Literatura

Contos, crônicas, poesias e traduções.

Literatura

Tradução do poema ‘Les Animaux et leurs hommes’ de Paul Élouard

Publicado em 24 de agosto de 2012 por Olegario Schmitt

 

Os animais e seus homens

Paul Éluard

Não se conduz a vaca
Ao campo raso e seco,
Ao campo sem carícias.

O pasto que a recebe
Deve ser suave como um fio de seda,
Um fio de seda doce como um fio de leite.

Mãe ignorada,
Para as crias, ele não é o almoço,
Mas o leite sobre a relva.

A erva face à vaca,
A cria face ao leite.

Tradução: Olegario Schmitt

 

 

Les Animaux et leurs hommes
Paul Élouard

On ne mène pas la vache
À la verdure rase et sèche,
À la verdure sans caresses.

L’herbe qui la reçoit
Doit être douce comme un fil de soie,
Un fil de soie doux comme un fil de lait.

Mère ignorée,
Pour les enfants, ce n’est pas le déjeuner,
Mais le lait sur l’herbe

L’herbe devant la vache,
L’enfant devant le lait.

In: Les Animaux et leurs hommes, les hommes et leurs animaux

Sobre isso pensar você vai?

Publicado em 31 de agosto de 2010 por Olegario Schmitt

Look, Mamma, I went blue and cubist at the same time

Uma vez eu conheci um poeta que escrevia tudo de trás pra frente. Em vez de dizer “o céu é azul e bonito” ele dizia algo como “céu, bonito e azul, é”. Aí você perdia horas montando o verso na seqüência correta só pra descobrir enfim que ele queria dizer apenas e simplesmente “o céu é azul e bonito”.

Como sempre gostei muito do Mario Quintana e quando este queria dizer que o céu era bonito e azul simplesmente pegava e dizia, perguntei pro poeta esse qual era o sentido de escrever tudo de trás pra frente.

Ele não gostou — dissque ele era um douto que tinha estudado muitos anos pra aprender a escrever de trás pra frente e dissque isso era muito chique, sobretudo pra quem tinha estudado muitos anos.

Quintana e eu não havíamos estudado muitos anos, a gente não tinha vindo de escola nenhuma. Acabamos perdendo o amigo e mais uns outros que gostavam de coisas de trás pra frente assim como ele.

Ainda agora, tantos anos passados, essa história me consome, porque até hoje não descobri se ele era um poeta cubista ou algum tipo de Mestre Yoda da metalinguística.

As similaridades entre escritores e serial-killers

Publicado em 24 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Escrever é uma forma de crime e, por isso, todo escritor cultiva dentro de si características peculiares a um serial-killer. Como estes, consegue ignorar solenemente aquela vozinha do superego que diz “você não deveria fazer escrever isso, vão acabar pensando que você está falando é de você mesmo”. O assassino em série, como o escritor, na verdade sabe muito bem diferenciar o certo do errado, mas simplesmente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impelisse a matar escrever”. “Quando voltei a mim, já havia cometido o crime conto”.

Todo escritor é um sórdido. Nas cenas finais de Hamlet, os personagens invariavelmente matando-se uns aos outros, Shakespeare nada faz para impedi-los. Ele poderia transformar, subitamente, as espadas em lenços de seda e os venenos em purgantes, evitando assim o trágico desfecho. Mas Shakespeare não faz nada. E se não faz nada é porque na verdade ele gosta.

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Conto funesto, surrealista e alucinado

Publicado em 15 de março de 2010 por Olegario Schmitt

Mesmo o sol tendo acabado de se por, a temperatura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ventilador de teto, de modelo antiquado e pás muito largas, gira vagarosamente sobre sua cabeça, mal e mal insinuando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes matizadas da rua vão tingindo lentamente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inseparável Suíte para Solo de Violoncelo.

A música preenche o ambiente com os timbres angustiantes daquele instrumento, cujo som ele acredita se assemelhar ao choro inconsolável que brota do fundo da garganta de uma viúva. É completamente tomado por mal de vivre um estado de torpor, parte causado pela própria temperatura, parte pelo mal de vivre que lhe acompanha desde sempre, monstrinho de estimação esse ao qual alimenta incessantemente com novos desestímulos, seja calor, música, ou pensamentos obscuros.

