Categoria: Reflexões

Animais de Estimação



Quando eu era criança morava em fazenda e tinha um porquinho de estimação chamado Porquinho. Ele era bem roliço porque mamava no bico, apesar dos protesto de mamãe em "jogar leite fora com esse porco". Ia roncando atrás de mim o tempo todo e quando eu coçava sua barriguinha ele dormia. Até que um dia o tal do porco sumiu, misteriosamente. Apenas já muito grande é que fui entender que a gente havia comido ele.

Depois tive o Bequinho, um bezerro cuja mãe havíamos jantado no ano novo. Mas eu o ensinei a cabecear e a dar coices e ele começou a ficar muito perigoso conforme crescia. Certa feita, no meio do nada, Bequinho me cabeceou para dentro de uma vala funda de barro e minha mãe pegou implicância com ele. Na sua última façanha, encurralou dois negociantes no canto do galpão de papai e eles ficaram encantados. Foi vendido por um bom preço, apesar de meus protestos.

Houve também um cágado que meu pai trouxe de uma pescaria. Não havia ainda nem lhe posto nome e fiquei com pena do bichinho lá preso. Resolvi colocá-lo numa vala para ele nadar só um pouquinho, que depois o pegava de volta. Nem preciso dizer que assim que caiu na água o cágado desapareceu para sempre e chorei por várias semanas.

Por último, tive uma gata pesteada chamada Missinha, que certa vez fez cocô em mim dos pés a cabeça. Joguei-a pra longe imediatamente, aquela "praga churrienta"! Drama à parte foi retirar a camiseta pela cabeça, com "aquilo" passando bem na frente do meu nariz... desde então odeio gatos profundamente.

Como se nota, minha história com bichinhos de estimação é bastante trágica e acho que ela se reflete claramente em minha relação com as pessoas — algumas morreram, outras fugiram ou foram vendidas e nunca mais voltaram e outras ainda, metaforicamente, também fizeram cocô em mim.

Por isso hoje em dia gosto preferencialmente de cachorros em detrimento dos outros animais, incluindo aí os seres "humanos".

Os cães nunca me decepcionaram. E, o melhor de tudo, já vem com pulgas de fábrica.



Não há nada mais chato na vida
Do que um cachorro sem pulgas...

Mario Quintana

Ssss...




Máximas Mínimas




Suspeito de que nenhum néscio goste de si mesmo, pois nem mesmo um néscio seria capaz de tamanho mau gosto.


Algumas pessoas não me causam raiva, mas pena: acordar todo dia e dar de cara com elas mesmas em frente ao espelho é algo que ninguém merece.


Há pessoas que deveriam ser incapacitadas de procriar. É assustador pensar que possam vir a existir outros iguais a elas, ainda mais quando se percebe que são justamente estas as que procriam indiscriminadamente.


O som da língua inglesa falada pelos americanos se assemelha ao de um cão engasgado. A diferença é que, no caso dos cães, se quer exprimir alguma coisa.


Algumas doces senhoras, de tantas cirurgias, acabam por ter as faces plastificadas. Afinal, é esse mesmo o objetivo, não é? Cirurgia... plástica?


As máximas costumam ocupar espaço mínimo. Ao contrário de “Pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico”, uma palavra imensa, ridícula e sem nenhuma serventia que costuma me deixar acometido de hipopotomonstrosesquipedaliofobia.


Nunca li “A Arte de Insultar” de Schopenhauer mas, como se nota, este livro não parece ter me feito nenhuma falta.

Ginecorrevolta



Picasso - Mulheres Correndo na Praia (1932)

Estive pensando e cheguei à conclusão de que praticamente todos os aborrecimentos, meus e das pessoas que conheço, têm o mesmo ponto de origem: uma mulher.

Não, não se trata da mesma mulher, tampouco isso é declaração de amor às avessas, à la Vinícius de Morais, que fique bem claro.

Todas as chateações que tive no último ano e meio de faculdade tiveram como origem três mulheres distintas, uma em cada semestre. Praticamente todas as pessoas que agiram de maneira desprezível comigo nos últimos cinco anos eram mulheres. Os homens que por ventura me aborreceram eram, na sua imensa maioria, homossexuais, portanto fico sem saber como classificá-los.

