Amo Que Me Odeiem

Não há coisa que intimamente mais me cause prazer no mundo do que saber ou perceber-me odiado.
Isso se dá porque aqueles que me amam possuem em relação a mim certa proporção de similaridade: amam-me somente porque até certo ponto sou similiar a elas mesmas e é provável que pessoa alguma ame a alguém que não seja si própria.
De minha parte, amo-as pelos mesmos motivos: amá-las é unicamente amar o tanto de mim que vejo nelas, já que ao restante desprezo.
Igualmente, saber-me amado por determinadas pessoas me seria um castigo tão insuportável que gosto quando elas me odeiam pois assim tenho certeza de que não somos iguais em nada.
Sobre "Identidade e Diferença"

O autor discorre nesse ensaio como se dá o processo social de construção da identidade e da diferença. Isso que ele chama de “pedagogia da diferença”, é fundamental para a estruturação do seu pensamento uma vez que todo nosso processo cognitivo comumente é construído sobre a “pedagogia da igualdade” (ou, com outras palavras, da “pedagogia da identidade”).
Como a construção cultural de sentido conscientemente se dá por analogia e não por antinomia1, por isso se mostra imprescindível toda a parte inicial do ensaio, justamente para desconstruir esse vício lingüístico: citando Sausurre, Da Silva aponta o inconsciente desse processo: “a linguagem é, fundamentalmente, um sistema de diferenças”. Ao mostrar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apresenta o caminho contrário daquilo que consideramos a construção do conhecimento: ao dizermos os sinônimos estamos dizendo igualmente todos os antônimos. Isso obviamente faz todo o sentido, mas nunca pensamos nisso.
Todo o discurso sobre a construção dos signos é uma espécie de engenharia reversa da atribuição da identidade e da diferença e, afinal, é apenas compreendendo intrinsecamente a dinâmica de um determinado processo que se torna possível desconstruí-lo.
À Procura de Um Coração

— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa... e se eu encomendar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encontro coração aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem...
— Nossa, na Lapa?! Que longe... na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mercado da Lapa tem. Se tiver coração, é lá.— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior...
— Ô, Antônho, tem coração aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, coração só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade...
— ...
— Você sabe se tem outro açougue aqui perto?
Aos Extintores!

Série Instantâneos Conceituais ou Non-Sense Sobre o Destino de Uma Cabeça de Fósforo
Penúltimo Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Último Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Quando Um Fósforo Perde a Cabeça
Erra muito menos quem, com olhar sombrio, considera esse mundo como uma espécie de inferno e, portanto, só se preocupa em conseguir um recanto à prova de fogo.
Schopenhauer In: Aforismos Para a Sabedoria de VidaDe pecador metido em tal orifício ficava de fora dos pés à barriga da perna, ficando oculto o resto do corpo. Ardiam-lhes as plantas dos pés, acesas por inteiro, e nesse sofrer tanto se estorciam que teriam podido romper laços e cordas. Do calcanhar aos dedos corriam chamas, inflamadas como se flamejassem sobre corpo untado com gordura.
Dante In: A Divina Comédia, Canto XIX do InfernoA língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniqüidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno.
Evangelho de Tiago, 3,6Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.
Livro do Apocalipse, 21,8
Ele não está nas espirais de Dante, tampouco nos aguarda, apocalíptico, no Fim dos Tempos: o inferno é aqui e o diabo é o homem!
Aos extintores? Baldes d'água, mangueiras? Que se esqueça toda idéia de canecas ou mãos em concha: são insuficientes diante de toda hipocrisia, disfaçatez, falsidade, adulação, idolatria e dissimulação inerentes à vida "humana".
Para apagar essa fogueira das vaidades, apenas um novo dilúvio.
Confissões de Um Veterano

de NORBERT, E. e SCOTSON, J. L. - Link
Durante toda a minha vida sempre tive imensa dificuldade de pertencer a algum grupo (ou tribo, como se diz contemporaneamente) específico — acabando por transitar entre diversos meios heterogêneos entre si sem me sentir realmente pertencendo a nenhum deles. Minha análise até então era de que a não-aceitação acontecia devido a diferenças identificativas — de gostos, ideologias ou métiers. Por exemplo, na adolescência nunca fui aceito no grupo que gostava de heavy-metal por gostar igualmente de música clássica e bossa-nova; estes, por sua vez, também não me aceitavam justamente pelo motivo inverso. Nunca fui muito bem aceito entre os artistas plásticos por ser também escritor, e entre os escritores por ser também fotógrafo, e entre os fotógrafos, embora em menor escala, pelos dois motivos anteriores.
A sociedade exige — e cobra isso de maneira nem sempre tácita — que se pertença1 por inteiro a esse ou àquele grupo: ou você é escritor, ou é fotógrafo, ou é artista plástico. E se gostar de Bellini então que não ouse ouvir AC/DC. Se gostar de coisas que os outros não gostam, os outros não gostarão de você — a aceitação se dá na medida em que não são expostas tais coisas que o fazem diferente dos demais. Quanto mais igual, maior a chance de pertencer.
No entanto essas simples diferenças de “gosto” não esclareciam o universo de situações que eu percebia sem, no entanto, compreendê-las completamente. Não esclarecem, por exemplo, meu desprezo pelos “bixos” da faculdade ou a minha dificuldade em quebrar as barreiras para ingressar em determinada tribo urbana e registrá-los fotograficamente.
Nalú Nogueira III

