Categoria: Reflexões

Dúvidas Existenciais




Agora fiquei intrigado: se sei coisas que não aprendi nessa vida, que mais eu saberia sem saber que sei?

Retorno às dúvidas existenciais da adolescência?



Dúvida Existencial
(1990)


Quem sou

      E o que sou?

Que importa,

      Posto que sou

O que não sei que sou?!

      E se eu for

Algo que não quiser ser...

      Pra que saber?


In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, 2003

Conhecimento Empírico



Mão (Auto-Retrato)
Fundo: A Cor do Som de Uma Onda - Acr.s/ vidro - Olegario Schmitt (2003)



Interessante como as pessoas podem trazer em si o conhecimento inato de algumas coisas. Fiquei meditando sobre isso hoje, depois de ter lido um trecho do Livro III de "O Mundo Como Vontade e Como Representação", de Arthur Schopenhauer, onde ele discorre sobre a coisa em si de Kant e a idéia de Platão. Como posso ter resumido as idéias básicas do texto de Schopenhauer — o qual eu ainda não havia lido — sobre Kant e Platão, autores que ainda não li?

Há duas linhas de pensamento possíveis a partir daí: pela primeira, espiritualista, eu já conteria esse conhecimento desde antes de nascer; pela segunda, mais cética, certas coisas são evidentes e poderiam ser percebidas por qualquer pessoa com sensibilidade mais elaborada. Como sou espiritualista e, principalmente, não me considero capaz de pensar por mim mesmo à altura de Kant, Platão, Jaspers ou meu amado Schopenhauer, fico com a primeira opção.

Me senti como que transcrevendo suas idéias, adaptadas à minha realidade — a da poesia — com um ponto de vista mais genérico e básico sobre a questão.

Comentando sobre isso com um amigo, ele disse que Karl Jaspers já havia discorrido sobre essas idéias de maneira mais aprofundada, colocando os seres humanos em níveis diferentes e não se referindo à humanidade ou ao homem de forma genérica, como por exemplo faz Platão.

Segundo o que meu amigo falou sobre Jaspers, existiria em cada ser humano certa propensão interior a alguma coisa. Portanto, a pessoa perceberia a poesia no barulho do riacho se já contivesse em si essa propensão a perceber poesia no barulho do riacho. O que não contradiz o que eu disse, com outras palavras, no último parágrafo do artigo "A Poesia Não é Natural".

Também consegui captar no texto de Schopenhauer algo da linha da Psicologia de gestalt, no que se refere ao fenômeno. Segundo o pouco que sei sobre gestalt — e que minha amiga PhD em Psicologia Gestaltiana, leitora de carteirinha desse blog, poderá me corrigir se eu estiver errado —, somos aquilo que manifestamos.

Seguem abaixo trechos do texto de Schopen (é assim que o chamo, intimamente):

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toda a experiência é apenas conhecimento do fenômeno, não da coisa em si: por isto suas leis não podem ser aplicadas à coisa em si.
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Isto é válido inclusive para nosso próprio eu, que nós conhecemos unicamente como fenômeno, e não pelo que possa ser em si.
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Por seu lado, Platão afirma: "As coisas deste mundo, percebidas por nossos sentidos, não possuem ser verdadeiro: elas sempre vêm a ser, mas nunca são: possuem apenas um ser relativo, são em conjunto apenas em e mediante sua relação recíproca": assim é possível denominar todo seu ser-aí um não-ser.
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Em conseqüência também não são objetos de um conhecimento propriamente dito (epistéme), pois este é possível quanto ao que é em e para si e de um modo sempre idêntico: elas porém são apenas o objeto de uma suposição sugerida pela sensação.
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existente (óntôs ón) porque sempre é, mas nunca vem a ser, nem deixa de ser, são os modelos de tais imagens: as idéias eternas, as formas originais de todas as coisas.
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Assim, apenas delas podemos ter um conhecimento propriamente dito, uma vez que pode ser objeto deste unicamente o que existe sempre e sob qualquer consideração (portanto em si), e não o que existe, mas também não existe, conforme seja enfocado". Esta é a doutrina de Platão.
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Esteja frente a nós um animal em sua vitalidade plena. Platão dirá: "Este animal não tem uma existência verdadeira, mas somente uma aparente, um devir constante, um ser-aí relativo, que pode ser chamado tanto não-ser quanto um ser. Verdadeiramente existente é apenas a idéia que se reproduz naquele animal, ou o animal em si mesmo (autô tô thérion), de tudo independente, mas existindo em e para si (kath ?eautò, aeì hosautôs)...
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Kant diria por exemplo: "Este animal é um fenômeno no tempo, no espaço e na causalidade, que todos são as condições a priori da possibilidade da experiência que se encontram em nossa capacidade cognitiva, e não determinações da coisa em si.

