Categoria: Reflexões

A Arte Celibatária


Independentemente de quantas elas sejam — o Manifesto das Sete Artes de Canudo1 já está démodé há algum tempo — e considerando-se seus respectivos processos criativos, talvez a fotografia possa ser considerada a arte mais celibatária de todas.

Obviamente toda forma de criação artística subentende a existência daquele momento de solidão onde o artista se isola completamente do mundo externo, entrando nessa espécie de estado de transe, de frenesi criativo.

O que parece diferenciar a fotografia das outras artes é que música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, cinema, etc., são manifestações cujo ato de criação se dá na parte de fora do artista. Enquanto o musicista está compondo, as notas musicais são manifestadas em forma de sons ou de partituras escritas, o escritor materializa as palavras, o coreógrafo necessita ensaiar seus passos de dança no espaço físico extracorpóreo, e assim por diante. Com a licença da expressão, no que se refere à forma de criação, estas tratam-se de exoartes.

O problema que existe nessa afirmação é que não se pode saber ao certo a partir de qual momento uma fotografia, como arte, poderá ser considerada pronta. É após o clique? Após a ampliação? Após a pós-produção?

Esclareça-se que essa linha de pensamento foi construída sob o ponto de vista de que o clique seja, strictu sensu, o ato final de criação. O que acontece antes se assemelha à preparação do modelo que posará para a escultura. O que acontece depois se assemelha ao verniz passado sobre a pintura.

A fotografia pode ser chamada de arte celibatária porque durante esse processo criativo (inspiração, enquadramento, manuseio do aparelho) apenas o artista-fotógrafo vê o que se passa através do view-finder da câmera: o produto só existirá de fato, só poderá ser visualizado por outrem, após o efetivo clique.

Dessa forma os fotógrafos, devido ao meio, são celibatários criativos, são os onanistas das artes.

Daí todo fotógrafo ser essencialmente um ególatra, daí a dificuldade de se fazer fotografia coletiva. Os Coletivos Fotográficos, da forma como são apresentados publicamente, com todo os seus discursos e filosofias, parecem ser um embuste mascarando a realidade.

Não há fotografia coletiva, o que há é distribuição de tarefas: você fica com a produção, você com a iluminação, você com o tratamento de imagens.

Mas no final é apenas um único dedo que aperta o botão. E antes desse botão ser apertado, não existe arte fotográfica.


1 CANUDO, Ricciotto. Manifeste des sept arts. Paris: Séguier, 1995.

O Torcedor de Time Nenhum



Sobretudo aqui no Brasil, sempre há essa exigência de que se torça para algum time de futebol. É por isso que quando conto qual é meu time do coração costumo receber reações variando desde “o que há de errado com ele?” até “de que planeta ele veio?”, com as mais diferentes gradações entre um e outro extremo.

Pois saibam todos que da mesma forma que há torcedores do Flamengo, do Corinthians e até do Palmeiras, eu sempre fui torcedor roxo de Time Nenhum. Time Nenhum ganha todos os campeonatos; Time Nenhum rouba meu tempo que poderia ser gasto com inúmeras outras coisas mais interessantes; Time Nenhum tem uma camiseta diferente todos os dias, ao contrário dos outros times, que usam quase sempre a mesma, de desenho sofrível; Time Nenhum não incita a violência das torcidas adversárias; Time Nenhum detesta conversas de futebol.

Aquele argumento de que “futebol é a alegria nacional” é uma grande estopada. O Campeonato Brasileiro sendo disputado todos os anos por 40 times diferentes, quem torce para qualquer um diferente de Time Nenhum tem 97,5% de chance de se tornar um perdedor. Torcer para outro time que não o meu é fazer uma escolha praticamente certa de ser triste no final do campeonato e de se tornar um perdedor em outro setor de sua vida além dos outros todos de sempre.

Portanto, deixem-me em paz com a escolha do time do meu coração: Time Nenhum me traz alegrias.

Fotografia digital não é fotografia


Elementar: foto-grafia, escrita da luz.

Aqueles que “batem” fotos utilizam muito a expressão fotografia analógica... As pessoas inventam cada coisa, não é?! Primeiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa necessidade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exatamente quer dizer “analógico”?