Afunda-se na poltrona da sala a qual, com uma perna frouxa, balança sob seu peso. A modorra que brota vigorosamente do fundo de suas entranhas vai crescendo cada vez mais conforme se deixa invadir pelos acordes graves do violoncelo.

Com uma mão, seca o suor pastoso que lhe escorre da testa e coça a sua barba de há dias, enquanto a outra lhe fornece um dedo ávido o qual vai introduzindo com desespero e sofreguidão bem fundo“limpando o salão” no seu nariz. Em gestos circulares, cavouca o interior de seu septo buscando lá dentro alguma coisa, uma idéia escondida, uma lágrima solidificada, um pedaço do próprio cérebro que tenha escorrido pelas narinas, qualquer coisa que torne sua vida pior.

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Nas ruas de São Paulo

Publicado em 22 de setembro de 2009 por Olegario Schmitt

#1 do díptico "Amor em Pedaços"

— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa… e se eu encomendar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encontro coração aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem…
— Nossa, na Lapa?! Que longe… na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mercado da Lapa tem. Se tiver coração, é lá.

— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior…
— Ô, Antônho, tem coração aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, coração só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade…
— …
— Você sabe se tem outro açougue aqui perto?

Essa poeta é uma serendipidade ambulante

Publicado em 12 de agosto de 2009 por Olegario Schmitt

Serendipidade é a aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em derivação por metonímia, é cada uma dessas coisas felizes ou úteis. (Houaiss)

Serendipidade I

Há diversos anos — ninguém sabe exatamente quantos, mas talvez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encontramos em algum recanto virtual de poetas. Foi uma coisa esquisita: nos gostamos de pronto, para todo o sempre amém. Escrevíamos juntos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes terminávamos os escritos um do outro. Virávamos dias e noites em frenesis literários infindáveis.

Nunca nos vimos pessoalmente. Porém, ao contrário do que pode pensar os incautos — ou não iniciados —, os bits, bytes e Kbytes eram apenas o meio de materialização de algo deveras real.

Dicotomia: os tempos foram passando conforme abandonávamos lentamente esse único meio de convívio. Perdemos o contato, cada um foi para um canto, isso acontece com todo mundo.

Serendipidade II

Muitos anos depois, nos reencontramos no Twitter, através de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!

Estamos deveras diferentes, praticamente não escrevemos mais poesia. Mas ainda somos felizes — nem mais nem menos, apenas diferente.

Serendipidade III

Revirando minhas velhas caixas à procura de um manual, encontrei um impresso encadernado com a capa azul transparente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser transparente. Claro, tinha de ser uma vez mais através da serendipidade.

Na capa, em letras garrafais: Nalú Nogueira — trata-se de uma seleção de poemas dessa poetamiga a quem admiro tanto.

Fui atropelado por um jorro de emoções esquecidas e a saudade bateu. Como não poeto mais com tanta facilidade, resolvi fazer essa série de três artigos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sentimos não cabe tudo num poema.

Não sei ao certo se é na tentativa de que algo não morra ou de que ressuscite, mas tenho certeza de que a Palavra deve se manter sempre viva dentro de nós.

Para Kant

Publicado em 23 de junho de 2009 por Olegario Schmitt

A Coisa em Si
Que Há em Mim


a coisa em si
não cabia em mim
de tantas dúvidas

— pior que pensar
é sentir, dizia
ressentida.

deveria ver?

deveria vir
a ser devir?

nem númeno
nem fenômeno:

a coisa em si
que há em mim

é maiomeno.

Existe quoi au-delà l’amour?

Publicado em 09 de junho de 2009 por Olegario Schmitt

Dans le Léman. Genève, 2009

Nous existons. Le reste, excessif, déline
l’essence imprégné par la forme du abîme,
car l’ombre des âmes qui aiment
est translucide: elle retient lumière
suffisante pour seulement nourir
le sentiment lui-même.

Dehors l’amour, l’unique sens
est l’absence du sens des choses.

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