Se você teve paciência de ler esses trechos de texto que, embora interessantíssimos, são profundamente complicados, saiba que isso tudo foi apenas para contra-argumentar meu amigo, que discordou de algumas coisas que eu disse em "A Poesia Não é Natural".

O fato intrigante disso tudo é que dia seguinte a esse artigo, encontrei por "acaso" o texto de Schopenhauer, vindo reafirmar meu conhecimento empírico sobre o fato da poesia não estar no som do riacho, mas sim dentro de quem o ouve. Como pude — eis aqui o mistério — ter discorrido sobre o assunto antes de ter o devido conhecimento científico?

Como para algumas pessoas é mais fácil acreditar na sorte do que na vida após a morte e, sobretudo, na vida antes da vida...

A Poesia Não É Natural



Lugar Mágico - São Pedro do Sul/RS



Os poetas tem por hábito olhar um riacho buliçoso, por exemplo, e pensar "ó, que poético o som da água bolinando as pedras"... mas, convenhamos, o som da água sobre as pedras, em si, não contém poesia alguma!

Não há poesia nas coisas ou na natureza, pois as coisas simplesmente existem, de forma abstrata. A própria essência das coisas é neutra: o riacho simplesmente corre por força da gravidade, faz barulho nas pedras por força do atrito físico, o que, por natureza, não é belo ou poético — as coisas SIMPLESMENTE SÃO, sem definições.

Por termos esse velho hábito de sempre procurar as coisas fora de nós mesmos é que pensamos que a poesia está nas coisas, na natureza, ou que D'us está lá fora... mas isso não passa de projeção.

projeção, s. f. Ato ou efeito de projetar; (Psiq.) transferência de culpa: mecanismo psicológico compensador que consiste em atribuir a outros os próprios sentimentos, livrando-se o indivíduo de responsabilidades e de conflitos entre o desejo e o dever.

Portanto, não há tonteira maior do que dizer que "há poesia no riacho" ou que "não há poesia no concreto" (não confundir aqui "poesia no concreto" com "poesia concreta"): o correto seria dizer "VEJO poesia no riacho" ou "NÃO VEJO poesia no concreto".

A poesia não está na natureza: está no homem, ou seja, ela pode estar em todos os lugares ou em lugar nenhum, dependendo não do que se vê, mas dos olhos — e da sensibilidade — para vê-la.

Uma Esmola, Pelo Amor de Deus




Nessa selvageria urbana em que vivemos, você já deu esmola?

Há poucos dias, impressionado pelo número de mendigos que encontrei na rua quando voltava para casa, fiquei me perguntando: é esmola mesmo que eles precisam?

Precisam de emprego e de uma vida digna!, diria a maioria demagógica, sem levar em conta que muitos deles não trocariam a mendicância por um emprego, um lar, uma família.

Você notou que nenhum deles usa sapatos? Já vi um de meias brancas, as solas perfeitamente limpas, mas onde estavam os sapatos? Já vi outro com o braço engessado e no outro dia vi-o novamente, só o gesso dessa vez estava no braço trocado. E o que pensar daqueles que ostentam seus filhos, na intenção de conseguir a condolência do transeunte?

O que mais eles precisam é de esmola ou valores morais? O desemprego, a miséria, a sub-vida, são motivos para que se corrompa a mínima moralidade e, além do respeito próprio, o respeito pela vida dos próprios filhos? Há alguma coisa no mundo que justifique o desrespeito pela vida de uma criança?