Sim, sei que pode estar soando bastante machista e preconceituoso mas acredite, é a mais pura verdade. Conversei com diversas pessoas de ambos os sexos sobre esse assunto, na esperança de que alguém conseguisse me trazer argumento — um único que fosse — desmontando minha teoria, mas todos concordaram de que uma mulher sempre estava por trás de seus aborrecimentos. Eu gostaria de não estar certo, talvez até mesmo não esteja, mas não consigo encontrar nada negando meu pensamento.

O que afinal estará acontecendo com as mulheres? O que lhes falta? Por que essa sandice descontrolada?

Terá sido assim desde sempre? A origem estaria em Eva?

Será que depois de tantos milênios de repressão as mulheres agora não sabem o que fazer com essa (relativa) liberdade recém conquistada e por isso resolveram jogar seus filhos através das janelas?

Todo aquele dourado nas vitrines será para disfarçar algum tipo de escuridão interiorizada?

Não sei... não consigo responder a nada disso, mas cheguei à conclusão de que as mulheres não estão tentando controlar o mundo — e, cá entre nós, jamais conseguiriam mesmo dessa maneira. Estão, isto sim, tentando nos enlouquecer. E estão conseguindo.

Pincel



As coisas não têm sentido,
porque único sentido que existe nas coisas
é o sentido que lhes atribuímos.

Assim sendo posso atribuir
qualquer sentido à qualquer coisa
que não fará diferença nenhuma.

Atribuo, por exemplo, o sentido
de candelabro a meus dedos.

E o céu é verde-claro nos dias de sol
e verde-musgo durante
as noites e dias de chuva.

E as armas são pirulitos
e as balas são borboletas
e o sangue é o caramelo da vida.

Sei que meus dedos continuam apagados
e que o céu ainda é dessa cor
que a gente pensa que é azul,
mas gosto de imaginá-los assim
porque o mundo é do jeito que eu vejo
ou do jeito que eu quero ver.

Sinal dos Tempos: 4 anos



Albrecht Dürer - Os 4 Cavaleiros do Apocalipse


Num mundo onde cada vez mais se percebe uma generalizada falta de leitmotiv, de ausência de caráter, a selvageria do individualismo desenfreado afetando todo o coletivo, inclusive as pessoas praticantes dessas atitudes, há quatro anos nascia o Sinal dos Tempos Blog. Com logo exibindo uma bomba atômica, escrito por um cara utilizando máscara química, o Blog nunca teve intenção de ser oásis em meio a esse deserto.

Portanto, antes de comemorar os cerca de 200 visitas e 2500 hits diários — isso num ambiente sem fadinhas ou borboletinhas esvoaçantes —, é importante que se mantenha vivo o propósito desse espaço.

Gostaria de ter associado o número de aniversários com as estações do ano, se estas ainda existissem, ou quiçá com os pontos cardeais, se a humanidade não tivesse perdido seu norte há muito tempo. Até os néscios percebem que o mundo está mudando e por muitas vezes é inevitável adotar certo tom apocalíptico: são quatro anos e eram quatro cavaleiros, sinalizando a conquista, o extermínio, a fome e a morte.

Nada disso chega a ser novidade depois da eliminação de 6 milhões de judeus, mas a questão é: tudo isso AINDA continua acontecendo — as coisas mudam e os cavaleiros da visão do apóstolo vão se adaptando aos novos tempos.

Cavalo Branco – A Conquista
Tibete
E, havendo o Cordeiro aberto um dos selos, olhei, e ouvi um dos quatro animais, que dizia como em voz de trovão: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo branco; e o que estava assentado sobre ele tinha um arco; e foi-lhe dada uma coroa, e saiu vitorioso, e para vencer.
Apocalipse: 6-1,2
Cavalo Vermelho – A Guerra
Iraque
E, havendo aberto o segundo selo, ouvi o segundo animal, dizendo: Vem, e vê. E saiu outro cavalo, vermelho; e ao que estava assentado sobre ele foi dado que tirasse a paz da terra, e que se matassem uns aos outros; e foi-lhe dada uma grande espada.
Apocalipse: 6-3,4
Cavalo Negro – A Fome
Sudão
E, havendo aberto o terceiro selo, ouvi dizer ao terceiro animal: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo preto e o que sobre ele estava assentado tinha uma balança na mão. E ouvi uma voz no meio dos quatro animais, que dizia: Uma medida de trigo por um dinheiro, e três medidas de cevada por um dinheiro; e não danifiques o azeite e o vinho.
Apocalipse: 6-5,6
Cavalo Amarelo – A Morte
China
E, havendo aberto o quarto selo, ouvi a voz do quarto animal, que dizia: Vem, e vê. E olhei, e eis um cavalo amarelo, e o que estava assentado sobre ele tinha por nome Morte; e o inferno o seguia; e foi-lhes dado poder para matar a quarta parte da terra, com espada, e com fome, e com peste, e com as feras da terra.
Apocalipse: 6-7,8

