A Metafísica da Pedra Que Cai



Estudo para a série Pictografias



Primeiro, quero deixar claro que a intenção dessa reflexão não é a de questionar a existência de D'us, pois considero o Óbvio inquestionável. E D'us, para mim, será sempre uma questão de obviedade, jamais de crença: não acredito que Ele existe, eu vejo que ele existe.

Minha intenção também não é a de dar nenhuma explicação ou resposta para qualquer coisa, mas unicamente questionar, chamar à reflexão.

É incrível perceber o quanto temos a tendência de preferir a versão metafísica dos fatos, uma vez que a realidade pode se apresentar muito chata, sem romantismo nenhum.

Percebi isso de maneira clara há algum tempo, quando uma amiga — sim, eu tenho o péssimo hábito de utilizar as pessoas como "cobaias" comportamentais — reclamou que havia caído uma pedra do seu colar de pedrinhas de quartzo.

"A pedrinha caiu porque era a hora de ela cair", eu disse, e seus olhinhos no mesmo instante brilharam: a pedra havia caído por um motivo muito, muito especial, metafísico, transcedental, totalmente desconhecido, mas jamais por mero acidente.

Passei a perguntar-me quantas vezes utilizamos tais artifícios no nosso dia-a-dia? Isso não seria, na verdade, tentar tornar a "realidade" mais aceitável através da "fantasia"?

Por que será tão mais fácil aceitar a versão "enfeitada" das coisas em vez de aceitar simplesmente a realidade nua e crua como ela é?

Por que é mais complicado aceitar que a pedra caiu porque estava mal colada, ou seja, por mera ação da gravidade?

O que vem a significar exatamente "a hora de ela cair", uma vez que essa "hora de cair" é algo completamente relativo: poderia ter acontecido várias semanas depois, ou até mesmo jamais ter acontecido, se estivesse bem colada.

A metafísica está na queda da pedra ou na incompetência do ourives que não fez seu trabalho direito? Está no fato de ele estar mal-dormido por ter ido à festa de aniversário de sua namorada na noite anterior e, por isso, ter colado mal a pedra? A metafísica está então no aniversário da sua namorada? Ou quem sabe não estaria na concepção da menina por seus pais, mais tarde resultando no namoro dos dois até que, no seu 28º aniversário, ele perdesse a hora na festa, chegasse ao trabalho com sono, colasse mal a pedra para então, e só então, ela cair? Isso significa que a pedra começou a cair 28 anos atrás? Indo mais além com isso, até os pais dos pais da menina e assim por diante, a queda da pedra teria então começado com Adão e Eva sendo expulsos do paraíso?

Meu D'us, que complicação! Não é bem mais fácil pensar que a pedra simplesmente caiu? Mas isso não tem graça nenhuma, não é?

Analisemos, por exemplo, uma caneta repousando sobre a mesa. Ela permanece ali por estar em perfeito equilíbrio: a pressão que a caneta exerce sobre a mesa é exatamente a mesma que a mesa exerce sobre a caneta. Se assim não fosse, a caneta cairia mesa adentro, ou então permaneceria voando, solta no ar.

Essa caneta está sobre a mesa porque D'us quis?

Como isso é uma questão de física básica, Equilíbrio dos Corpos, significa que Newton desvendou o mistério divino?

Com tantos horrores pelo mundo, será que D'us não tem mais nada para fazer além de manter as canetas sobre a mesa e as pedrinhas de quartzo presas nos colares?

Isso são meras perguntas, jamais afirmações de coisa alguma. Como nenhum de nós sabe o que exatamente é D'us, uma vez que cada um tem o seu próprio conceito sobre Ele — inclusive o de que Ele não existe — como haveremos nós de saber o que D'us quer ou deixa de querer?

Como não sabemos quase nada sobre tudo e muito menos ainda sobre D'us, não seria mais lúcido e sensato se nos apegássemos apenas à versão tangível dos fatos, à realidade dura e chata dos acontecimentos?

A pedra caiu. Ponto final.

Sonetos




Lembrança da época em que eu vivia atolado em apurações de saldo — e pensava, secretamente, na ironia do destino que era um poeta atolado em números —, posto aqui esse soneto libertário, verdadeira catarse contábil, na asserção exata do termo.