Afinal, qual postura devemos tomar quando estamos andando na rua e vem aquela mão pedinte invadindo o seu campo de visão, o seu caminho, a sua consciência?

Quando você ouve "uma esmola, pelo amor de Deus" você não se sente intimidado, como se, passando adiante incólume, você estivesse fazendo pouco caso do Amor de D'us? Quanto vale, para você, o Amor de D'us? E a vida do mendigo, quanto vale?

Se não houvessem esmolas, não haveriam mendigos. Eles estariam roubando, assaltando, morrendo, ou até mesmo trabalhando, quem sabe, mas pedindo esmolas certamente não estariam. Eles pedem esmola, portanto, sobretudo porque a esmola é dada, isso é um fato inegável por ser lógico.

Penso que dar uma esmola não passa de subterfúgio cruel para aliviar a própria culpa diante da situação. A verdadeira intenção por trás do gesto nunca é a de ajudar o mendigo, embora superficialmente até se pense assim. Dando-lhe uma esmola, você só contribuirá para que ele continue naquela condição de pedinte. Em vez de ajudá-lo a sair dali, você incentiva para que ele fique.

Afinal, não é mais fácil dar uma esmola e esquecer, pensando orgulhosamente que cumpriu com sua parte, em vez de levá-lo para sua casa, dar-lhe comida, banho, roupas limpas? Não é mais cômodo fazer isso em vez de envolver-se ativamente com instituições de caridade? Isso daria demasiado trabalho, não é? Melhor dar uma moeda e seguir o seu caminho, com sua consciência tranqüila, pensando que conquistou o Amor de D'us...

Portanto, da próxima vez em que alguém lhe pedir "uma esmola, pelo amor de Deus", medite sobre onde estará o Amor de D'us nessas horas. Medite se quem está precisando do Amor de D'us é o mendigo ou é você. Pense também se o Amor de D'us e a sua consciência tranqüila valem assim tão pouco que podem ser comprados com uma simples moeda... e tome uma atitude.

Mafalda




Ela é uma menininha, mas já tem 40 anos (completados no último 29/09).

Criação de Joaquín Lavado, o Quino, é desprezada por seu próprio "pai" desde a mais tenra infância, sendo por ele relegada a segundo plano e considerada "morta" em 1973. Quino ainda não consegue entender o seu sucesso. Em entrevista ao jornal Clarín, declarou: "Se ela ainda é lida como antes, para que continuar desenhando-a? Uma vez me perguntaram se eu não gostaria de ressuscitá-la. Ressuscitar significa que algo está morto".

Apesar do desprezo de seu criador, a menininha continua tão viva quanto sempre na admiração de seus fãs: como não apaixonar-se por essa baixinha de cabeça redonda, revolucionária contestadora que odeia sopa e ao mesmo tempo é profunda questionadora do mundo, seus contrastes e injustiças?

Acompanhada de seus inseparáveis amigos — cada um com características mui peculiares representando, de certa forma, alguns tipos que formam nossa sociedade — Mafalda passeia por temas nada infantis como filosofia e política.

Manolo, menino de baixo nível sócio-cultural e de burrice folclórica, trabalha desde a tenra infância no armazém de seu pai. Dotado de um faro comercial "apurado" aliado a um capitalismo ferrenho — seu sonho é montar sua própria rede de armazéns, a Manolo's — é uma "sutil" crítica aos workaholics capitalistas, mais interessados em ganhar dinheiro do que adquirir alguma cultura e apreciar as belezas da vida.

Já Suzanita, de classe social mais elevada, é extremamente fofoqueira, egoísta e maldosa, sem papas na língua no que se refere a magoar seus amigos e pisotear os menos afortunados. Seu projeto de vida consiste em casar na igreja, com véu e grinalda, ter muitos filhos e ser dona-de-casa. Quem nunca conheceu alguém assim?

Por outro lado, temos o Miguelito, de pureza, doçura e ingenuidade únicas. De auto-estima extremada e dado a associações e conclusões nada convencionais sobre as coisas, esse gorduchinho de cabelos de alface é um encanto!