Analógico vem de analogia, ou seja, é algo que apresenta relação ou semelhança entre coisas ou fatos. Considerar uma fotografia como sendo analógica, portanto, é retroceder ao pensamento positivista disseminado no século XIX que considerava a fotografia como “cópia exata, reprodução fiel da realidade”. Ou seja, quem diz “fotografia analógica” está dizendo de maneira implícita que a fotografia é algo meramente científico, jamais sendo fruto de criação e/ou interpretação por parte do agente por trás da câmera.

Dessa forma, dizer “fotografia analógica” é o mesmo que chamar o fotógrafo de macaco, ou seja, de mero apertador de botões. Não que estes não existam, mas na parte que me toca, acredito (ou prefiro acreditar) que faço bastante proveito dos 3% de carga genética que me diferenciam de um chimpanzé. Portanto, se você diz “fotografia analógica” saiba que o macaco, na verdade, é você.

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Amo Que Me Odeiem



Não há coisa que intimamente mais me cause prazer no mundo do que saber ou perceber-me odiado.

Isso se dá porque aqueles que me amam possuem em relação a mim certa proporção de similaridade: amam-me somente porque até certo ponto sou similiar a elas mesmas e é provável que pessoa alguma ame a alguém que não seja si própria.

De minha parte, amo-as pelos mesmos motivos: amá-las é unicamente amar o tanto de mim que vejo nelas, já que ao restante desprezo.

Igualmente, saber-me amado por determinadas pessoas me seria um castigo tão insuportável que gosto quando elas me odeiam pois assim tenho certeza de que não somos iguais em nada.

Sobre "Identidade e Diferença"




Sobre “A produção social da identidade e da diferença” de Tomaz Tadeu da Silva

link para o texto

O autor discorre nesse ensaio como se dá o processo social de construção da identidade e da diferença. Isso que ele chama de “pedagogia da diferença”, é fundamental para a estruturação do seu pensamento uma vez que todo nosso processo cognitivo comumente é construído sobre a “pedagogia da igualdade” (ou, com outras palavras, da “pedagogia da identidade”).

Como a construção cultural de sentido conscientemente se dá por analogia e não por antinomia1, por isso se mostra imprescindível toda a parte inicial do ensaio, justamente para desconstruir esse vício lingüístico: citando Sausurre, Da Silva aponta o inconsciente desse processo: “a linguagem é, fundamentalmente, um sistema de diferenças”. Ao mostrar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apresenta o caminho contrário daquilo que consideramos a construção do conhecimento: ao dizermos os sinônimos estamos dizendo igualmente todos os antônimos. Isso obviamente faz todo o sentido, mas nunca pensamos nisso.

Todo o discurso sobre a construção dos signos é uma espécie de engenharia reversa da atribuição da identidade e da diferença e, afinal, é apenas compreendendo intrinsecamente a dinâmica de um determinado processo que se torna possível desconstruí-lo.

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À Procura de Um Coração


— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa... e se eu encomendar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encontro coração aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem...
— Nossa, na Lapa?! Que longe... na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mercado da Lapa tem. Se tiver coração, é lá.

— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior...
— Ô, Antônho, tem coração aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, coração só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade...
— ...
— Você sabe se tem outro açougue aqui perto?

Aos Extintores!



Série Instantâneos Conceituais ou Non-Sense Sobre o Destino de Uma Cabeça de Fósforo
Penúltimo Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Último Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Quando Um Fósforo Perde a Cabeça



Erra muito menos quem, com olhar sombrio, considera esse mundo como uma espécie de inferno e, portanto, só se preocupa em conseguir um recanto à prova de fogo.
Schopenhauer In: Aforismos Para a Sabedoria de Vida

De pecador metido em tal orifício ficava de fora dos pés à barriga da perna, ficando oculto o resto do corpo. Ardiam-lhes as plantas dos pés, acesas por inteiro, e nesse sofrer tanto se estorciam que teriam podido romper laços e cordas. Do calcanhar aos dedos corriam chamas, inflamadas como se flamejassem sobre corpo untado com gordura.
Dante In: A Divina Comédia, Canto XIX do Inferno

A língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniqüidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno.
Evangelho de Tiago, 3,6

Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.
Livro do Apocalipse, 21,8

Ele não está nas espirais de Dante, tampouco nos aguarda, apocalíptico, no Fim dos Tempos: o inferno é aqui e o diabo é o homem!

