Categoria: Reflexões

Preconceitos e Julgamentos


Glaciar Perito Moreno/Lago Argentino - Argentina


Todo conceito é ou será um preconceito. Isso se dá a partir do momento em determinada pessoa pense diferente de você. O que acontece então é que o conceito DELA é que será o conceito, e o seu será o pré-conceito.

Taxar algo de preconceito é algo que não chega realmente a ser um argumento, mas sim um golpe baixo, tão baixo a ponto de fazer A Arte de Insultar de Schopenhauer um livro para crianças em fase pré-cognitiva.

Trata-se de uma argumentação vazia em si mesma: por ser preconceito, não tem sentido, mas não tem sentido UNICAMENTE por ser preconceito. Atente-se também para o fato de que o acusador não considera sua própria definição ela mesma um preconceito: preconceito é unicamente o conceito do outro.

Se substituirmos, porém, a palavra “preconceito” pela palavra “discriminação”, aí então começará a ser estabelecida alguma dialética, mas não pense ingenuamente que o preconceituador¹ estará preparado para entrar numa discussão — se estivesse, não teria jogado o preconceito na mesa.

Outra forma de não-argumentação, de insulto à inteligência mesmo — partindo-se do pressuposto que exista uma —, que é muito utilizada e que passa muitas vezes despercebida, é o “julgamento”.

O verbo “julgar” quando utilizado, por exemplo, na sentença “eu não julgo ninguém”, não passa também de uma forma de preconceituar² a opinião contrária. Sempre é utilizado como se “não julgar” fosse sinal do mais elevado sentimento moral, sendo que na verdade atesta unicamente a sua amorfia. “Não julgar” significa “não ter opinião” e, portanto, não escorregar nem à direita nem à esquerda, não decidir-se, não definir-se, podendo dessa forma agradar a gregos e troianos, de acordo com a conveniência da situação.

O argumento do “julgamento” não passa de uma falácia, afinal todo mundo julga tudo o tempo todo, não sendo possível que se viva de outra maneira. Não gostar disso ou daquilo, ou mesmo o contrário, é julgar aquilo como bom ou ruim (para si), e isso definitivamente não pode ser uma coisa negativa, mostrando apenas que o indivíduo não tem sangue de barata e que reage, de maneira positiva ou negativa, diante das coisas que se lhe apresentam.

A ponderação, o bom-senso e a eqüidade efetivamente são sinais de valores morais elevados, mas nem sempre possíveis de serem alcançados. Isso não se deve necessariamente a uma falha do indivíduo, mas à maneira como cada situação se coloca. O perigo está justamente no fato de que os néscios confundem freqüentemente eqüidade com falta de opinião e talvez sobretudo por isso é que sejam néscios.

A solução para o “enigma” se encontra justamente em PRIMEIRO ter uma opinião, um conceito, um julgamento, para apenas depois utilizar-se da ponderação, do bom-senso e da eqüidade, pois tais qualidades apenas podem ser aplicadas sobre algo que já exista antes.

Essa é a única forma de se conseguir perceber se aquele pensamento se trata ou não de um preconceito. E não esqueçamos que a opinião, afinal, é uma via de duas mãos que corre à beira de um abismo, mas com uma bela paisagem ao fundo.


¹ aquele que define o pensamento alheio como preconceito
² atribuir valor de preconceito a algum pensamento

Do escritor como assassino


Escrever é uma forma de crime e, por isso, todo escritor cultiva dentro de si características peculiares a um serial-killer. Como este, consegue ignorar solenemente aquela vozinha do ego que diz “você não deveria fazer escrever isso, vão acabar pensando que você está falando é de você mesmo”. O assassino em série, como o escritor, na verdade sabe muito bem diferenciar o certo do errado, mas simplesmente não se importa. “É como se uma força, mais forte do que eu, me impelisse a matar escrever”. “Quando voltei a mim, já havia cometido o crime conto”.

Todo escritor é um sórdido. Nas cenas finais de Hamlet, os personagens invariavelmente matando-se uns aos outros, Shakespeare nada faz para impedi-los. Ele poderia transformar, subitamente, as espadas em lenços de seda e os venenos em purgantes, evitando assim o trágico desfecho. Mas Shakespeare não faz nada. E se não faz nada é porque na verdade ele gosta.

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Suíte para Solo de Violoncelo


Mesmo o sol tendo acabado de se por, a temperatura ainda deve estar em torno de 35 graus. O ventilador de teto, de modelo antiquado e pás muito largas, gira vagarosamente sobre sua cabeça, mal e mal insinuando uma leve brisa. A noite vai caindo enquanto as luzes matizadas da rua vão tingindo lentamente a sala. Ele arrasta-se sem ânimo até o toca-discos e põe para tocar sua inseparável Suíte para Solo de Violoncelo.

A música preenche o ambiente com os timbres angustiantes daquele instrumento, cujo som ele acredita se assemelhar ao choro inconsolável que brota do fundo da garganta de uma viúva. É completamente tomado por um estado de torpor, parte causado pela própria temperatura, parte pelo mal de vivre que lhe acompanha desde sempre, monstrinho de estimação esse ao qual alimenta incessantemente com novos desestímulos, seja calor, música, ou pensamentos obscuros.