Amiga mais recente, Liberdade é uma criança diminuta, filha de pais recém-formados que lutam arduamente para sobreviver e pagar as prestações do apartamento: sua mãe é tradutora de francês e não se sabe ao certo em que seu pai trabalha. Segundo ela, ele sempre diz "não sei o que estou fazendo lá, naquele empreguinho de coisa nenhuma". Filha clássica de estudantes político-revolucionários, ela gosta de gente simples, indo ao extremo no que se refere a isso. Nos diálogos entre Liberdade e Suzanita percebe-se, de maneira mais ou menos sutil, o conflito entre a classe desfavorecida, que luta para sobreviver, e a classe mais rica.

Filipe é o mais problemático de todos. Extremamente neurótico, vive em conflitos entre o dever e o querer. Sua vida é um dilema constante e seu maior drama, além de ser apaixonado por uma menina mais velha para quem não tem coragem para se declarar, é conseguir decidir o que será quando crescer.

Por último, Guile, o irmãozinho mais novo de Mafalda apaixonado por Brigitte Bardot, é uma figura. Seguindo de perto os passos revolucionários da irmã, já formula suas próprias dúvidas filosóficas, à sua maneira.

Quino foi bastante feliz na criação desses personagens, assim como na escolha das suas características psicológicas e sociais. Rir de uma tirinha da Mafalda é como rir de nós mesmos e as críticas que essa menina fazia nas décadas de 60 e 70 ainda são extremamente atuais.

Normalidade



Parem o Mundo Que Eu Quero Descer (Auto-Retrato)



O mundo anda um não sei quê pra não sei como.

A coisa está assim já faz tempo: matam-nos aos poucos, um punhado de cada vez.

Depois das guerras — com seus milhões de mortos, a eliminação de mais de 6 milhões de judeus, milhares de japoneses e vietnamitas, além dos africanos que, desde sempre, morrem de fome todos os dias — a gente pensou que o inferno havia estabilizado dentro dessa "normalidade". Estávamos acostumados a pensar que o mundo era assim mesmo e qualquer eliminação em massa já era tão déjà vu que não causava mais frisson.

Então explodiram as Torres Gêmeas.

Ainda abalados pelo choque da tragédia, pensamos que agora sim já haviam mortes suficientes e poderíamos voltar a viver na "paz" de antes.

Mas logo invadiram o Iraque, centenas foram mortas num teatro da Rússia, explodiram um trem em Madri e, sim, ficamos chocados.

Quando degolaram Nick Burg, com imagens transmitidas pela TV, nos questionamos profundamente sobre o valor da vida humana. Mas como as degolas continuam até hoje, agora só se diz "degolaram mais um" — não é mais novidade.

Diariamente no Iraque são mortas tantas pessoas quanto nesse atentado da Espanha, mas parece que quando os mortos são sempre os mesmos, isso só serve para estatística e tudo fica dentro dessa maldita "normalidade". A realidade é que já estamos tão acostumados com iraquianos sendo mortos que quando vemos no noticiário que morreram mais 50 num atentado, isso nos choca muito menos do que se dissessem que morreram 50 num atentado em Madri. É como se os iraquianos pudessem ser livremente mortos, que nem ligamos, mas os americanos e os espanhóis não.

Eu fico me perguntando: nosso futuro é assim, habituado a tantas mortes? Até que ponto esse nosso conceito coletivo de "normalidade" pode ser esticado?

E por que é, afinal, que os "donos" do Mundo não apertam aquele maldito botão e acabam com todos nós de uma vez? Será que eles são assim tão sádicos que preferem ir matando-nos aos poucos?

Todos eliminados, acabariam-se os problemas do mundo! Num único golpe racistas e negros, puritanos e homossexuais, nazistas e judeus, católicos e muçulmanos — sobretudo os culpados pelo crime de serem direfentes da maioria.

Será mesmo preciso que sejamos mortos assim, pouco a pouco, um punhado de cada vez, dentro dessa maldita "normalidade"?

Independência é Morte!



Monumento do Ipiranga



Hoje é 7 de setembro, data em que comemoramos nossa independência, ou melhor, data em que comemoramos o feriado e lembramos (?) a independência em relação à corte portuguesa, em 1822.

