As Vacas e o Niilismo

Vacas Olhando para o Próprio Umbigo
Niilista, eu? Imagine!
Acredito piamente que a humanidade
terá seu período de vacas gordas...
...todas indo para o brejo!
A Complexidade do Simples

Coisa simplória é algo cuja simplicidade não é fruto de mérito, estudo ou meditação; é aquilo ou aquela pessoa que “é” simples por mero acaso ou falta de opção.
Por outro lado simples — adjetivo derivado do latim simplex e, conforme apontam Ernout e Meillet¹, formado pelos elementos latinos sim- (de uma vez, um só) e -plex (que se dobra), significando só, único, que só é dobrado uma vez — é a coisa-em-si, a essência, o caráter, a parcela mínima sem a qual a coisa deixa de ser.
Antes de ser adjetivo, simples é coisa-substantivo, sem ornamentos de qualquer espécie, sem afetações ou pretensões.
Dessa forma, não há nada mais complicado do que se conseguir chegar à essência das coisas.
Que ninguém se engane: só se consegue a simplicidade através de muito trabalho.
Clarice Lispector
A simplicidade é o que há de mais difícil no mundo:
é o último reduto da experiência, a derradeira força do gênio.
George Sand
Em caráter, em comportamento e em todas as coisas,
a suprema excelência está na simplicidade.
Henry Longfellow
É curioso ver que quase todos os homens de grande valor têm maneiras simples;
e que quase sempre as maneiras simples são tomadas como indício de pouco valor.
Giacomo Leopardi
O Capitalismo, do Fast-Food ao Botox

Salvador Dali - Remorso ou Esfinge Atolada na Areia
O capitalismo não é um ser, mas por vezes parece possuir essa mente pensante, sórdida e extremamente inteligente, nos dizendo de maneira ininterrupta: “compre Batom, compre Batom, compre Batom”.
No entanto, é importante lembrar de que a idéia do “ter é igual ser” não é nova, tampouco fruto do capitalismo. Tudo parece ter começado em Adão e Eva, quando a serpente convenceu o feminino humano de que TER a maçã significaria SER D’us. Desde então nos iludimos, desde então nos estrepamos, sem nunca aprendermos a lição.
Não se estendendo muito no mérito dos avós dessa mazela — sejam eles Adão e Eva ou as Revoluções Francesa e Industrial — pode-se dizer que tudo principiou a ficar como está a partir da alvorada sombria do século XX.
Na primeira década, Henry Ford inventou a linha de produção; na segunda, surgiu o fast-food; e na terceira, nasceu a televisão. Acredito que resto tudo, incluindo o estado em que nos encontramos agora, tenha sido apenas conseqüência.
A humanidade, porém, não se deu conta de que o verdadeiro moto-contínuo estava aí inventado: enquanto a linha de produção possibilitou o efêmero — a durabilidade dos bens deixou de ser necessária, uma vez que se tornou extremamente fácil e barato produzi-los de novo —, o conceito do fast-food se somou ao imediatismo da nova indústria, com a televisão ajudando a vender todas essas idéias world-wide de maneira igualmente rápida e massiva.
A nouvelle vague econômica funcionou, e ainda funciona muito bem, como espécie de adubo prolífico fomentando as pobrezas de espírito. Em outras palavras, juntou a fome (vaidade humana) com a vontade de comer (indústria eficiente apoiada pela mídia).
Através da mídia — que certamente seria as cordas vocais do corpo amorfo capitalista, se este o possuísse, sussurrando aos ouvidos da eterna insatisfação humana, dialogando com as fraquezas de caráter e personalidade da grande maioria —, meninas compram a idéia do corpo perfeito vendido através de modelos bulêmico-esqueléticas e a fonte da eterna juventude dorian-grayniana pode ser encontrada tanto nas doses de botox quanto nos corta-estica-costura pintanguinianos.
Continuamos, ainda e mais uma vez, a sermos convencidos de que “ter é igual a ser”: “tendo esse novo modelo de celular você será mais feliz”, “com o creme anti-rugas você será para sempre jovem”, “tendo juventude será amado”, ad-infinitum...
Supondo, porém, que determinado indivíduo não possua em sua natureza tal insatisfação, isso de forma alguma será um problema: de maneira massacrante será atacado por todos o lados, meios e formas possíveis, até que a insatisfação, inconsciente, esteja criada dentro dele.
O capitalismo não aceita gordos felizes, por exemplo, e aí é que está a sua inteligência sórdida: a cadeia satânico-capitalista de produção consiste em, através da mídia, criar novos gordos através do consumo de fast-food, convence-los de que são infelizes e desajustados e faze-los comprar produtos que lhe trarão a ilusão de satisfação.
Dessa forma, se você se sentir desconfortável e/ou meio vazio depois de ter lido esse artigo, não perca tempo: vá ao shopping mais próximo e compre alguma coisa. O capitalismo agradece. E certamente você se sentirá bem melhor.
Ação Suspeita

