A poe­sia não é natural

Onde está a poesia?

Literatura

A poe­sia não é natural

Onde está a poesia?

Publicado em 08 de outubro de 2004 por Olegario Schmitt

Lugar Mágico — São Pedro do Sul/RS

Os poe­tas tem por hábito olhar um ria­cho buli­çoso, por exem­plo, e pen­sar “ó, que poé­tico o som da água boli­nando as pedras”... mas, con­ve­nha­mos, o som da água sobre as pedras, em si, não con­tém poe­sia alguma!

Não há poe­sia nas coi­sas ou na natu­reza, pois as coi­sas sim­ples­mente exis­tem, de forma abs­trata. “as coi­sas sim­ples­mente são, sem defi­ni­ções“A pró­pria essên­cia das coi­sas é neu­tra: o ria­cho sim­ples­mente corre por força da gra­vi­dade, faz baru­lho nas pedras por força do atrito físico, o que, por natu­reza, não é belo ou poé­tico — as coi­sas SIM­PLES­MENTE SÃO, sem definições.

Por ter­mos esse velho hábito de sem­pre pro­cu­rar as coi­sas fora de nós mes­mos é que pen­sa­mos que a poe­sia está nas coi­sas, na natu­reza, ou que D’us está lá fora... mas isso não passa de projeção.

pro­je­ção, s. f. Ato ou efeito de pro­je­tar; (Psiq.) trans­fe­rên­cia de culpa: meca­nismo psi­co­ló­gico com­pen­sa­dor que con­siste em atri­buir a outros os pró­prios sen­ti­men­tos, livrando-se o indi­ví­duo de res­pon­sa­bi­li­da­des e de con­fli­tos entre o desejo e o dever.

Por­tanto, não há ton­teira maior do que dizer que “há poe­sia no ria­cho” ou que “não há poe­sia no con­creto” “a poe­sia não está na natu­reza, não há poe­sia no ria­cho”(não con­fun­dir aqui “poe­sia no con­creto” com “poe­sia con­creta”): o cor­reto seria dizer “VEJO poe­sia no ria­cho” ou “NÃO VEJO poe­sia no concreto”.

A poe­sia não está na natu­reza: está no homem, ou seja, ela pode estar em todos os luga­res ou em lugar nenhum, depen­dendo não do que se vê, mas dos olhos — e da sen­si­bi­li­dade — para vê-la.

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