Hã?!




A Coisa em Si Que Há Em Mim


a coisa em si
não cabia em mim
de tantas dúvidas

— pior que pensar
é sentir, dizia
ressentida.

deveria ver?

deveria vir
a ser devir?

nem númeno
nem fenômeno:

a coisa em si
que há em mim
é maiomeno.

Senhores Pichadores


"Qual a sua opinião sobre pichações?" foi a única pergunta feita a trabalhadores, comerciantes, moradores e transeuntes de uma determinada rua de São Paulo.

Algumas de suas respostas estão nesse vídeo.

Le Nihiliste Amoureux



Dans le Léman. Genève, 2009


Nous existons. Le reste, excessif, déline
l'essence imprégné par la forme du abîme,
car l'ombre des âmes qui aiment
est translucide: elle retient lumière
suffisante pour seulement nourir
le sentiment lui-même.

Dehors l'amour, l'unique sens
est l'absence du sens des choses.

La Nariz / O Nariz



da série Alguns de Meus Órgãos Sexuais



La Nariz

Rafael Alcides Perez

La nariz tiene condición de juez.
Al contrario del ojo izquierdo y del derecho, que han tomado partido,
la nariz, inescrutable, se mantiene en el centro
— con algo de espada o de martillo.
Imitándola, la boca.
Pero la boca es hipócrita:
sonríe a la izquierda y a la derecha.

In: Y se mueren y mueren y mueren. Venezuela, 1988




O Nariz

Rafael Alcides Perez

O nariz tem condição de juíz.
Ao contrário do olho esquerdo e do direito, que tomaram partido,
o nariz, inescrutável, se mantém ao centro
— com algo de espada ou de martelo.
Imitando-o, a boca.
Porém a boca é hipócrita:
sorri à esquerda e à direita.

Tradução: Olegario Schmitt

Exposição de Vik Muniz



Ode ao Lixo



Exposição: Vik Muniz
Curadoria: Vik Muniz
Data: 19/05/2009
Local: MASP – São Paulo



São 131 obras ao todo, integrantes de 24 trabalhos diferentes: Linha, Equivalentes, Indivíduos, Arame, Açúcar, Terra, Tinta, Montinhos, Diamantes e Caviar, Mônadas, Rebus, Revistas, Pigmentos, Chocolate, Mapa Mundi, Quebra-Cabeças, Papéis, Poeira, Lixo, Sucata, Duas Bandeiras, Cores, Earth Works e Cárcere, além de uma imagem completamente solta (Caminhante sobre um mar de cinzas). Alguns trabalhos fazem parte de séries maiores, outros são dípticos ou trípticos.

Sendo improfícuo discorrer sobre cada uma das séries individualmente, serão pontuados alguns “pontos altos” da exposição como, por exemplo, o fato de a segunda série mostrada, Equivalentes, dialogar com a terceira, Indivíduos. Numa, bichinhos feitos com algodão, clara referência ao passatempo “infantil” de descobrir animais nas nuvens; noutra, nuvens desenhadas num céu limpo com o auxílio de aviões de fumaça. Nota-se aí, além da fina ironia que permeia todo o trabalho, essa tendência de apropriação do lúdico comum às pessoas, para então transfigurá-lo.

Uma das séries que mais chama atenção, obviamente, é Açúcar: retratos de meninos negros são construídos com açúcar sobre papel preto. O doce acaba por formar como que uma não-imagem, áreas de altas luzes delineando a forma negra dos rostos de papel.

Diamantes e Caviar parece ser uma referência aos jogos sociais de poder: mulheres com imagem influente, reconhecidas mundialmente, são construídas com diamantes, homens são construídos com caviar. Ambos os materiais são exclusivistas, restritos apenas àquilo que se considera a “nata” da sociedade. Parece-me que nem sempre as pessoas percebem a ironia existente no raro sendo representado pelo raro, no expensivo pelo expensivo.

Mapa Mundi, por sua vez, é um tríptico formando um mapa mundial contruído com descarte eletrônico (carcaças de computador, teclados, monitores), mostrando que aquilo que nos conecta também entope o planeta de lixo.

Não consigo, pessoalmente, acreditar que VM se identifique intimamente com muitas das causas sociais que aborda. Se por um lado ele parece ser oportunista, por outro, talvez simplesmente se aproprie de temas que estejam em voga na sociedade contemporânea, utilizando-os como massa de modelagem para sua manifestação artística. Havendo grande possibilidade de erro em qualquer uma das alternativas, é mais sensato que não se afirme nada.

Há, no entanto, alguma coisa nisso tudo que “não bate”, sensação essa baseada muito mais na impressão de que há algo sub-reptício e subliminar no ser do artista do que em alguma certeza biográfica. Esse sentimento me faz acreditar piamente ser errôneo pensar que VM se preocupa com o lixo eletrônico ou com os catadores de lixo do Rio de Janeiro — estes últimos fazendo parte de um projeto de inclusão social e participando ativamente na construção da obra.