Soneto Contábil



Eu confesso: odeio a Distribuição
Do Lucro Líquido Sobre o Capital Próprio,
Os Impostos de Renda e a Apuração
Do Lucro do Exercício, porque o grande ópio

Da minha vida sempre será o ócio,
Ficar coçando o saco sem preocupação
Com os clientes ou os lucros dos negócios,
Esquecer os prazos e a queda da inflação,

Mandar pro inferno toda a incomodação
Do escritório e daqueles empresários
A quem a gente nunca pode dizer não,

Passar os dias numa completa vadiação
Sem nunca mais lembrar do Livro Diário
E do Balancete de Verificação!

08.11.2002



Hoje vivo feliz, atolado em códigos HTML, xHTML, PHP, Perl, ASP, JavaScripts e ActionScripts, além de animações em Flash e bancos de dados MySQL. Em vez das Contribuições Sociais ou dos Lucros Bruto e Líquido do Exercício, preocupo-me agora com as variáveis das functions, os targets dos keyframes das timelines, os ifs, elses e dowhiles — e fico imaginando o quão irônico é o fato de eu achar isso tudo o máximo...



Soneto Camoniano Agateemélico
(Reprogramado)

Eu confesso: amo as Programações
"Agateeméle", "peagapê" e javascript,
As variáveis, as functions, os Do Ifs,
Else e Do Whiles, porque o grande ópio

Da minha vida sempre será o código,
Desenhar o site todinho em Flash
Buscando a completa satisfação
Dos clientes através do equilíbrio

Estético da programação visual,
Fazer do computador extensão
Dos meus braços, agindo tal e qual

Um nerd: vivo em contínua clicação
E, através do menu ou do botão,
Faço o upload bem no meu coração.

14/04/2005

Corrupio




O amor é o fio
que faz girar
o corrupio da vida.


13/04/2005
12:40h

Ao Infinito... e além!



Buzz Lightyear do Comando Estelar - Disney-Pixar Studios



Personagem dos longas-metragens de animação gráfica Toy Story, Buzz Lightyear é um astronauta de brinquedo que acredita piamente conseguir voar de verdade e nada no mundo o convence de que o seu raio laser desintegrador não passa de uma inócua luzinha vermelha.

Tendo fé cega em si mesmo e em seu poder, consegue façanhas incríveis, salvando seus amigos das piores enrascadas além de, é claro, lutar contra o maldoso Imperador Zurg, inimigo da honestidade e da justiça.

Buzz Lightyear do Comando Estelar, um brinquedo, personagem de uma animação cômica voltada ao público infantil, nos ensina a ter fé e coragem, acreditando na sua própria força independentemente do que seja dito em contrário.

Seu lema, "Ao Infinito e além", demonstra propósito firme na vida (o infinito) e inconformidade (lá chegando, ir além). Buzz, o amigão valente de brinquedo, também ensina outros valores imprescindíveis aos seres humanos de bom caráter, como auto-estima, respeito, lealdade e perseverança.

Sem esquecer de que para o espírito sedento por luz os grandes exemplos podem estar em qualquer parte, sejamos nós mesmos como pequenos Buzz Lightyears de verdade e, parte do mesmo Comando Estelar, levantemos nossas cabeças rumo ao infinito, seguindo sempre além.

Abrindo o Baú



Le Bahut - 13/05/1958
Jornal editado pelos formandos do Liceu E. F. Gautier (Paris)



Nos momentos de vazio criativo — que podem durar meses, até anos — pelo qual todo escritor passa em algum momento da vida, é interessante ficar remexendo nos "baús", à procura de pérolas esquecidas. Essa atividade acabará, por via de regra, levando ao reencontro de todos aqueles lixos tenebrosos ou inacabados, para os quais não houve coragem suficiente de torná-los públicos.

Tarefa mais interessante ainda — podendo, no entanto, mostrar-se extremamente dolorida e vergonhosa — é reler os primeiros cadernos de poesia. Entre absurdos literários e verdadeiros atentados à poética, pode-se acabar encontrando verdadeiras pérolas.

Através dessa espécie de fotografia íntima feita com letras pode-se, por exemplo, saber o que se passava em minha cabeça em 1991:

Planto o pé na pia,
Prego a preguiça,
A polidez da proibição.

Porcaria de pensamentos!

ou então ficar imaginando se alguém no mundo conseguiria explicar o que raios eu quis dizer com isto:

Os sinos da Catedral Diocesana
da Cidade de São Paulo
ecoam infinitamente,
acordando
os mendigos da
Rue des Aux, Paris,
ano de 1928.
Mês que vem
chega a resposta.

(Só para constar, até hoje ainda não chegou resposta nenhuma.)

