine.
Isso é uma infâmia.
Você pensaria duas vezes antes de tocar uma doninha na gaiola
enquanto ela levanta sua garganta branca e longilínea.
Sua mão não seria tão tola e relaxada.
Tampouco a víbora que vimos com a cabeça adormecida em seu próprio ombro,
enrodilhada ao sol como uma princesa;
quando ela levantou sua cabeça em delicada, assustadora curiosidade
você não se esticou para acariciá-la
mesmo ela parecendo raramente linda
e um milagre enquanto deslizava para longe suavemente, com tanta dignidade.
E o jovem touro no campo, com sua cara triste, enrugada,
você fica com medo se ele se levanta,
apesar de ele ser melancólico e patético, como um monolito, preso, estático.

‘Não há nada em mim que faça você hesitar?
Eu digo que há todos esses motivos.
E por que você deveria ignorá-los em mim?—’

Tradução: Olegario Schmitt

‘She Said as Well to Me’
D. H. Lawrence

She said as well to me: ‘Why are you ashamed?
That little bit of your chest that shows between
the gap of your shirt, why cover it up?
Why shouldn’t your legs and your good strong thighs
be rough and hairy? — I’m glad they are like that.
You are shy, you silly, you silly shy thing.
Men are the shyest creatures, they never will come
out of their covers. Like any snake
slipping into its bed of dead leaves, you hurry into your clothes.
And I love you so! Straight and clean and all of a piece is the body of a man,
such an instrument, a spade, like a spear, or an oar,
such a joy to me —’
So she laid her hands and pressed them down my sides,
so that I began to wonder over myself, and what I was.

She said to me: ‘What an instrument, your body!
single an perfectly distinct from everything else!
What a tool in the hands of the Lord!
Only God could have brought it to its shape.
It feels as if his handgrasp, wearing you,
hollowed this groove in your sides, grasped you under the breasts
and brought you to the very quick of your form,
subtler than an old, soft-worn fiddle-bow.

‘When I was a child, I loved my father’s riding-whip
that he used so often.
I loved to handle it, it seemed like a near part of him.
So I did his pens, and the jasper seal on his desk.
Something seemed to urge through me when I touched them.

‘So it is with you, but here
The joy I feel!
God knows what I feel, but it is joy!
Look, you are clean and fine and singled out!
I admire you so, you are beautiful: this clean sweep of your sides, this firmness, this hard mould!
I would die rather than have it injured with one scar.
I wish I could grip you like the fist of the Lord,
and have you —’

So she said, and I wondered,
feeling trammelled and hurt.
It did not make me free.

Now I say to her: ‘No tool, no instrument, no God!
Don’t touch me and appreciate me.
It is an infamy.
You would think twice before you touched a weasel on a fence
as it lifts its straight white throat.
Your hand would not be so flig and easy.
Nor the adder we saw asleep with her head on her shoulder,
curled up in the sunshine like a princess;
when she lifted her head in delicate, startled wonder
you did not stretch forward to caress her
though she looked rarely beautiful
and a miracle as she glided delicately away, with such dignity.
And the young bull in the field, with his wrinkled, sad face,
you are afraid if he rises to his feet,
though he is all wistful and pathetic, like a monolith, arrested, static.

‘Is there nothing in me to make you hesitate?
I tell you there is all these.
And why should you overlook them in me?—’

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