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A Arte Celibatária


Independentemente de quantas elas sejam — o Manifesto das Sete Artes de Canudo1 já está démodé há algum tempo — e considerando-se seus respectivos processos criativos, talvez a fotografia possa ser considerada a arte mais celibatária de todas.

Obviamente toda forma de criação artística subentende a existência daquele momento de solidão onde o artista se isola completamente do mundo externo, entrando nessa espécie de estado de transe, de frenesi criativo.

O que parece diferenciar a fotografia das outras artes é que música, dança, pintura, escultura, teatro, literatura, cinema, etc., são manifestações cujo ato de criação se dá na parte de fora do artista. Enquanto o musicista está compondo, as notas musicais são manifestadas em forma de sons ou de partituras escritas, o escritor materializa as palavras, o coreógrafo necessita ensaiar seus passos de dança no espaço físico extracorpóreo, e assim por diante. Com a licença da expressão, no que se refere à forma de criação, estas tratam-se de exoartes.

O problema que existe nessa afirmação é que não se pode saber ao certo a partir de qual momento uma fotografia, como arte, poderá ser considerada pronta. É após o clique? Após a pós-produção? Após a ampliação?

Esclareça-se que essa linha de pensamento foi construída sob o ponto de vista de que o clique seja, strictu sensu, o ato final de criação: o que acontece antes se assemelha à preparação do modelo que posará para a escultura, o que acontece depois se assemelha ao verniz passado sobre a pintura.

A fotografia pode ser chamada de arte celibatária porque durante esse processo criativo (inspiração, enquadramento, manuseio do aparelho) apenas o artista-fotógrafo vê o que se passa através do view-finder da câmera: o produto só existirá de fato, só poderá ser visualizado por outrem, após o efetivo clique.

Dessa forma os fotógrafos, devido ao meio, são celibatários criativos, são os onanistas das artes.

Daí todo fotógrafo ser essencialmente um ególatra, daí a dificuldade de se fazer fotografia coletiva. Os Coletivos Fotográficos, da forma como são apresentados publicamente, com todo os seus discursos e filosofias, parecem ser um embuste mascarando a realidade.

Não há fotografia coletiva, o que há é distribuição de tarefas: você fica com a produção, você com a iluminação, você com o tratamento de imagens.

Mas no final é apenas um único dedo que aperta o botão. E antes desse botão ser apertado, não existe arte fotográfica.


1 CANUDO, Ricciotto. Manifeste des sept arts. Paris: Séguier, 1995.

O Torcedor de Time Nenhum



Sobretudo aqui no Brasil, sempre há essa exigência de que se torça para algum time de futebol. É por isso que quando conto qual é meu time do coração costumo receber reações variando desde “o que há de errado com ele?” até “de que planeta ele veio?”, com as mais diferentes gradações entre um e outro extremo.

Pois saibam todos que da mesma forma que há torcedores do Flamengo, do Corinthians e até do Palmeiras, eu sempre fui torcedor roxo de Time Nenhum. Time Nenhum ganha todos os campeonatos; Time Nenhum rouba meu tempo que poderia ser gasto com inúmeras outras coisas mais interessantes; Time Nenhum tem uma camiseta diferente todos os dias, ao contrário dos outros times, que usam quase sempre a mesma, de desenho sofrível; Time Nenhum não incita a violência das torcidas adversárias; Time Nenhum detesta conversas de futebol.

Aquele argumento de que “futebol é a alegria nacional” é uma grande estopada. O Campeonato Brasileiro sendo disputado todos os anos por 40 times diferentes, quem torce para qualquer um diferente de Time Nenhum tem 97,5% de chance de se tornar um perdedor. Torcer para outro time que não o meu é fazer uma escolha praticamente certa de ser triste no final do campeonato e de se tornar um perdedor em outro setor de sua vida além dos outros todos de sempre.

Portanto, deixem-me em paz com a escolha do time do meu coração: Time Nenhum me traz alegrias.

Fotografia digital não é fotografia


Elementar: foto-grafia, escrita da luz.

Aqueles que “batem” fotos utilizam muito a expressão fotografia analógica... As pessoas inventam cada coisa, não é?! Primeiro, não entendo o porquê de tanto ódio, dessa necessidade de ficar batendo na foto como se ela tivesse feito alguma coisa de ruim. Segundo... o que exatamente quer dizer “analógico”?

Analógico vem de analogia, ou seja, é algo que apresenta relação ou semelhança entre coisas ou fatos. Considerar uma fotografia como sendo analógica, portanto, é retroceder ao pensamento positivista disseminado no século XIX que considerava a fotografia como “cópia exata, reprodução fiel da realidade”. Ou seja, quem diz “fotografia analógica” está dizendo de maneira implícita que a fotografia é algo meramente científico, jamais sendo fruto de criação e/ou interpretação por parte do agente por trás da câmera.