Também nessa época, já encontram-se traços claros de niilismo:

A terra morre.
E que cinza
é esta
que resta
da qual
não nasce nada?

e indagações estranhas

Asteróides realmente são o que dizem que eles são?
Não são estrelas suicidas?
Asteróides não são as lágrimas incandescentes de Deus?

Interessante, também, é analisar a evolução artística, o que sempre traz alguma esperança de salvação literária. O mesmo tema, por exemplo, abordado com versos simples em 1992

A Fonte da Inspiração

Escrevo o que vejo
ou o que penso.
Quando estou cego
e a minha cabeça
está girando,
não escrevo nada.

e com redondilha maior (heptassílabos) e rimas toantes intercaladas em 2003

Pequeno Poema de Nada

Eu nunca escrevo sentindo
Se sinto, não escrevo nada.

Tem poesia que fala tudo.
Essa, no entanto, é calada.

Tenho um silêncio profundo
E a boca muito cansada.

Esse é o poema de um mudo.
Esse é um poema de nada.

In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, 2003

Fica a certeza de que há esperança para os que perseveram...


Caso à Parte

Os Animais no Circo

O circo ensina as crianças a rir
da dignidade perdida dos animais.
Nesse caso, a "humanização" dos bichos
reflete claramente a falta de humanidade das pessoas
projetada em um macaco de vestido,
camuflada sob o riso.

Ainda no baú de 1993 está o poema Os Animais no Circo (In: No Pé da Letra, Prêmio Blocos 1999). Mesmo que esse poema seja encontrado entre citações de São Francisco de Assis, Buda, Leonardo da Vinci, Pitágoras, Émile Zola, Freud e Axel Munthe, entre outros — o que é motivo, obviamente, de grande honra para mim — não deixa de ser lesão de meus direitos autorais, uma vez que não fui consultado sobre o assunto. Fazendo uma pesquisa exata (colocando a expressão entre aspas nos sites de busca) o Google e o MSN retornam mais de 60 resultados e o Yahoo mais de 40.

Mas, enfim, entre PPS's (animações do PowerPoint) com fotos de animais estraçalhados e deputados federais utilizando minha obra para promoção pessoal — cometendo crime federal ao infringir a Lei 9.610, de 19 de fevereiro de 1998 —, guardo minhas mãos nos bolsos: quem nunca lesou os direitos autorais de ninguém em nome de alguma causa, que atire a primeira pedra.



Concluíndo

Concluíndo, deixo um poema de 1991, que fala sobre abstração:

Abstração

Se algumas coisas
mesmo sendo abstratas
às vezes nos falam tanto,
é porque nesse turvo confuso
que é o significado de tudo
há uma elipse um tuneou um clown
que tudo mistura
dissipa, torna vasto o vago sentido
da palavra na poesia
da tinta na pintura
das vozes no vento
da chuva na areia.

Achar no meio de tudo
um segundo sentido
— um sentido primeiro —
é a arte de entender
e compreender
ou quem sabe é mesmo
a arte de tornar-se também abstrato.



tuneou: tipo de acrobacia aérea (tuneou, looping, etc.)
clown: tipo de acrobacia circense (clown, gravoche, etc.)

Borges II



Via Sacra , 4ª Estação - Encontro de Cristo com a Mãe
Victor Brecheret (Déc. 1940)



A Moeda de Ferro
Jorge Luis Borges



Aqui está a moeda de ferro. Interroguemos
as duas faces contrárias que serão a resposta
da pergunta teimosa que ninguém se fez:
Por que um homem precisa que uma mulher o queira?

Olhemos. Na órbita superior entrelaçam-se
o firmamento quádruplo que sustenta o dilúvio
e as inalteráveis estrelas planetárias.
Adão, o jovem pai, e o jovem Paraíso.

A tarde e a manhã. Deus em cada criatura.
Nesse labirinto puro está teu reflexo.
Joguemos novamente a moeda de ferro
que também é um espelho magnífico. Seu reverso
é ninguém e nada e sombra e cegueira. Isso és.
De ferro as duas faces lavram um só eco.
Tuas mãos e tua língua são testemunhas infiéis.
Deus é o centro intangível da aliança.
Não exalta nem condena. Obra melhor: esquece.
Maculado de infâmia por que não haverão de querer-te?
Na sombra do outro procuramos nossa sombra;
no cristal do outro, nosso cristal recíproco.