Talvez a resposta seja bastante simples: para construir a série Lixo era necessário um grande número de pessoas recolhendo e selecionando material, além de mão de obra a baixo custo. “Inclusão social” sempre é um tema que ajuda nas vendas, atraindo a atenção da imprensa e dos pseudo-caridosos que se “condoem” hipocritamente da situação dos catadores de lixo do Rio de Janeiro.

Se por um lado podemos pensar que Narciso se afogando num lago de lixo é uma crítica à sociedade consumista e narcisista se consumindo em si mesma, por outro lado, sendo o ponto de partida do artista sempre o próprio artista, sempre o seu Self, por que então, consciente ou inconscientemente, Vik Muniz teria escolhido Narciso dentre inúmeras outras obras de arte?

Isso tudo, no entanto, é especulação — tenho consciência de que, ao afirmar tais coisas, corro o risco de “queimar eternamente no fogo do inferno” mantido constantemente aceso pelos pseudo-intelectuais que fazem a cultura no nosso planeta.

Em Earth Works, VM coloca os pés no chão, ou mais especificamente, mergulha de cabeça na land art: com o auxílio de máquinas aplainadoras e retro-escavadeiras, constrói figuras imensas na terra, as quais só podem ser vistas de avião ou helicóptero. Ao contrário dos desenhos existentes no deserto do Atacama — aranha, macaco, beija-flor, etc. — que lhe serviram de inspiração, VM representa aqui formas urbanas e contemporâneas: chaves, meias, óculos. Mais uma vez se faz notar a sua ironia, uma linha tênue separando-a do mero deboche. É interessante observar que, mesmo com toda a tecnologia utilizada na construção dessas obras, em termos estéticos o artista fica bastante aquém daquelas do Atacama: as imagens não são muito elaboradas, exceto pelo tamanho. Foi intencional?

A mostra é concluída por uma imagem sozinha, Caminhante sobre um mar de cinzas, feita com cinzas e bitucas de cigarro — o fim do cigarro, o abandonado, o jogado fora. Essa obra dispersa das demais parece uma tentativa de narrativa circular, ela nela mesma.

Quatro vídeo-documentários em time-lapse rodam em looping no andar inferior, mostrando o processo de construção de algumas obras. As pessoas embasbacadas em frente a essas telas, por sua vez, pareciam elas mesmas uma obra de arte, verdadeiros tableau-vivants da contemporaneidade hipnotizada.

No final, ficou a impressão de que Vik Muniz é sobremaneira um artista da escória, ou seja, de tudo aquilo que é considerado sem valor pela sociedade contemporânea: poeira, cinzas, revistas velhas, lixo, brinquedos produzidos em massa. VM encontra sua arte em lugares improváveis. É quase um esbanjar talento, como quem diz, arrogantemente, “eu faço arte com tudo”. É irônico, icônico e, à sua maneira, pop.

Sua busca constante, obsessiva e infatigável pela arte em tudo me lembrou muito a busca de Mario Quintana por sua poesia: “Subnutrido de beleza, meu cachorro-poema vai farejando poesia em tudo, pois nunca se sabe quanto tesouro andará desperdiçado por aí... Quanto filhotinho de estrela atirado no lixo!”

Sinal dos Tempos - 5 anos


Citações



Proibido dar Alimentos aos Animais, Entrar no Lago, Pescar


Duas citações decorrentes dos estudos de hoje. É interessante perceber como a "sincronicidade" discorrida por Jung em A Sincronicidade (1951) se manifesta.



"[O homem contemporâneo] não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e toda a sua eficiência, continua possuído por 'forças' além do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; têm apenas novos nomes. E conservam-no em contato íntimo com a inquietude, apreensões vagas, complicações psicológicas, uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses."

JUNG, C.G. In O Homem e Seus Símbolos



"A nossa economia enormemente produtiva... requer que nós façamos do consumo o nosso modo de vida, que nós convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais... que nós busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo... nós precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa taxa continuamente crescente."

LEBLOW, Victor apud PEREIRA, Mauricio Broinizi In Revista PUCVIVA n# 20 - Imperialismo e Crise Socioambiental

Eu, o Outro



Really a Self-Portrait



Aprendi a amar o Outro
dentro de mim.

Meu Mr. Hyde, meu irmãozinho
feio, meu monstrinho
de estimação.

Não mais censuro suas ações
repugnantes e rebeldes:
em vez disso, acolho-o
em meus braços cheios
de doçura maternal.

Digo-lhe mansamente
"meu pobre monstrinho,
por que tanta revolta?"

Ronroa sonolento
— não passa de um gatinho
assustado dormindo
no meio da sala.