Nos maiores jornais e portais de Internet do país, eram estas as reportagens de capa:

"Quer namorar no FERIADO?" (Terra)

"Eleições nos EUA / Financial Times" (UOL)

"Lula usa o crescimento para incitar o patriotismo" (Folha de São Paulo)

"Enfim noivos (foto de capa: Ronaldo e Cicarelli) / Produção de carros bate recordes e cria 6.800 empregos" (Diário de São Paulo)

"Corte de candidatos com ficha criminal divide ministros do TSE" (O Globo)

"7 de setembro tórrido" (Zero Hora)

"Produtividade da indústria cresce 7,2% no 1º semestre" (O Estado de S. Paulo)

Pouca ou nenhuma alusão a essa data tão especial pelos meios de comunicação em massa faz-nos perceber que talvez não haja motivos para comemorar: atualmente a Independência do Brasil não passa de um monumento cheio de cocôs de pombos, e nenhuma imagem poderia ser mais exata para representar a realidade da nossa dependência dos EUA e do FMI.

Às margens do Ipiranga: esgoto a céu aberto

"Independência ou morte", em épocas de globalização, passou a significar "independência é morte".

Que o diga Cuba.

Há mais de século nossos Dom Pedros extintos, "às margens do Ipiranga" adquiriu um tom mais sinistro, significando, literalmente, "às margens do esgoto correndo a céu aberto" e parece que do refrão do nosso Hino à Independência, ficou apenas o "Brasil servil".


Já os grifos e leões "guarnecendo" nosso monumento comemorativo à independência, em detrimento a boitatás com olhos de fogo ou curupiras montados em porcos-do-mato, dão-nos idéia bastante realística do que nossa independência significa: nada mais do que ilusão.

Monumento do Ipiranga: grifos e leões


Sem dar-se conta, o artista/arquiteto de tal monumento, ao utilizar tais figuras, refletiu ali, além do seu próprio, o inconsciente de toda uma nação, expondo a todos nossa dependência internacional até mesmo no que tange às figuras mitológicas.

Carpe Diem



T(E)=Arte



Carpe diem é expressão de origem latina significando "aproveite o dia".

Desde Horácio, o tema tem sido recorrente ao longo dos séculos. Apareceu no renascentismo francês, no barroco inglês e no arcadismo brasileiro, citando alguns exemplos.

Carpe diem também está presente na cultura oriental e, por incrível que pareça, até na poesia asteca, pré-colombiana¹. Embora os astecas não tivessem conhecimento de Horácio e muito menos de carpe diem ou de tempus fugit, já sabiam que tempo é arte (Zeit ist Kunst), conhecendo profundamente a fórmula da Lei do Tempo (T(E)=Arte)², mas como esse Blog não é esotérico, tampouco trata de física, não entrará em detalhes sobre a matéria.

De Horácio a Júdice muita coisa mudou na literatura e no mundo: permanente ainda é o desejo de aproveitar a vida ao máximo.

¹ APUD Josiane Toledo Ferreira Silva/Leila Moraes de Souza In: UM OLHAR SOBRE A LITERATURA DA AMÉRICA LATINA

² Jose Argüelles In: O Fator Maia
para saber mais sobre a Lei do Tempo, clique aqui



Ode XI
Quintus Horatius Flaccus (65 aC - 8 aC)


Tu ne quaesieris — scire nefas — quem mihi, quem tibi
finem di dederint, Leuconoë, nec Babylonios
temptaris numeros. ut melius, quicquid erit, pati!
seu plures hiemes, seu tribuit Iuppiter ultimam,
quae nunc oppositis debilitat pumicibus mare
Tyrhenum. Sapias, vina liques, et spatio brevi
spem longam reseces. dum loquimur, fugerit invida
aetas: carpe diem, quam minimum credula postero.

Não procures saber — os deuses não permitem — o fim que será dado a mim ou a ti, Leocone, nem busques saber a sorte dos números nos templos babilônicos. O quanto é melhor dedicar-se aos afazeres domésticos. Sejam, ainda, numerosos os anos que nos restam, ou seja este o último que devemos dar tributo a Júpiter, sem nunca mais ver as fracas águas baterem nas duras rochas do Mar Tirreno. Sê sábia, filtra teus vinhos, e o tempo passará célere. De inveja, o tempo voa enquanto falamos: colhe o dia de hoje, não te importes com o amanhã.