Hoje foram presas 606 pessoas no Estado de São Paulo, em megaoperação da Polícia Civil.
Na lista, ladrões de laptops de Guarulhos, assaltantes de Congonhas, larápios de cargas no Porto de Santos, traficantes, seqüestradores, etc. etc. etc.
Aqui no Brasil tanta eficiência jamais nos deixa satisfeitos, muito pelo contrário: ficamos todos de cabelos em pé ou pelo menos com a pulga atrás da orelha.
Considerando-se que essa operação levou 15 dias para ser planejada e efetivada, não se entende o que terá acontecido com os meses de janeiro e fevereiro, quando operações como essa não ocorreram.
O que terá feito as águas de março rolarem?
De uma coisa tenho certeza: se a polícia fizesse uma operação dessas por mês, não nos importaríamos nem um pouco que folgassem nos outros 15 dias restantes.
São as águas de março fechando o verão, trazendo suspeita no meu coração.
A mãe do cativo
Castro Alves

I
Ó mãe do cativo! que alegre balanças
A rede que ataste nos galhos da selva!
Melhor tu farias se à pobre criança
Cavasses a cova por baixo da relva.Ó mãe do cativo! que fias à noite
As roupas do filho na choça da palha!
Melhor tu farias se ao pobre pequeno
Tecesses o pano da branca mortalha.Misérrima! E ensinas ao triste menino
Que existem virtudes e crimes no mundo
E ensinas ao filho que seja brioso,
Que evite dos vícios o abismo profundo ...E louca, sacodes nesta alma, inda em trevas,
O raio da espr'ança... Cruel ironia!
E ao pássaro mandas voar no infinito,
Enquanto que o prende cadeia sombria! ...
II
Ó Mãe! não despertes est'alma que dorme,
Com o verbo sublime do Mártir da Cruz!
O pobre que rola no abismo sem termo
Pra qu'há de sondá-lo... Que morra sem luz.Não vês no futuro seu negro fadário,
Ó cega divina que cegas de amor?!
Ensina a teu filho - desonra, misérias,
A vida nos crimes - a morte na dor.Que seja covarde... que marche encurvado...
Que de homem se torne sombrio reptíl.
Nem core de pejo, nem trema de raiva
Se a face lhe cortam com o látego vil.Arranca-o do leito... seu corpo habitue-se
Ao frio das noites, aos raios do sol.
Na vida - só cabe-lhe a tanga rasgada!
Na morte - só cabe-lhe o roto lençol.Ensina-o que morda... mas pérfido oculte-se
Bem como a serpente por baixo da chã
Que impávido veja seus pais desonrados,
Que veja sorrindo mancharem-lhe a irmã.Ensina-lhe as dores de um fero trabalho...
Trabalho que pagam com pútrido pão.
Depois que os amigos açoite no tronco...
Depois que adormeça co'o sono de um cão.Criança - não trema dos transes de um mártir!
Mancebo - não sonhe delírios de amor!
Marido - que a esposa conduza sorrindo
Ao leito devasso do próprio senhor! ...São estes os cantos que deves na terra
Ao mísero escravo somente ensinar.
Ó Mãe que balanças a rede selvagem
Que ataste nos troncos do vasto palmar.
III
Ó Mãe do cativo, que fias à noite
À luz da candeia na choça de palha!
Embala teu filho com essas cantigas...
Ou tece-lhe o pano da branca mortalha.
Anne Frank