In: La moneda de Hierro (1976)



Tradução: Olegario Schmitt

A Idiossincrasia do Vôo da Palavra



Artista Desconhecido - Instalação na XXIV Bienal de São Paulo



palavras são coisas boas para encucações.
um dia uma palavra me deixou de cabelos brancos.
idiossincrasia era o seu nome e foi uma amiga quem me deu,
significa uma sensação ambígua feita para o vôo livre.

tem palavra que deixa você mais velho de tanto pensar,
principalmente se tiver mais de uma dúzia de letras.
aí você fica velho só de ler. portanto se você ler "árvore"
e não se desfolhar acabará perdendo um fio de cabelo.

palavras fazem muito sexo entre si. quando elas se juntam
é quase como uma suruba, só que literária.
daí é que nascem os contos e as cartas de suicida.
é quase como uma arma: depende de quem utiliza.

num passarinho com penas no bico a palavra "vôo"
perdeu o sentido, então o pássaro cantou.
uma borboleta passando ficou com ciúmes
de tanta abstração e perdeu o impulso.

o vôo das borboletas é quase como o vôo de uma bala,
só que não faz barulho para decolar. se fizesse, espantaria o pássaro.
se fizesse, a palavra acertaria o seu alvo e você ficaria mais velho.
quer saber? é melhor nem pensar.


Olegario Schmitt

30-07-2003

Borges I



Índio com Arco-e-Flecha - Ottone Zorlini (1950)



Para uma versão do I King
Jorge Luis Borges


O porvir é tão irrevogável
Quanto o rígido ontem. Não há uma coisa
Que não seja letra silenciosa
Da eterna escritura indecifrável
Cujo livro é o tempo. Quem se distancia
De sua casa já voltou. Nossa vida
É a senda futura e percorrida.
O rigor teceu a madeixa.
Não te desvies. A masmorra é escura,
A trama firme é de incessante ferro,
Mas em algum recanto de teu fim
Pode haver uma luz, uma fenda.
O caminho é fatal como a flecha,
Mas nas frestas está Deus, que espreita.

In: La moneda de Hierro (1976)


Tradução: Olegario Schmitt




Uma chave em East Lansing
Jorge Luis Borges


Sou uma peça de aço limado.
Meu borde irregular não é arbitrário.
Durmo meu sonho vadio num armário
Que não vejo. Sujeita ao meu chaveiro
Há uma fechadura que me espera.
Uma só. A porta é de ferro
Forjado e cristal firme. Do outro lado
Está a casa, oculta e verdadeira.
Altos na penumbra os espelhos
Desertos vêem as noites e os dias
E as fotografias dos mortos
E o ontem tênue das fotografias.
Alguma vez empurrarei a porta
Dura e farei girar a fechadura.

In: La moneda de Hierro (1976)


Tradução: Olegario Schmitt




Um Sonho (Ein Traum)
Jorge Luis Borges


Sabiam-no os três.
Ela era a colega de Kafka.
Kafka a tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
Ele era o amigo de Kafka.
Kafka o tinha sonhado.
Sabiam-no os três.
A mulher disse ao amigo:
Quero que esta noite me queiras.
Sabiam-no os três.
O homem a contestou: Se pecamos,
Kafka deixará de sonhar-nos.
Um o soube.
Não havia mais nada na terra.
Kafka disse para si mesmo:
Agora que se foram os dois, fiquei só.
Deixarei de sonhar-me.

In: La moneda de Hierro (1976)


Tradução: Olegario Schmitt

João Paulo II



Karol Josef Wojtyla
(18/05/1920 - 02/04/2005)



Não atendo-se a biografias e deixando de lado a instituição por ele representada, este Blog exalta Karol Wojtyla por sua dedicação e perseverança na defesa dos direitos humanos. Destaca também suas visitas a uma sinagoga (em 1986), a uma mesquita (em 2001), à Cuba de Castro, ao Chile de Pinochet e ao Egito ortodoxo, além do seu papel fundamental à queda do comunismo no Leste Europeu.

Sendo — independentemente de suas posturas polêmicas em relação a determinados assuntos, porém extremamente justas em relação a outros — pacifista defensor da liberdade e da harmonia entre os povos e as religiões.

Segundo a opinião do vice-primeiro-ministro do Estado de Israel, Shimon Peres, compactuada por esse Blog, João Paulo II foi "um verdadeiro líder espiritual cuja liderança não se limitou a seus fiéis. Ele nos trouxe um grande espírito, um espírito de bondade. O Papa representa com sua personalidade a grandeza humana e era o denominador comum de toda a humanidade".

