Da Linha Desse Blog

Estresse na Fila do Banco - Série Matches
Meu melhor amigo disse-me que esse Blog seguia linha niilista, completa descrença nos seres humanos.
Quanto à descrença nos seres humanos, tudo bem, porque até aí é verdade... mas quanto à linha, não pretendia que esse Blog seguisse alguma, porque eu próprio não tenho qualquer tipo de linha: não sou novelo.
Deixo claro, portanto, que esse Blog, oficialmente, é tão desalinhado quanto meus cabelos.
Mas por falar em desalinhos, lembrei-me de algo que aconteceu há alguns minutos atrás, na fila dos Correios. Uma senhorinha, muito displicente, resolveu furar a fila. Haviam três na frente dela, além de mim, que era o primeiro. E quem tirava a muquiraninha do guichê? Quem? Irredutível, pés fixos, atacada de surdez estratégica, permanecia estatuada no mesmo lugar.
Dei um tapinha no seu ombro e disse "Dá licença? Volta pro teu lugar, que a vez é minha? Que cara-de-pau!" Pra que foi! O mesmo que cutucar vespeiro. A desabençoada entrou num nível de vibração tão baixo, começou a dizer tanta coisa que preferi ficar em silêncio, pegando a surdez estratégica dela para mim. Com gente assim, não se discute, não se desce a esse nível, o silêncio é uma arte, etc.
Já na semana passada quase fui atropelado, enquanto atravessava a rua na faixa de segurança, por um motorista que fez o retorno em local proibido. Quando gritei "Pô, qual é a tua, cara?!" ele ficou me xingando, fazendo gestos obscenos pela janela do carro. Decerto o errado era eu...
Esses são apenas dois exemplos, coisas que aconteceram comigo e que acontecem com todas as pessoas nesse país. Coisas que cada vez mais estão acontecendo, porque as pessoas estão cada vez mais loucas! Completa falta de respeito pelo semelhante, pela vida, por si mesmas.
Por isso, continuo firme na minha descrença nos seres humanos, mas não sou niilista: sou realista.
Preste atenção nessas pessoas que encontramos em todos os lugares: nas salas de aula, nas filas dos Correios, dentro dos ônibus, nas ruas e diga-me, sinceramente, se essas pessoas permitem que se creia em alguma coisa.
Sinal dos tempos: o mundo está perdido, com tendência a piorar.
Então não culpo meu melhor amigo por, palavras do seu filho, "viver no mundo dos duendes". A realidade é mesmo demasiado feia no que tange às pessoas e, secretamente, acho que o invejo um pouco por ele ainda conseguir acreditar nelas.
Liberdade de Expressão?

O inciso IX, do Artigo 5º da Constituição Federal, estabelece que "é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença". O Artigo 220, que "a manifestação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qualquer restrição". O seu parágrafo 1º estabelece que "nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação" e, em 1948, o Brasil subscreveu a Declaração Universal dos Direitos do Homem, que diz em seu Artigo 19 que "todo homem tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferências, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e idéias por quaisquer meios".
Embora os autores tenham, entretanto, amplo apoio legal à Liberdade de Expressão, é evidente que essa liberdade não é ilimitada como apregoa a teoria da Lei, pois é bem sabido que um autor não pode e não conseguirá facilmente publicar qualquer coisa que ele bem entender. Sua obra, não obstante ter passado pela censura particular dele mesmo e pela censura direta dos proprietários ou dirigentes dos meios de comunicação, ainda deverá confrontar a "censura social", essa mais forte e mais difícil de ser transigida.
Isso implica em dizer que o escritor, seja ele jornalístico ou literário, deverá produzir obras que antes estejam de acordo com os preconceitos e preceitos sociais, sob a pena da não-aceitação pública.
O autor que quer ter seu trabalho publicado, deverá escolher basicamente entre estar de acordo com a sociedade (e com o editor) ou não. Tendo-se em vista que se escreve PARA a sociedade e PELA sociedade, e não contra ela, essa "liberdade" não poderá entrar em confronto direto com o modo de pensar do social, mesmo que o autor esteja sob respaldo da Liberdade de Expressão instituída pela Lei.
E é isso o que acontece na prática: a Liberdade de Expressão acaba sempre esbarrando em mentalidades sociais ou individuais, demonstrando que essa total liberdade na verdade não existe, embora nossas leis, que na maioria das vezes são apenas teóricas, afirmem justamente o contrário.
O Sistema