Boccaccio '70 de Carlo Ponti



Bevette piú latte!!



Diretor: Carlo Ponti
Episódios: Renzo e Luciana, por Mario Monicelli
                 As Tentações do Dr. Antonio, por Federico Fellini
                 O Trabalho, por Luchino Vistonti
                 A Rifa, por Vittorio de Sica
Itália/França | Cor | 200 min. | 1962



O filme, espécie de “remake” da crítica à Itália feita pelo escritor Boccaccio no séc. XII através do seu Decamerão, apresenta quatro histórias.

No Ato I, Renzo e Luciana, dirigido por Mario Monicelli, há um retrato da classe operária. Os dois personagens são impedidos de assumir publicamente seu relacionamento, assim como a gravidez de Luciana, sob o risco de perder o emprego. Da mesma forma, a crise financeira enfrentada pelo jovem casal os impede de ter a devida privacidade. Ponto alto do filme é quando Luciana, numa sala de cinema completamente lotada com muitas pessoas em pé, diz a Renzo: “que bom que viemos ao cinema, assim temos a oportunidade de ficarmos sozinhos”.

O Ato II, As Tentações do Dr. Antonio, dirigida por Federico Fellini aborda, para variar, um dos temas preferidos desse diretor: as “perdições” da vida em conflito com a presença sombria do Vaticano. O Clero é mostrado de maneira similar ao seu filme Roma (1972), apresentando-se, talvez, como um ensaio para este último. Um senhor extremamente moralista, o Dr. Antonio, passa a ser atormentado por um enorme outdoor mostrando a imagem de uma senhora voluptuosa oferecendo um copo de leite. O cartaz diz: “beba mais leite”. O ponto alto desse episódio vem a ser justamente a música de Nino Rota: “Bevette piú latte”, que dá um tom tragicômico à história.

No Ato III, O Trabalho, dirigido por Luchino Vistonti, o conde trai sua mulher com diversas prostitutas, pagando preço alto. Ao descobrir, sua mulher de linhagem nobre resolve trabalhar para sustentar-se, porém por puro esporte. Acaba por vender-se sexualmente ao seu próprio marido, cobrando a mesma taxa que ele pagava para as prostitutas.

A última história, A Rifa, dirigida por Vittorio de Sica, é de longe minha preferida. Mostra uma Sophia Loren no auge de sua sensualidade, cuja personagem rifa uma noitada consigo. O episódio não passa de pretexto bem humorado para mostrar de maneira crítica a sociedade do interior italiano. A propósito, quem acaba levando o sorteio da rifa é o sacristão.



Dessa forma percebe-se que a crítica à Itália dos anos 60/70 é feita através do sexo: no primeiro ato, os personagens não conseguem fazê-lo por não ficarem nunca sozinhos; no segundo, as pessoas são desestimuladas pelo Dr. Antonio a não fazê-lo por ser imoral; no terceiro a esposa acaba vendendo seu sexo para o próprio marido; e, no quarto, a personagem principal é “rifada” para o sacristão.

A Flauta Mágica de Bergman



Papageno e Tamino



Diretor: Ingmar Bergman
Intérpretres: Josef Köstlinger (Tamino), Irma Urrila (Pamina)
                     Håkan Hagegård (Papageno), Elisabeth Erikson (Papagena)
                     Ulrik Cold (Sarastro), Birgit Nordin (Rainha da Noite)
Suécia | 95min | Cor | 1975



O interessante desse filme foi a maestria com que Bergman adaptou a obra de Mozart à linguagem cinematográfica.

Muitas vezes “adaptação”, “transcodificação”, significa necessariamente perda, abrir mão de alguns elementos presentes em um meio de expressão em detrimento de outro. Vale lembrar que é a transposição de uma obra (ópera, palco) em outra (cinema, película).

No entanto, talvez o termo mais adequado fosse mesmo “recriação”, ou “transcrição”: Bergman transcreveu Mozart para o cinema, aproveitando-se de elementos que apenas este pode fornecer.

Os atores-intérpretes são excelentes, a maioria deles desconhecidos. A cenografia e a iluminação exuberantes. A direção nem se fala: é Bergman. É Mozart.

Detalhe à parte é o amor do destrambelhado Papageno por sua Papagena. Não adianta: sempre gosto mais do populacho. São mais espontâneos e, ao meu ver, mais naturais, mais possíveis.

A cena da Rainha da Noite é impressionante, com toda a sua perfídia e maldade exacerbadas pela atuação da intérprete e pela iluminação à altura das características psicológicas da personagem.

Sarastro, assim como TODOS os personagens, também foi muito fielmente retratado, do alto de seu extremo senso de justiça com seu coração de leão e quando Papageno finalmente encontra Papagena no final, o coração arde de felicidade e satisfação.

Uma linda história de amor, mas que retrata no fundo a história da natureza humana.

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