Isso são apenas pequenas amostras. Escolhidas a dedo, é claro. Porém, não seria difícil reduzir esse universo unicamente a um continente, qualquer que fosse. Ou reduzir ao nosso país, nossa cidade, nosso bairro. Talvez não fosse necessário muito esforço para encontrar esses quatro sinais unicamente dentro do próprio prédio onde se vive.

Faz quatro anos e eu gostaria de comemorar, mas bem na esquina da minha casa uma dezena de pessoas passa as noites ao relento.

Dedão


Somos uma coisa, passamos ser outra completamente diferente e o que as pessoas pensam que somos é ainda uma terceira coisa, que não tem nada a ver com a história. No meio disso tudo, onde fica o que somos de verdade?

Nessa busca, acabei por descobrir que minha essência está personificada no dedão do meu pé: sempre com uma unha encravada, algo por dentro que incomoda e lateja e tenta rasgar seu caminho para fora.

Por isso a arte...

Quando se escrafunha ali, digo, aqui, sempre dói muito e fica a sensação de que ficou alguma coisa escondida lá dentro, mas que a gente não consegue ver direito...

Acho que sou meu dedão do pé porque nos melhores dias inflamo.

Tags, Metatags e Indexes de Sentimentos




Nós, bloggers, temos mais ou menos alguma intimidade com tags, essas palavras-chave que servem para identificar o conteúdo de determinado post — e por conseqüência categorizá-lo, colocando cada coisa em sua devida caixinha.

Acho interessante analisar como vamos atribuindo tags ao longo da vida, não somente para aquilo que escrevemos, mas também para tudo o que vivemos — utilizamos tags para separar "amigos" de "não-amigos", "chato" de "interessante", etc..

Dessa forma, também acabamos por indexar determinadas sensações e sentimentos, inclusive aqueles indizíveis, não exprimíveis com qualquer palavra em idioma humano.

Como, a citar alguns exemplos, se conseguiria nomear a sensação expressa pelo poema O Elefante do Drummond? A do 4º Motivo da Rosa de Cecília? As do Auto-Retrato, A Rua dos Cataventos, Poeminho do Contra de Quintana?

Há algumas semanas senti falta desse poema do Lau: como a maioria de vocês, tenho em mim uma sensação, de certa forma indefinida e intangível, indexada a ele.

Esse poema é a minha tag para algo que tem um quê de tranquilidade do cansaço da luta. Não aquele cansaço covarde, fraco, mas o sentimento de quem, finalmente, percebe que toda a luta é vã e é tolo tentar reter o curso de um rio com as próprias mãos — afinal, eles foram feitos unicamente para fluir.

De vez em quando eu preciso dele. É o meu índex para a sensação de quem vive à margem dessa luta insensata observando borboletas ou buscando desenhos nas nuvens, enquanto os outros, os "simples mortais" — essa é minha tag para pessoas que não tem nenhuma sensação indexada a esse poema — morrem afogados, uns agarrados nos pescoços dos outros.

Pois se me perguntassem nesse dia o que havia comigo, certamente teria respondido:

— É que hoje estou me sentindo "aos predadores da utopia"...

Morda-me!





Luz Como Expressão







Este trabalho não procura analisar como o volume dos objetos é construído através das inter-relações existentes entre luz e sombra, mas sim conseguir alcançar a própria essência da luz — a luz-em-si —, sem qualquer outro elemento constituindo a imagem além dela mesma.

Sabendo-se que para alcançar a essência de qualquer coisa é necessário abandonar tudo o que é acessório à sua existência — chegando enfim à dita coisa-em-si, onde ela, abstratamente, não é mais nada além de si mesma —, se percebeu que a sombra de uma mão, por exemplo, traria consigo uma série de significados, cada um deles nos distanciando cada vez mais da essência da luz a qual se buscava.

Dessa forma, optou-se pelo abstracionismo — não havendo conexão direta com a realidade, libertou-se também do compromisso com qualquer tipo de signo além da própria luz, possibilitando que se alcançasse tanto maior liberdade criativa quanto interpretativa.

