Bor­ges I

Três Jor­ges e um Borges

Literatura

Bor­ges I

Três Jor­ges e um Borges

Publicado em 09 de abril de 2005 por Olegario Schmitt

Índio com Arco-e-Flecha — Ottone Zor­lini (1950)

Para uma ver­são do I King

Jorge Luis Borges

O por­vir é tão irre­vo­gá­vel
Quanto o rígido ontem. Não há uma coisa
Que não seja letra silen­ci­osa
Da eterna escri­tura inde­ci­frá­vel
Cujo livro é o tempo. Quem se dis­tan­cia
De sua casa já vol­tou. Nossa vida
É a senda futura e per­cor­rida.
O rigor teceu a madeixa.
Não te des­vies. A mas­morra é escura,
A trama firme é de inces­sante ferro,
Mas em algum recanto de teu fim
Pode haver uma luz, uma fenda.
O cami­nho é fatal como a fle­cha,
Mas nas fres­tas está Deus, que espreita.

In: La moneda de Hierro (1976)

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt


Uma chave em East Lansing

Jorge Luis Borges

Sou uma peça de aço limado.
Meu borde irre­gu­lar não é arbi­trá­rio.
Durmo meu sonho vadio num armá­rio
Que não vejo. Sujeita ao meu cha­veiro
Há uma fecha­dura que me espera.
Uma só. A porta é de ferro
For­jado e cris­tal firme. Do outro lado
Está a casa, oculta e ver­da­deira.
Altos na penum­bra os espe­lhos
Deser­tos vêem as noi­tes e os dias
E as foto­gra­fias dos mor­tos
E o ontem tênue das foto­gra­fias.
Alguma vez empur­ra­rei a porta
Dura e farei girar a fechadura.

In: La moneda de Hierro (1976)

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt


Um Sonho (Ein Traum)

Jorge Luis Borges

Sabiam-no os três.
Ela era a colega de Kafka.
Kafka a tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me quei­ras.
Sabiam-no os três.
O homem a con­tes­tou: Se peca­mos,
Kafka dei­xará de sonhar-nos.
Um o soube.
Não havia mais nada na terra.
Kafka disse para si mesmo:
Agora que se foram os dois, fiquei só.
Dei­xa­rei de sonhar-me.

In: La moneda de Hierro (1976)

Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt

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