o ipê
Nalú Nogueira e Olegario Schmitt
Eu tenho um ipê tão alto
que uso seu caule-telégrafo
para conversar com os anjos
em pancadinhas em morse.Nas folhas verdes-pulsantes
em meu morsear poético e
tantas vezes patético
peço urgências providências
para acalmar a dor que sinto.Noutros dias vou subindo,
tardes indo me esconder no
ipê florido, lá do alto mar azuis
e céu lilases, outros, sangues
e a minha tristeza exangüe
e o meu cantar colorido.Tardes indo, anjos vindo.
E o vento gordo ventando.
E as folhas do ipê balançando.
E a luz da vida sorrindo.
Nalú Nogueira II

terminal
Nalú Nogueira
quero rasgar a dor das coisas terminadas
não pousar os olhos sobre as fotografias
não torturar-me com a leitura das palavras
doces — agora eternamente frias.
quero espicaçar minh'alma descaradamente inútil
com o velho picador de gelo prateado
furar também a carne sem servência
refazer-me — em desvelo e prudência
e afogar em fogo alcoólico o terror
das noites em que foge o perdão
(vai bem distante)
em gelo tilintante sufocar soluços
de autopiedade
apelar para a santíssima trindade
em gritos hereges de embriaguez desvairada.
sair na calçada gritando:
— alguém me possua!
e esperar que venha qualquer miserável
que me coma e me livre, enfim,
de ser tua.
o piano
Nalú Nogueira
Decifra-me.
Se me queres,
tenta-me.
Há portas que estão
apenas aparentemente
fechadas. Abre-as.
Uma delas dá acesso a
uma sala e dentro dela
há um piano. Entra.
E toca-me.
Se teus dedos produzirem
música, terás
me aprendido.
sobre as dores
Nalú Nogueira
Falta-me o ar.
A noite desceu com
o peso de mil toneladas
sobre os meus ombros
esquálidos:— que posso eu contra
o peso de mil sonhos destruídos?
Soneto para cantar a dor
Nalú Nogueira
quero fazer os versos mais sentidos
para cantar ao mundo a dor que sinto
com minha voz de vidro estilhaçado
e o meu olhar de sombras revestido.quero escrever os versos mais bonitos
dizer: ó noite, bruma aveludada!
ó querubins valsando em plena lua!
ó lumiar de estrelas do infinito!mas vou dizer os versos mais doídos
jogar a dor que sinto em cada face
entrar em dor e alma em cada ouvidoe assim tocar, talvez, o mais descrente
e exorcizar, quem sabe, o que me mata
e crer, por fim, num deus que não me bata.
Nalú Nogueira I

Serendipidade é a aptidão, faculdade ou dom de atrair o acontecimento de coisas felizes ou úteis, ou de descobri-las por acaso. Em derivação por metonímia, é cada uma dessas coisas felizes ou úteis. (Houaiss)
Serendipidade I
Há diversos anos — ninguém sabe exatamente quantos, mas talvez seja uns 10 — Nalú Nogueira e eu nos encontramos em algum recanto virtual de poetas. Foi uma coisa esquisita: nos gostamos de pronto, para todo o sempre amém. Escrevíamos juntos, díade: cada um fazendo um verso como uma valsa. Por vezes terminávamos os escritos um do outro. Virávamos dias e noites em frenesis literários infindáveis.
Nunca nos vimos pessoalmente. Porém, ao contrário do que pode pensar os incautos — ou não iniciados —, os bits, bytes e Kbytes eram apenas o meio de materialização de algo deveras real.
Dicotomia: os tempos foram passando conforme abandonávamos lentamente esse único meio de convívio. Perdemos o contato, cada um foi para um canto, isso acontece com todo mundo.
Serendipidade II
Muitos anos depois, nos reencontramos no Twitter, através de uma amiga em comum. Foi meio por acaso, óbvio!
Estamos deveras diferentes, praticamente não escrevemos mais poesia. Mas ainda somos felizes — nem mais nem menos, apenas diferente.
Serendipidade III
Revirando minhas velhas caixas à procura de um manual, encontrei um impresso encadernado com a capa azul transparente. Claro, tinha de ser azul. Claro, tinha de ser transparente. Claro, tinha de ser uma vez mais através da serendipidade.
Na capa, em letras garrafais: Nalú Nogueira — trata-se de uma seleção de poemas dessa poetamiga a quem admiro tanto.
Fui atropelado por um jorro de emoções esquecidas e a saudade bateu. Como não poeto mais com tanta facilidade, resolvi fazer essa série de três artigos para Nalú Nogueira. Não cabia tudo num só, assim como às vezes aquilo que sentimos não cabe tudo num poema.
Não sei ao certo se é na tentativa de que algo não morra ou de que ressuscite, mas tenho certeza de que a Palavra deve se manter sempre viva dentro de nós.
Panoramas

Tudo o que você queria saber sobre Panoramas mas não tinha para quem perguntar é um e-book que discorre sobre panoramas, como capturar as imagens para criar um panorama, softwares utilizados, dificuldades, limitações técnicas, etc.. Tudo explicado passo-a-passo e de maneira bem didática.
Esse e-book é complementado pelo vídeo abaixo:
Há dois suicidas escondidos nessa imagem.
Encontre-os antes que seja tarde demais.



