Le Bahut — 13/05/1958
Jornal editado pelos formandos do Liceu E. F. Gautier (Paris)
Nos momentos de vazio criativo — que podem durar meses, até anos — pelo qual todo escritor passa em algum momento da vida, é interessante ficar remexendo nos “baús”, à procura de pérolas esquecidas. Essa atividade acabará, por via de regra, levando ao reencontro de todos aqueles lixos tenebrosos ou inacabados, para os quais não houve coragem suficiente de torná-los públicos.
Tarefa mais interessante ainda — podendo, no entanto, mostrar-se extremamente dolorida e vergonhosa — é reler os primeiros cadernos de poesia. Entre absurdos literários e verdadeiros atentados à poética, pode-se acabar encontrando verdadeiras pérolas.
Através dessa espécie de fotografia íntima feita com letras pode-se, por exemplo, saber o que se passava em minha cabeça em 1991:
Planto o pé na pia,
Prego a preguiça,
A polidez da proibição.
Porcaria de pensamentos!
ou então ficar imaginando se alguém no mundo conseguiria explicar o que raios eu quis dizer com isto:
Os sinos da Catedral Diocesana
da Cidade de São Paulo
ecoam infinitamente,
acordando os mendigos
da Rue des Aux, Paris,
ano de 1928.
Mês que vem
chega a resposta.
Só para constar, até hoje ainda não chegou resposta nenhuma.
Também nessa época, já encontram-se traços claros de niilismo:
A terra morre.
E que cinza
é esta
que resta
da qual
não nasce nada?
e indagações estranhas
Asteróides realmente são o que dizem que eles são?
Não são estrelas suicidas?
Asteróides não são as lágrimas incandescentes de Deus?
Interessante, também, é analisar a evolução artística, o que sempre traz alguma esperança de salvação literária. O mesmo tema, por exemplo, abordado com versos simples em 1992
A Fonte da Inspiração
Escrevo o que vejo
ou o que penso.
Quando estou cego
e a minha cabeça
está girando,
não escrevo nada.
e com redondilha maior (heptassílabos) e rimas toantes intercaladas em 2003
Pequeno Poema de Nada
Eu nunca escrevo sentindo
Se sinto, não escrevo nada.
Tem poesia que fala tudo.
Essa, no entanto, é calada.
Tenho um silêncio profundo
E a boca muito cansada.
Esse é o poema de um mudo.
Esse é um poema de nada.
In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, 2003
Fica a certeza de que há esperança para os que perseveram...
Caso à Parte
Os Animais no Circo
O circo ensina as crianças a rir
da dignidade perdida dos animais.
Nesse caso, a “humanização” dos bichos
reflete claramente a falta de humanidade das pessoas
projetada em um macaco de vestido,
camuflada sob o riso.
In: No Pé da Letra, 1999
Ainda no baú de 1993 está o poema Os Animais no Circo. Mesmo que esse poema seja encontrado entre citações de São Francisco de Assis, Buda, Leonardo da Vinci, Pitágoras, Émile Zola, Freud e Axel Munthe, entre outros — o que é motivo, obviamente, de grande honra para mim — não deixa de ser lesão de meus direitos autorais, uma vez que não fui consultado sobre o assunto.
Mas, enfim, entre PPS’s com fotos de animais estraçalhados e deputados federais utilizando minha obra para promoção pessoal — cometendo crime federal ao infringir a Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 —, guardo minhas mãos nos bolsos: quem nunca lesou os direitos autorais de ninguém em nome de alguma causa, que atire a primeira pedra.
Concluíndo
Concluíndo, deixo um poema de 1991, que fala sobre abstração:
Abstração
Se algumas coisas
mesmo sendo abstratas
às vezes nos falam tanto,
é porque nesse turvo confuso
que é o significado de tudo
há uma elipse um tuneou um clown
que tudo mistura
dissipa, torna vasto o vago sentido
da palavra na poesia
da tinta na pintura
das vozes no vento
da chuva na areia.
Achar no meio de tudo
um segundo sentido
— um sentido primeiro —
é a arte de entender
e compreender
ou quem sabe é mesmo
a arte de tornar-se também abstrato.
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