Dessa forma, dizer “fotografia analógica” é o mesmo que chamar o fotógrafo de macaco, ou seja, de mero apertador de botões. Não que estes não existam, mas na parte que me toca, acredito (ou prefiro acreditar) que faço bastante proveito dos 3% de carga genética que me diferenciam de um chimpanzé. Portanto, se você diz “fotografia analógica” saiba que o macaco, na verdade, é você.

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Amo Que Me Odeiem



Não há coisa que intimamente mais me cause prazer no mundo do que saber ou perceber-me odiado.

Isso se dá porque aqueles que me amam possuem em relação a mim certa proporção de similaridade: amam-me somente porque até certo ponto sou similiar a elas mesmas e é provável que pessoa alguma ame a alguém que não seja si própria.

De minha parte, amo-as pelos mesmos motivos: amá-las é unicamente amar o tanto de mim que vejo nelas, já que ao restante desprezo.

Igualmente, saber-me amado por determinadas pessoas me seria um castigo tão insuportável que gosto quando elas me odeiam pois assim tenho certeza de que não somos iguais em nada.

Sobre "Identidade e Diferença"




Sobre “A produção social da identidade e da diferença” de Tomaz Tadeu da Silva

link para o texto

O autor discorre nesse ensaio como se dá o processo social de construção da identidade e da diferença. Isso que ele chama de “pedagogia da diferença”, é fundamental para a estruturação do seu pensamento uma vez que todo nosso processo cognitivo comumente é construído sobre a “pedagogia da igualdade” (ou, com outras palavras, da “pedagogia da identidade”).

Como a construção cultural de sentido conscientemente se dá por analogia e não por antinomia1, por isso se mostra imprescindível toda a parte inicial do ensaio, justamente para desconstruir esse vício lingüístico: citando Sausurre, Da Silva aponta o inconsciente desse processo: “a linguagem é, fundamentalmente, um sistema de diferenças”. Ao mostrar que ao dizer “vaca”, ao mesmo tempo se diz “não-porco”, “não-cavalo”, etc., nos apresenta o caminho contrário daquilo que consideramos a construção do conhecimento: ao dizermos os sinônimos estamos dizendo igualmente todos os antônimos. Isso obviamente faz todo o sentido, mas nunca pensamos nisso.

Todo o discurso sobre a construção dos signos é uma espécie de engenharia reversa da atribuição da identidade e da diferença e, afinal, é apenas compreendendo intrinsecamente a dinâmica de um determinado processo que se torna possível desconstruí-lo.

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À Procura de Um Coração


— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior.
— Ah, tem não.
— Não tem hoje ou não tem nunca?
— A gente não vende isso não.
— Que coisa... e se eu encomendar, aí tem?
— Tem não.
— E onde será que eu encontro coração aqui em São Paulo?
— Lá na Lapa tem...
— Nossa, na Lapa?! Que longe... na Lapa de Cima ou na Lapa de Baixo?
— No Mercado da Lapa tem. Se tiver coração, é lá.

— Tem coração?
— Tem esses aí, ó!
— Mas é que eu quero maior...
— Ô, Antônho, tem coração aí?
— Tê, tem, mais cabô!
— Ó, moço, coração só na semana que vem, viu? Isso se tiver!
— A gente tá mesmo fodido nessa cidade...
— ...
— Você sabe se tem outro açougue aqui perto?

Aos Extintores!



Série Instantâneos Conceituais ou Non-Sense Sobre o Destino de Uma Cabeça de Fósforo
Penúltimo Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Último Instante de Uma Cabeça de Fósforo
Quando Um Fósforo Perde a Cabeça



Erra muito menos quem, com olhar sombrio, considera esse mundo como uma espécie de inferno e, portanto, só se preocupa em conseguir um recanto à prova de fogo.
Schopenhauer In: Aforismos Para a Sabedoria de Vida

De pecador metido em tal orifício ficava de fora dos pés à barriga da perna, ficando oculto o resto do corpo. Ardiam-lhes as plantas dos pés, acesas por inteiro, e nesse sofrer tanto se estorciam que teriam podido romper laços e cordas. Do calcanhar aos dedos corriam chamas, inflamadas como se flamejassem sobre corpo untado com gordura.
Dante In: A Divina Comédia, Canto XIX do Inferno

A língua também é um fogo; sim, a língua, qual mundo de iniqüidade, colocada entre os nossos membros, contamina todo o corpo, e inflama o curso da natureza, sendo por sua vez inflamada pelo inferno.
Evangelho de Tiago, 3,6

Mas, quanto aos medrosos, e aos incrédulos, e aos abomináveis, e aos homicidas, e aos adúlteros, e aos feiticeiros, e aos idólatras, e a todos os mentirosos, a sua parte será no lago ardente de fogo e enxofre, que é a segunda morte.
Livro do Apocalipse, 21,8

Ele não está nas espirais de Dante, tampouco nos aguarda, apocalíptico, no Fim dos Tempos: o inferno é aqui e o diabo é o homem!

Aos extintores? Baldes d'água, mangueiras? Que se esqueça toda idéia de canecas ou mãos em concha: são insuficientes diante de toda hipocrisia, disfaçatez, falsidade, adulação, idolatria e dissimulação inerentes à vida "humana".

Para apagar essa fogueira das vaidades, apenas um novo dilúvio.

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