
Índio com Arco-e-Flecha — Ottone Zorlini (1950)
Para uma versão do I King
Jorge Luis Borges
O porvir é tão irrevogável
Quanto o rígido ontem. Não há uma coisa
Que não seja letra silenciosa
Da eterna escritura indecifrável
Cujo livro é o tempo. Quem se distancia
De sua casa já voltou. Nossa vida
É a senda futura e percorrida.
O rigor teceu a madeixa.
Não te desvies. A masmorra é escura,
A trama firme é de incessante ferro,
Mas em algum recanto de teu fim
Pode haver uma luz, uma fenda.
O caminho é fatal como a flecha,
Mas nas frestas está Deus, que espreita.
In: La moneda de Hierro (1976)
Tradução: Olegario Schmitt
Uma chave em East Lansing
Jorge Luis Borges
Sou uma peça de aço limado.
Meu borde irregular não é arbitrário.
Durmo meu sonho vadio num armário
Que não vejo. Sujeita ao meu chaveiro
Há uma fechadura que me espera.
Uma só. A porta é de ferro
Forjado e cristal firme. Do outro lado
Está a casa, oculta e verdadeira.
Altos na penumbra os espelhos
Desertos vêem as noites e os dias
E as fotografias dos mortos
E o ontem tênue das fotografias.
Alguma vez empurrarei a porta
Dura e farei girar a fechadura.
In: La moneda de Hierro (1976)
Tradução: Olegario Schmitt
Um Sonho (Ein Traum)
Jorge Luis Borges
Sabiam-no os três.
Ela era a colega de Kafka.
Kafka a tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me queiras.
Sabiam-no os três.
O homem a contestou: Se pecamos,
Kafka deixará de sonhar-nos.
Um o soube.
Não havia mais nada na terra.
Kafka disse para si mesmo:
Agora que se foram os dois, fiquei só.
Deixarei de sonhar-me.
In: La moneda de Hierro (1976)
Tradução: Olegario Schmitt
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