Trad.: Olegario Schmitt




Sonnet Pour Helène
Pierre de Ronsard (1524-1585)


Quand vous serez bien vieille, au soir, à la chandelle
Assise auprès du feu, dévidant et filant,
Direz, chantant mes vers et vous émerveillant:
"Ronsard me célebrait du temps que j?étais belle".

Lors vous n?aurez servante oyant telle nouvelle
Déjà sous le labeur à demi sommeillant
Qui, au bruit de Ronsard, ne s?aille réveillant,
Bénissant votre nom de louange immortelle.

Je serai sous la terre et, fantôme sans os,
Par les ombres myrteux, je prendai mon repos;
Vous serez au foyer une vieille accroupie,

Regrettant mon amour et votre fier dédain.
Vivez, si m'en croyez, n?attendez à demain:
Cueillez dès aujourd?hui les roses de la vie.




Carpe Diem William Shakespeare (1564 - 1616)


O mistress mine, where are you roaming?
O stay and hear! your true-love's coming
That can sing both high and low;
Trip no further, pretty sweeting,
Journey's end in lovers' meeting —
Every wise man's son doth know.

What is love? 'tis not hereafter;
Present mirth hath present laughter;
What's to come is still unsure:
In delay there lies no plenty, —
Then come kiss me, Sweet and twenty,
Youth's a stuff will not endure.




To the Virgins, to Make Much of Time Robert Herrick (1591 - 1674)


GATHER ye rosebuds while ye may,
Old time is still a-flying;
And the same flower that smiles today
Tomorrow will be dying.

The glorious lamp of heaven the sun,
The higher he's a-getting,
The sooner will his race be run,
And nearer he's to setting.

That age is best which is the first,
When youth and blood are warmer;
But being spent, the worse, and worst
Times still succeed the former.

Then be not coy, but use your time,
And, while ye may, go marry;
For, having lost but once your prime,
You may forever tarry.




Carpe Diem Nuno Júdice (1949)


Confias no incerto amanhã? Entregas
às sombras do acaso a resposta inadiável?
Aceitas que a diurna inquietação da alma
substitua o riso claro de um corpo
que te exige o prazer? Fogem-te, por entre os dedos,
os instantes; e nos lábios dessa que amaste
morre um fim de frase, deixando a dúvida
definitiva. Um nome inútil persegue a tua memória,
para que o roubes ao sono dos sentidos. Porém,
nenhum rosto lhe dá a forma que desejarias;
e abraças a própria figura do vazio. Então,
por que esperas para sair ao encontro da vida,
do sopro quente da primavera, das margens
visíveis do humano? "Não", dizes, "nada me obrigará
à renúncia de mim próprio — nem esse olhar
que me oforece o leito profundo da sua imagem!"
Louco, ignora que o destino, por vezes,
se confunde com a brevidade do verso.

Oompa Loompa Doompadee Doo



Oompa Loompas - A Fantástica Fábrica de Chocolates



Wonkamobile/Wonkavision/Oompa Loompa
Leslie Bricusse & Anthony Newley

Oompa Loompa doompadee doo
I've got another puzzle for you
Oompa Loompa doompadah dee
If you are wise you'll listen to me

What do you get from a glut of TV?
A pain in the neck and an IQ of three
Why don't you try simply reading a book?
Or could you just not bear to look?

You'll get no
You'll get no
You'll get no
You'll get no
You'll get no commercials!

Oompa Loompa Doompadee Dah
If you're not greedy you will go far
You will live in happiness too
Like the Oompa
Oompa Loompa doompadee doo

Umpa Lumpa dumpadi du
Eu tenho outra charada para você
Umpa Lumpa dumpada di
Se você for esperto me ouvirá

O que você ganha entupindo-se de TV?
Uma dor no pescoço e um QI de três
Por que você não tenta simplesmente ler um livro?
Ou você não suporta nem olhar?

Você não terá
Você não terá
Você não terá
Você não terá
Você não terá comerciais!

