Abrindo o baú

Quando Pandora abre o baú e saem de dentro dele todos os males do mundo, a esperança, sabemos, fica presa na borda.

Literatura

Abrindo o baú

Quando Pandora abre o baú e saem de dentro dele todos os males do mundo, a esperança, sabemos, fica presa na borda.

Publicado em 12 de Abril de 2005 por Olegario Schmitt

Le Bahut – 13/05/1958
Jornal editado pelos formandos do Liceu E. F. Gautier (Paris)

Nos momentos de vazio criativo — que podem durar meses, até anos — pelo qual todo escritor passa em algum momento da vida, é interessante ficar remexendo nos “baús”, à procura de pérolas esquecidas. Essa atividade acabará, por via de regra, levando ao reencontro de todos aqueles lixos tenebrosos ou inacabados, para os quais não houve coragem suficiente de torná-los públicos.

Tarefa mais interessante ainda — podendo, no entanto, mostrar-se extremamente dolorida e vergonhosa — é reler os primeiros cadernos de poesia. Entre absurdos literários e verdadeiros atentados à poética, pode-se acabar encontrando verdadeiras pérolas.

Através dessa espécie de fotografia íntima feita com letras pode-se, por exemplo, saber o que se passava em minha cabeça em 1991:

Planto o pé na pia,
Prego a preguiça,
A polidez da proibição.

Porcaria de pensamentos!

ou então ficar imaginando se alguém no mundo conseguiria explicar o que raios eu quis dizer com isto:

Os sinos da Catedral Diocesana
da Cidade de São Paulo
ecoam infinitamente,
acordando os mendigos
da Rue des Aux, Paris,
ano de 1928.

Mês que vem
chega a resposta.

Só para constar, até hoje ainda não chegou resposta nenhuma.

Também nessa época, já encontram-se traços claros de niilismo:

A terra morre.
E que cinza
é esta
que resta
da qual
não nasce nada?

e indagações estranhas

Asteróides realmente são o que dizem que eles são?
Não são estrelas suicidas?
Asteróides não são as lágrimas incandescentes de Deus?

Interessante, também, é analisar a evolução artística, o que sempre traz alguma esperança de salvação literária. O mesmo tema, por exemplo, abordado com versos simples em 1992

A Fonte da Inspiração

Escrevo o que vejo
ou o que penso.
Quando estou cego
e a minha cabeça
está girando,
não escrevo nada.

e com redondilha maior (heptassílabos) e rimas toantes intercaladas em 2003

Pequeno Poema de Nada

Eu nunca escrevo sentindo
Se sinto, não escrevo nada.

Tem poesia que fala tudo.
Essa, no entanto, é calada.

Tenho um silêncio profundo
E a boca muito cansada.

Esse é o poema de um mudo.
Esse é um poema de nada.

In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, 2003

Fica a certeza de que há esperança para os que perseveram…

Caso à Parte

Os Animais no Circo

O circo ensina as crianças a rir
da dignidade perdida dos animais.
Nesse caso, a “humanização” dos bichos
reflete claramente a falta de humanidade das pessoas
projetada em um macaco de vestido,
camuflada sob o riso.

In: No Pé da Letra, 1999

Ainda no baú de 1993 está o poema Os Animais no Circo. Mesmo que esse poema seja encontrado entre citações de São Francisco de Assis, Buda, Leonardo da Vinci, Pitágoras, Émile Zola, Freud e Axel Munthe, entre outros — o que é motivo, obviamente, de grande honra para mim — não deixa de ser lesão de meus direitos autorais, uma vez que não fui consultado sobre o assunto.

Mas, enfim, entre PPS’s com fotos de animais estraçalhados e deputados federais utilizando minha obra para promoção pessoal — cometendo crime federal ao infringir a Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 —, guardo minhas mãos nos bolsos: quem nunca lesou os direitos autorais de ninguém em nome de alguma causa, que atire a primeira pedra.

Concluíndo

Concluíndo, deixo um poema de 1991, que fala sobre abstração:

Abstração

Se algumas coisas
mesmo sendo abstratas
às vezes nos falam tanto,
é porque nesse turvo confuso
que é o significado de tudo
há uma elipse um tuneou um clown
que tudo mistura
dissipa, torna vasto o vago sentido
da palavra na poesia
da tinta na pintura
das vozes no vento
da chuva na areia.

Achar no meio de tudo
um segundo sentido
— um sentido primeiro —
é a arte de entender
e compreender
ou quem sabe é mesmo
a arte de tornar-se também abstrato.

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