O Sistema, que serve para regular a ação das massas, está contra os desajustados.
O Sistema, consumista por natureza, adquire o produto do desajuste, desde que travestido e adaptado a ele, e o assimila.
Uma vez assimilado pelo Sistema o produto do desajuste passa a ser Cultura.
A Arte Livre, aquela não-engajada ao Sistema, não obedece regras ou leis e, por isso, está voltada contra ele. Do ponto de vista dele, a Arte Livre é Contra-Cultura. Contra-Cultura será então toda Arte que não pode ser assimilada por ele porque não ajustada e deverá ser aniquilada através da opressão.
Como sou artista, entendo que a Cultura inserta no Regime é a verdadeira Contra-Cultura e que, anulável, não tem nenhum valor.
Mas como tento, mesmo que inconscientemente, me travestir e me adaptar ao Sistema, isso faz de mim um hipócrita, não tendo eu também nenhum valor senão aos olhos do Sistema.
Alguns artistas, seguindo na contramão do Regime, passam a ser considerados marginais. Outros, por questioná-lo, foram presos, pois ele se mantém através da opressão e da corrupção do pensamento. Este, ao não seguí-lo, torna-se anárquico e corre o risco de ser aniquilado.
O Sistema, além de oprimir o pensamento da massa, auto-anula-se continuamente, pois essa é a sua Lei de Conservação. O Sistema reinventa-se constantemente através da própria destruição, assim permanecendo intacto. Sim, é contraditório, mas é a contradição o que rege o Sistema.
Tráfico de influências e politicagens não são desajustes, do ponto de vista dele. Traficantes e políticos fazem parte das suas entranhas, contribuindo para que ele não sossobre, pois é a corrupção de valores o que permite sua sustentação.
O Sistema é apenas mais um dos embustes sociais: aquilo que intrinsicamente rege a massa está ao mesmo tempo contra ela e, por isso, o que acontece de ruim no mundo e na vida das pessoas, é tudo culpa do Sistema.
Constatações
Vejo uma menina maltrapilha pedindo trocados, um menino gorducho catando latinhas no lixo e um louco que passa ridiculamente feliz na sua condição, com uma etiqueta grudada na orelha e o sorriso doente e quebrado.
Vejo também pessoas comuns da minha cidade, pessoas comuns como as de uma cidade qualquer, tão felizes na alienação da sua ignorância que me fazem questionar sobre os conceitos de felicidade e conhecimento, sem no entanto obter respostas conclusivas.
Mas é somente quando o menino volta, visivelmente feliz por ter encontrado tantas latinhas de coca-cola, que me sinto imensamente culpado por, mesmo percebendo essas coisas e fazendo parte do mesmo mundo que ele, ainda conseguir sentir-me profundamente em paz.
Agenda

Foto: Centro de Medios Independientes - Guadalajara - Mexico*
Poeminho do tempo em que fui ativista estudantil
Hoje o dia promete
tem passeata às sete
corrida da polícia às oito
e como um bicho
me esconder afoito.Hoje o dia promete
tem passeata às sete
pelos milhões sem nome
que passam fome,
para depois, às oito,
fugir de parte deles
que se disfarça
sob os uniformes.
(1993)
Tarde de Sol

A tarde toda essa expectativa, esse silêncio que deixa tudo estagnado, em suspenso como uma mosca morta na teia de aranha, como uma mosca morta aguardando o destino que a natureza lhe impôs.
A tarde toda essa sensação de estar esperando alguma coisa, sendo que na verdade nada espero e nada quero além dessa paz instável de estar vivo e poder sorrir de vez em quando, nada espero além do conforto de deitar minha cabeça no travesseiro tranqüilo da minha consciência e nada quero além dessa satisfação de ainda estar inteiro depois de tudo, de não dar o braço a torcer e ser feliz só de birra.
Nada quero e nada espero, porque a tarde está clara sob o sol e me traz essa serenidade necessária para buscar meus sonhos ou para permanecer em absoluto silêncio observando as moscas, as aranhas e suas teias e simplesmente não ligar a mínima para o destino trágico das moscas porque a vida dos seres felizes segue alheia às angústias pessoais de cada um.
(07/12/2002)
Agora que sinto Amor

Agora que sinto amor
Tenho interesse no que cheira.
Nunca antes me interessou que uma flor tivesse cheiro.
Agora sinto o perfume das flores como se visse uma coisa nova.
Sei bem que elas cheiravam, como sei que existia.
São coisas que se sabem por fora.
Mas agora sei com a respiração da parte de trás da cabeça.
Hoje as flores sabem-me bem num paladar que se cheira.
Hoje às vezes acordo e cheiro antes de ver.
Alberto Caeiro
Metafísica de Não Pensar em Nada

O mistério das coisas? Sei lá o que é mistério!
O único mistério é haver quem pense no mistério.
Quem está ao sol e fecha os olhos,
Começa a não saber o que é o Sol
E a pensar muitas coisas cheias de calor.
Mas abre os olhos e vê o Sol,
E já não pode pensar em nada,
Porque a luz do Sol vale mais que os pensamentos
De todos os filósofos e de todos os poetas.
A luz do Sol não sabe o que faz
E por isso não erra e é comum e boa.
Alberto Caeiro
In: O Guardador de Rebanhos
O Gado de Nietzsche

Nietzsche estava certo ao afirmar que o povo é como gado.
Sejamos, portanto, compreensivos — jamais complacentes — com a massa.
A matéria bruta não assimila o etéreo: não lê poesia e acha Vivaldi um chato. Prefere revistas de moda e batidas de martelo.
O gado não diz obrigado, não pede desculpas, desconhece o que sejam sentimentos nobres.
Pesando os chifres sobre suas cabeças, olha na direção em que suas almas apontam: o chão. Por isso são tristes e andam de cabeças baixas.
E na sua existência, fora a cria, o pasto e a bosta, nada mais faz sentido.