Umpa Lumpa Dumpadi Dá
Se você não for ganancioso irá longe
E você viverá em felicidade também
Assim como o Umpa
Umpa Lumpa dumpadi du



A Ignorânça É Uma Bênça?



Reflexão (Auto-Retrato)



Há alguns dias, enquanto andava na rua, percebi um grupo de pessoas rindo feito uns diabos. É incrível como a intelectualidade reflete-se na expressão das faces e, dessa forma, pude perceber claramente o nível cultural desse grupo. Fiquei abismado ao ouvir que eles riam-se das maiores bobagens, das maiores idiotices imagináveis, de coisas sem sentido.

Lembrei-me de imediato do conto de Voltaire, História de Um Brâmane, lido ainda na minha adolescência, onde ele, percebendo que as pessoas menos cultas pareciam ser mais felizes, questiona o valor do conhecimento e da cultura.

Lembrei-me também das divagações que fiz em razão dessa leitura. Procurei meus manuscritos, ei-las aqui:

O meu vizinho leu menos livros do que eu
e parece ser bem mais feliz.

Devido à sua ignorância ele não pode pensar
como é horrível não ter ido a Paris esse ano
porque ele nem sabe que Paris existe.

Eu sei que Paris existe.

Eu não fui a Paris este ano.

Analisar a felicidade tola daqueles transeuntes fez com que eu me questionasse, como Voltaire, sobre qual seria o valor da cultura. Estou há meses mastigando a Divina Comédia de Dante e agora me pergunto: para quê? Ler a Divina Comédia me fará mais feliz? Por que as leituras de Nietzsche, Hobbes, Schopenhauer, Hegel, Kant?

Assim falando, sei que comporto-me como filisteu, embora essas dúvidas tenham lá o seu fundo filosófico. Mas se lemos esse tipo de coisas para sermos mais cultos, pergunto-me, para que haveremos de ser mais cultos?

Depois que eu entender a estética Heidegger, isso fará com que eu veja de forma diferente a beleza de uma flor ou de um pôr-do-sol? Isso me tornará melhor ou pior, fará com que eu seja mais compreensivo, que ame mais ao próximo?

A estética de Heidegger fará com que eu analise de forma diferente uma obra de arte, isso é certo, mas quando você olha para uma tela de Mondrian, deveria importar o que aquilo significa, de onde veio?

Realmente importante não deveria ser o fato de você gostar ou não do que vê? Deveríamos gostar ou não de uma obra por seu impacto imediato, primário, e não pelo conceito estético que há por trás dela... Será mesmo preciso ler o manual de instruções para passarmos a gostar, ou não, do que vemos?

Quando você entra em discussão com uma pessoa dotada de um certo nível cultural, assim como você, de imediato forma-se um "duelo" de inteligências para ver quem domina mais sobre aquele determinado assunto, não é sempre assim? E, você sabendo mais, o que você ganha? Você sabendo menos, o que você perde? A auto-estima? A vaidade intelectual?

Sabemos que através da cultura ampliamos nossa visão de mundo, mas jamais foi dito que esse conhecimento é fator preponderante para a felicidade: não estudamos para sermos mais felizes, muito pelo contrário. O excesso de informações fará você enxergar as coisas com um leque muito maior de possibilidades, o que, automaticamente, lhe fará ser uma pessoa mais preocupada, mais pensativa.

Os tolos vêem os problemas de forma superficial, não percebendo todas as suas complicações e variantes, por isso eles são felizes de imediato. Você tendo mais informações do que um tolo, verá que as coisas não são bem assim, analisará os problemas de todos os ângulos à sua disposição, tecerá teorias, hipóteses, tratados de probabilidades...

E enquanto você investe seu tempo em pensar sobre os fatos, os tolos estão rindo à toa, felizes da vida.

— Não te envergonhas de ser infeliz, quando mora à tua porta um velho autômato que não pensa em nada e vive contente?
— Tens razão — respondeu-me ele — mil vezes disse comigo que seria feliz se fosse tão tolo como a minha vizinha, e, no entanto, não desejaria tal felicidade.
¹




¹ Voltaire In: História de Um Brâmane

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