Anne Frank
12/06/1929 - 12/03/1945
“Realmente, é de admirar que eu não tenha desistido de todos os meus ideais, tão absurdos e impossíveis eles são de se realizar. Conservo-os, no entanto, porque apesar de tudo ainda acredito nas pessoas, no fundo, são realmente boas. Simplesmente não posso construir minhas esperanças sobre alicerces formados de confusão, miséria e morte. Vejo o mundo transformar-se gradualmente em uma selva. Sinto que estamos cada vez mais próximos da destruição. Sofro com o sofrimento de milhões e, no entanto, se levanto os olhos aos céus, sei que tudo acabará bem, toda essa crueldade desaparecerá, voltarão a paz e a traquilidade.”
Anne Frank, 15 de Julho de 1944
gilda
a história de uma infanta nada infantil

Crianças vítimas das minas - Francesco Zizola
World Press Photo 1996
gilda, Seus Olhos e Seu Sorrisoera uma nega fulô
à qual chamavam de gilda.
e para ela rir gostoso
os três meninos faziam-lhe cócegas:
um na sola dos pés,
o outro no sovaco,
e o outro na barriga.depois um dedo no umbigo,
catar piolho na floresta miúda de pelos...
e aquele cheiro
de fruta suculenta e úmida
enchendo o ar
enchendo os sentidos
enchendo as cuecas...em troca
eles lhe davam
as suas sementes.e ela lhes devolvia
o seu olhar vazio
e o seu sorriso
sem dentes.
gilda e o Cobertorgilda foi para a capital com a família
ajudando a inchar a barriga
do cinturão da miséria.gilda sem sobrenome,
gilda inócua e sem história.para seus pais
era mais uma pedra
sobre a barriga,
mais uma barriga
sem pedra.gilda, por ser tão nada,
até de enterro foi poupada
e agora é uma ferida
soterrada pelas pedras.doze andares de concreto
da construção demolida.
um para cada ano
de sua vida sem alento.eis a anja tosca agora tapada
por um cobertor ainda mais frio
do que não teve em vida.gilda nunca ganhou aquilo que não havia:
amor numa barriga vazia
ou ajuda dessa gente sombria.sob os entulhos ninguém procurou
aquilo que não sabia existir...gilda, esquecida,
teve apenas o trabalho de sorrir
com seu sorriso sem dentes,
fechar os seus olhos vazios
e morrer de frio.
gilda e as Sementesmorreu gilda
com as sementes dentro
e ainda vivasai, aquela neguinha fulô
e seu sorriso sem dentes
ai, aquela neguinha fulô
e seu corpo doente.gilda dava aula de sacanagem
sem nunca ter ido à aula.
gilda era crack
em beberagem
e em enforcar
suas bonecas quebradas
e atirá-las do alto
dos seus doze anos.tão baixinho gilda estava
que nem se ouvia o barulho
do seu corpo caindo
do seu corpo fodendo
desmaiado.e sobre tudo pairava
ainda o seu sorriso sem dentes
como que para mostrar
que não era ela o doente.eram quatro crianças
que não brincam de roda.os três fazem um círculo
e fumam mais uma pedra.esquece-se da fome
esquece-se de gilda
esquece-se do frio.esquecido
mais um dia nasce
e os olhos não vêem mais nada.
In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, Ed. do Autor, 2003