Devido à sua passagem, este Blog estará de luto até sexta-feira, tempo esse que será utilizado para meditar sobre seu exemplo de vida e sobre os valores morais que ele tentou passar a esse mundo já quase sem moral nenhuma.

Os sentimentos de perda e de abandono, porém, permanecerão por muito tempo além disso.

Vincent Willem van Gogh



Auto-Retrato - van Gogh
(1853 - 1890)



Rebelde, inclinado à solidão, até mesmo insociável, van Gogh é um desajustado no seu lar, em sua terra e em sua sociedade.

Desde jovem, tem dificuldade em se adequar aos padrões e passa por diversos trabalhos, até que descobre sua verdadeira aptidão, a pintura. É ajudado por seu irmão mais novo Theodore, a quem chama carinhosamente de Theo. Foi seu amparo afetivo, emocional e econômico.

Em 1876, vive suas primeiras crises nervosas e tem na religião um refúgio. Resolve ser pastor. Mas nem assim ele se aquieta. Pregava pouco e se preocupava demais com os doentes e crianças.

Quando resolve pintar, Theo o ajuda, pois neste período é um dos dirigentes da Galeria Goupil. Theo está em Paris, o centro artístico. Com o dinheiro que ele manda, van Gogh estuda anatomia e perspectiva. Resolve pintar a sua terra e os homens simples. Não deseja fazer uma pintura clássica, pintar "gente que não trabalha". E diz:

"Eu não quero pintar quadros, quero pintar a vida".

Vida para ele são paisagens e gente, isto é, camponeses e mineiros, campo e trigais.

Em 1885/86, van Gogh está em Antuérpia, onde ele se apaixona definitivamente pela cor:

"O pintor do futuro será um colorista como nunca foi possível antes".

Era um excepcional artista que foi buscar lá fora, na própria natureza, o colorido, as formas revoltas, as árvores farfalhantes, as casas solitárias, os rostos sofridos, os corpos alquebrados, os céus estrelados, o amarelo dos girassóis e dos trigais, tudo com um brilho muito exagerado para ter mais expressão. Ele dizia:

"Procuro com o vermelho e o verde exprimir as mais terríveis paixões humanas. Quero pintar o retrato das pessoas como eu as sinto e não como eu as vejo".

Em 1888 (Arles) pinta ao ar livre. Quando chega o verão e o sol, van Gogh liberta as cores:

"Eu quero a luz que vem de dentro, quero que as cores representem as emoções".

A seu convite, Gauguin chega em outubro, para trabalharem juntos. Seguem-se dois meses de trabalho duro é fértil para ambos. Mas a diferença de temperamento e de atitude diante da vida acaba explodindo numa inevitável desavença.

Van Gogh tem crises de humor, discute, agride o amigo, sofre de mania de perseguição e numa das crises tenta ferir Gauguin com uma navalha. Perde a luta, é levado para a cama em lágrimas e com descontrole muscular. Arrependido, corta, de propósito, um pedaço da orelha e manda num envelope à mulher que motivou a briga.

Recolhido ao hospital Saint-Paul para doentes nervosos, mais tarde pinta, diante do espelho, o Auto-retrato com a orelha cortada. Seu olhar é de espanto, mágoa e melancolia.

Em maio de 1889 ele mesmo pede ao irmão que o interne. Vai ao hospital de Saint-Rémy. Seu quarto do hospital é transformado em atelier. Pinta sem parar, e manda dizer ao irmão que está pintando bem. Pinta paisagens, o hospital, os doentes, as celas, o pátio e os médicos. Apesar de sua grande produção, vendeu um único quadro em sua vida toda.

Seus últimos quadros já mostram deformações mais fortes, pois van Gogh prefere pintar a sua própria realidade. Os trigais são turbulentos e inquietos, os ciprestes estão trêmulos, angustiantes, cheios de tensão, as oliveiras tornam-se exaltadas e torcidas.

No dia 27 de julho de 1890 sai para o campo de trigo com um revólver na mão. É domingo, o grão está dourado, o céu incrivelmente azul. Corvos muitos pretos gritam e fogem em revoada. Dias antes ele pintou esse quadro. No meio do campo dá um tiro no peito.

Vincent van Gogh com sua pintura contribuiu para a pintura moderna com a vitória da cor sobre o desenho, libertando-a. Foi o precursor do Expressionismo.


Fonte: Os Grandes Artistas: van Gogh - Nova Cultural

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