Ani­mais de esti­ma­ção II

Antro­po­mor­fi­za­ção dos ani­mais de estimação

Literatura

Ani­mais de esti­ma­ção II

Antro­po­mor­fi­za­ção dos ani­mais de estimação

Publicado em 03 de novembro de 2008 por Olegario Schmitt

Primo Lucas

Por acaso existe acaso? Após ter escrito o artigo ante­rior (Ani­mais de Esti­ma­ção), eis que este livro vem parar em minhas mãos: Sobre o Olhar, de John Ber­ger, com tra­du­ção de Lya Luft.

Segue um tre­cho do pri­meiro artigo, cha­mado “Por que olhar os animais?”:

No pas­sado, famí­lias de todas as clas­ses man­ti­nham ani­mais domés­ti­cos por­que eles ser­viam a um obje­tivo útil — cães de guarda, cães de caça, gatos para matar ratos, e assim por diante. A prá­tica de man­ter ani­mais inde­pen­dente de sua uti­li­dade, man­ter exa­ta­mente os ani­mais de esti­ma­ção (no século XVI, a pala­vra habi­tu­al­mente se refe­ria a um cor­deiro cri­ado na mama­deira) é uma ino­va­ção moderna e, na escada social em que atu­al­mente existe, é única. É parte daquele afas­ta­mento uni­ver­sal porém pes­soal para den­tro da pequena uni­dade pri­vada da famí­lia, deco­rada ou mobi­li­ada com obje­tos do mundo exte­rior, que é um traço tão dis­tin­tivo das soci­e­da­des de consumo.

A pequena uni­dade onde vive a famí­lia carece de espaço, terra, outros ani­mais, esta­ções do ano, tem­pe­ra­tu­ras natu­rais, e assim por diante. O ani­mal de esti­ma­ção é este­ri­li­zado ou sexu­al­mente iso­lado, extre­ma­mente limi­tado em seus exer­cí­cios, pri­vado de quase todo outro con­tato ani­mal, e ali­men­tado com comida arti­fi­cial. Esse é o pro­cesso mate­rial que está por trás do truísmo de que ani­mais de esti­ma­ção pas­sam a se asse­me­lhar a seus donos ou donas. Eles são resul­tado do modo de vida do seu proprietário.

Igual­mente impor­tante é o modo como o pro­pri­e­tá­rio, via de regra, encara seu ani­mal de esti­ma­ção. (Cri­an­ças são por algum tempo dife­ren­tes nisso.) O ani­mal de esti­ma­ção as com­pleta, ofe­re­cendo res­pos­tas a aspec­tos do seu cará­ter que de outro modo não seriam con­fir­ma­dos. Com seu bicho de esti­ma­ção, o homem pode ser o que não é com mais nin­guém ou nada. Mais que isso, o ani­mal de esti­ma­ção pode ser con­di­ci­o­nado a rea­gir como se tam­bém ele reco­nhe­cesse isso. O ani­mal de esti­ma­ção ofe­rece ao seu dono um espe­lho para uma parte dele que de outra forma jamais seria refle­tida. Mas como nes­sas rela­ções a auto­no­mia das duas par­tes foi per­dida (o pro­pri­e­tá­rio se tor­nou o-homem-especial-que-ele-só-é-com-seu-animal-de-estimação, e o ani­mal se tor­nou depen­dente do pro­pri­e­tá­rio para todas as neces­si­da­des físi­cas), destruiu-se o para­le­lismo de suas vidas separadas.


BER­GER, John. Sobre o olhar. Bar­ce­lona: Edi­to­rial Gus­tavo Gili, 2003.

Comentários

  1. Fred Matos
    3 de novembro de 2008

    Não deixo recado,
    deixo um forte abraço.

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