
Primo Lucas
Por acaso existe acaso? Após ter escrito o artigo anterior (Animais de Estimação), eis que este livro vem parar em minhas mãos: Sobre o Olhar, de John Berger, com tradução de Lya Luft.
Segue um trecho do primeiro artigo, chamado “Por que olhar os animais?”:
No passado, famílias de todas as classes mantinham animais domésticos porque eles serviam a um objetivo útil — cães de guarda, cães de caça, gatos para matar ratos, e assim por diante. A prática de manter animais independente de sua utilidade, manter exatamente os animais de estimação (no século XVI, a palavra habitualmente se referia a um cordeiro criado na mamadeira) é uma inovação moderna e, na escada social em que atualmente existe, é única. É parte daquele afastamento universal porém pessoal para dentro da pequena unidade privada da família, decorada ou mobiliada com objetos do mundo exterior, que é um traço tão distintivo das sociedades de consumo.
A pequena unidade onde vive a família carece de espaço, terra, outros animais, estações do ano, temperaturas naturais, e assim por diante. O animal de estimação é esterilizado ou sexualmente isolado, extremamente limitado em seus exercícios, privado de quase todo outro contato animal, e alimentado com comida artificial. Esse é o processo material que está por trás do truísmo de que animais de estimação passam a se assemelhar a seus donos ou donas. Eles são resultado do modo de vida do seu proprietário.
Igualmente importante é o modo como o proprietário, via de regra, encara seu animal de estimação. (Crianças são por algum tempo diferentes nisso.) O animal de estimação as completa, oferecendo respostas a aspectos do seu caráter que de outro modo não seriam confirmados. Com seu bicho de estimação, o homem pode ser o que não é com mais ninguém ou nada. Mais que isso, o animal de estimação pode ser condicionado a reagir como se também ele reconhecesse isso. O animal de estimação oferece ao seu dono um espelho para uma parte dele que de outra forma jamais seria refletida. Mas como nessas relações a autonomia das duas partes foi perdida (o proprietário se tornou o-homem-especial-que-ele-só-é-com-seu-animal-de-estimação, e o animal se tornou dependente do proprietário para todas as necessidades físicas), destruiu-se o paralelismo de suas vidas separadas.
BERGER, John. Sobre o olhar. Barcelona: Editorial Gustavo Gili, 2003.
Comentários
Não deixo recado,
deixo um forte abraço.
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