“Um ser pequeno, frá­gil, meio-animado”...

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Bebê Tar­ta­ruga

Um ser pequeno, frá­gil, meio-animado”...

Literatura

Bebê Tar­ta­ruga

Um ser pequeno, frá­gil, meio-animado”...

Publicado em 14 de junho de 2007 por Olegario Schmitt

Você sabe como é nas­cer sozi­nho,
Bebê tar­ta­ruga!
O pri­meiro dia a levan­tar seus pés pouco a pouco para fora da casca,
Ainda não des­perto,
E manter-se esten­dido na terra,
Ainda nem bem vivo.

Um ser pequeno, frá­gil, meio-animado.

Abrir sua boqui­nha bicuda, que parece como se nunca fosse abrir,
Como uma porta de ferro;
Levan­tar do chão a parte de cima do bico de fal­cão
E esten­der seu pes­co­ci­nho magro
E dar sua pri­meira mor­dida em algum peda­ci­nho de erva,
Sozi­nho, pequeno inseto,
Olhi­nhos bri­lhan­tes,
Ser lento.

Dar sua pri­meira mor­dida soli­tá­ria
E mover-se em sua caça lenta e soli­tá­ria.
Seu olhi­nho escuro e bri­lhante,
Seu olhi­nho de uma noite escura e per­tur­bada,
Sob sua cara­paça lenta, pequeno bebê tar­ta­ruga,
Tão indo­má­vel.
Nin­guém nunca ouviu você reclamar.

Você estende sua cabeça para a frente, len­ta­mente, de seu pequeno pes­coço
E avança, arrastando-se vaga­roso, sobre seus pés de qua­tro dedos,
Remando len­ta­mente para frente.
Para onde, pequeno pás­saro?
Como um bebê movendo seus mem­bros,
Só que você o faz len­ta­mente, pro­gresso eterno
E um bebê não faz nenhum.

O toque do sol o excita,
E as lon­gas eras, e o arre­pio pro­lon­gado
Fazem você parar para boce­jar,
Abrindo sua boca impér­via,
Subi­ta­mente em forma de bico, e muito larga, como pin­ças ágeis;
Lín­gua ver­me­lho claro, e gen­gi­vas duras e finas,
Então fechas a entrada da sua pequena mon­ta­nha,
Sua face, bebê tartaruga.

Você se per­gunta sobre o mundo, enquanto gira len­ta­mente sua cabeça em seu pes­coço
E olha com olhos negros e lacô­ni­cos?
Ou o sono está vol­tando nova­mente,
A não-vida?

Você é tão difí­cil de ser acordado.

Você é capaz de se per­gun­tar?
Ou isso é ape­nas os seus desejo e orgu­lho indo­má­veis da pri­meira vida
Olhando ao redor
E len­ta­mente forçando-se con­tra a inér­cia
A qual pare­cia invencível?

O vasto ina­ni­mado,
E o bri­lho sutil do seu olhi­nho tão pequeno,
Desafiante.

Pelo con­trá­rio, pequeno pássaro-concha,
Que grande e vasto ina­ni­mado é isso, que você pre­cisa lutar con­tra,
Que inér­cia incalculável.

Desa­fi­ante,
Pequeno Ulis­ses, pio­neiro,
Não maior que minha unha,
Buon viag­gio.

Toda cri­a­ção ani­mada sobre seus ombros,
Avante, pequeno titã, sob seu escudo de bata­lha.
O uni­verso pon­de­rante,
Pre­pon­de­rado e ina­ni­mado;
E você movendo-se len­ta­mente, pio­neiro, você sozinho.

O quão vívida sua jor­nada parece agora, no lusco-fusco,
Estóico, átomo ulis­si­ano;
Subi­ta­mente rápido, afo­bado, ele­vado sobre os dedos.

Pequeno pás­saro sem voz,
Des­can­sando sua cabeça a metade para fora do casco
Na lenta dig­ni­dade da sua pausa eterna.
Sozi­nho, sem cons­ci­ên­cia de estar sozi­nho,
E por­tanto seis vezes mais soli­tá­rio;
Pre­en­chido da pai­xão lenta de arras­tar atra­vés de eras ime­mo­ri­ais
Sua pequena casa arre­don­dada no meio do caos.

Sobre a terra do jar­dim,
Pequeno pás­saro,
Sobre a beira de todas as coisas.

Via­jante,
Com seu rabo leve­mente dobrado num dos lados
Como um cava­lheiro de casaca.

Toda a vida car­re­gada sobre seus ombros,
Inven­cí­vel pioneiro.

D.H. Lawrence

Baby Tor­toise”. In: The Works of D.H. Lawrence. UK: Wordsworth Poe­try Library, 1994
Tra­du­ção: Ole­ga­rio Schmitt

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