É importante lembrar que abstrato não significa sem sentido, mas sim não-figurativo, que opera unicamente com idéias e com sua associações, não ligadas diretamente com a realidade sensível1. Por outro lado, não sendo “nada”, pode ser qualquer coisa e qualquer coisa que seja, mesmo assim ainda será feita unicamente de luz.

A construção das imagens se deu, na verdade, de maneira bastante simples: câmera postada no tripé, luminárias projetando sombras ou reflexos de objetos sobre uma folha de papel em branco — a qual, estando na penumbra, forma um canvas feito unicamente de sombra, a ser preenchido das formas que a imaginação permitir.

A intenção — que a princípio poderá não ser imediatamente alcançada pelo espectador — é tratar a luz como conhecimento, a sombra como ignorância, os obstáculos que se anteparam entre a(s) fonte(s) de luz e o canvas como percalços enfrentados na busca pelo conhecimento e os reflexos representando o ato em si de pensar, por vezes disforme e sempre rodeado pela escuridão.

Assim sendo, a série foi dividida em dois segmentos:


Projeções

Se projeção, em psicanálise, significa a transferência de culpa, mecanismo compensador que consiste em atribuir a outros os próprios sentimentos, livrando-se o indivíduo de responsabilidades e de conflitos entre o desejo e o dever2, por conseguinte, projetar a luz significará transferir a luz.

Diante disso, problematiza-se: é possível transmitir o conhecimento sem qualquer tipo de interferência entre emissor e receptor?

Sabemos que não: nesse segmento de cinco imagens, a luz é projetada diretamente sobre o canvas, sofrendo em seu caminho interrupções mais ou menos abruptas — obstáculos construídos pelo próprio ser com objetos (conceitos), os quais acabam por produzir sombras — entre a fonte e seu destino final que será, obviamente, o próprio homem (o qual, não por acaso, é representado pela escuridão completa).


Reflexões

Nas cinco imagens finais, a luz é refletida, possibilitando a leitura de que toda reflexão é a projeção distorcida da coisa sobre a qual se reflete, uma vez que refletir, por extensão de sentido, é interpretar, ou seja, adivinhar a significação de por indução, dar certo sentido a, entender, julgar3.

Quando refletida, a luz é desviada, afastada do seu caminho original. Por isso, nessa seqüência, foram utilizados objetos de cozinha, como facas, fatiador de pizza, escumadeira, etc., ou seja, tudo aquilo que, se por um lado é utilizado para que se possa ingerir algo, por outro, ao cumprir sua utilidade, acaba justamente por cortar, dividir, afastar uma parte do todo.




Mas talvez não devêssemos pensar4 tanto sobre o sentido disso tudo, adotando um pensamento mais à maneira de Alberto Caeiro, o qual diz que toda a sabedoria a respeito das cousas nunca foi cousa em que pudesse pegar como nas cousas; se a ciência quer ser verdadeira, que ciência mais verdadeira que a das cousas sem ciência? e que o único sentido íntimo das cousas é elas não terem sentido íntimo nenhum5.

Parece ser contraditório construir toda uma lógica sobre o sentido dessa interpretação particular da luz para depois destruí-lo. É sabido que os reflexos (ou reflexões) e as projeções têm em si a sua beleza.

Porém, sendo toda arte uma interpretação — e, por conseguinte, uma distorção, algo que sofreu uma interferência (o próprio meio) entre sua concepção e sua execução —, talvez seja inútil procurar nela qualquer sentido fiel, talvez devêssemos por isso mesmo apenas contempla-la, admirando-a ou não, sensibilizando-se por ela ou não, sem emitir qualquer juízo além desses.

Afinal, se estamos falando da Luz como Expressão, a interpretação da expressão da luz, assim como todo sentido que uma obra de arte possa ter, como se nota, serão lá outras coisas, por vezes distantes da própria luz e da própria obra, e seria interessante se elas pudessem se sustentar, pretensiosamente, apenas em si mesmas.



1 HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2002.
2 BUENO, Francisco da Silveira. Dicionário Escolar da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: FAE, 1986.
3 HOUAISS, Antônio. Dicionário Eletrônico Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Ed. Objetiva, 2002.
4 distorcer
5 CAEIRO, Alberto. Poemas Completos. Rio de Janeiro: Ed. Nova Fronteira, 2006.

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