Aos extintores? Baldes d'água, mangueiras? Que se esqueça toda idéia de canecas ou mãos em concha: são insuficientes diante de toda hipocrisia, disfaçatez, falsidade, adulação, idolatria e dissimulação inerentes à vida "humana".

Para apagar essa fogueira das vaidades, apenas um novo dilúvio.

Confissões de Um Veterano


Sobre o “Ensaio teórico sobre as relações estabelecidos-outsiders”
de NORBERT, E. e SCOTSON, J. L. - Link

Durante toda a minha vida sempre tive imensa dificuldade de pertencer a algum grupo (ou tribo, como se diz contemporaneamente) específico — acabando por transitar entre diversos meios heterogêneos entre si sem me sentir realmente pertencendo a nenhum deles. Minha análise até então era de que a não-aceitação acontecia devido a diferenças identificativas — de gostos, ideologias ou métiers. Por exemplo, na adolescência nunca fui aceito no grupo que gostava de heavy-metal por gostar igualmente de música clássica e bossa-nova; estes, por sua vez, também não me aceitavam justamente pelo motivo inverso. Nunca fui muito bem aceito entre os artistas plásticos por ser também escritor, e entre os escritores por ser também fotógrafo, e entre os fotógrafos, embora em menor escala, pelos dois motivos anteriores.

A sociedade exige — e cobra isso de maneira nem sempre tácita — que se pertença1 por inteiro a esse ou àquele grupo: ou você é escritor, ou é fotógrafo, ou é artista plástico. E se gostar de Bellini então que não ouse ouvir AC/DC. Se gostar de coisas que os outros não gostam, os outros não gostarão de você — a aceitação se dá na medida em que não são expostas tais coisas que o fazem diferente dos demais. Quanto mais igual, maior a chance de pertencer.

No entanto essas simples diferenças de “gosto” não esclareciam o universo de situações que eu percebia sem, no entanto, compreendê-las completamente. Não esclarecem, por exemplo, meu desprezo pelos “bixos” da faculdade ou a minha dificuldade em quebrar as barreiras para ingressar em determinada tribo urbana e registrá-los fotograficamente.

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Hã?!




A Coisa em Si Que Há Em Mim


a coisa em si
não cabia em mim
de tantas dúvidas

— pior que pensar
é sentir, dizia
ressentida.

deveria ver?

deveria vir
a ser devir?

nem númeno
nem fenômeno:

a coisa em si
que há em mim
é maiomeno.

Citações



Proibido dar Alimentos aos Animais, Entrar no Lago, Pescar


Duas citações decorrentes dos estudos de hoje. É interessante perceber como a "sincronicidade" discorrida por Jung em A Sincronicidade (1951) se manifesta.



"[O homem contemporâneo] não consegue perceber que, apesar de toda a sua racionalização e toda a sua eficiência, continua possuído por 'forças' além do seu controle. Seus deuses e demônios absolutamente não desapareceram; têm apenas novos nomes. E conservam-no em contato íntimo com a inquietude, apreensões vagas, complicações psicológicas, uma insaciável necessidade de pílulas, álcool, fumo, alimento e, acima de tudo, com uma enorme coleção de neuroses."

JUNG, C.G. In O Homem e Seus Símbolos



"A nossa economia enormemente produtiva... requer que nós façamos do consumo o nosso modo de vida, que nós convertamos a compra e o uso de mercadorias em rituais... que nós busquemos a nossa satisfação espiritual ou do nosso ego no consumo... nós precisamos de coisas consumidas, destruídas, gastas, substituídas e descartadas numa taxa continuamente crescente."

LEBLOW, Victor apud PEREIRA, Mauricio Broinizi In Revista PUCVIVA n# 20 - Imperialismo e Crise Socioambiental

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