Categoria: Política
Que Se Bata o Martelo!

Quem tem um martelo, pode escolher como e na cabeça de quem batê-lo. Acompanhe a seguir três histórias, sendo duas verdadeiras e a outra uma fábula.
Dica: a fábula não é o segundo texto e a assim dita "Moral da História" fica bem clara nos três, apesar de nos dois primeiros estar mais ou menos sub-reptícia.
Autos nº 124/03 - 3ª Vara Criminal da Comarca de Palmas/TO
Decisão proferida pelo juiz Rafael Gonçalves de Paula
DECISÃO
Trata-se de auto de prisão em flagrante de Saul Rodrigues Rocha e Hagamenon Rodrigues Rocha, que foram detidos em virtude do suposto furto de duas (2) melancias. Instado a se manifestar, o Sr. Promotor de Justiça, opinou pela manutenção dos indiciados na prisão.
Para conceder a liberdade aos indiciados, eu poderia invocar inúmeros fundamentos: os ensinamentos de Jesus Cristo, Buda e Ghandi, o Direito Natural, o princípio da insignificância ou bagatela, o princípio da intervenção mínima, os princípios do chamado Direito alternativo, o furto famélico, a injustiça da prisão de um lavrador e de um auxiliar de serviços gerais em contraposição à liberdade dos engravatados que sonegam milhões dos cofres públicos, o risco de se colocar os indiciados na Universidade do Crime (o sistema penitenciário nacional),... Poderia sustentar que duas melancias não enriquecem nem empobrecem ninguém. Poderia aproveitar para fazer um discurso contra a situação econômica brasileira, que mantém 95% da população sobrevivendo com o mínimo necessário.
Poderia brandir minha ira contra os neo-liberais, o consenso de Washington, a cartilha demagógica da esquerda, a utopia do socialismo, a colonização européia,.... Poderia dizer que George Bush joga bilhões de dólares em bombas na cabeça dos iraquianos, enquanto bilhões de seres humanos passam fome pela Terra - e aí, cadê a Justiça nesse mundo?
Poderia mesmo admitir minha mediocridade por não saber argumentar diante de tamanha obviedade. Tantas são as possibilidades que ousarei agir em total desprezo às normas técnicas: não vou apontar nenhum desses fundamentos como razão de decidir.
Simplesmente mandarei soltar os indiciados. Quem quiser que escolha o motivo. Expeçam-se os alvarás. Intimem-se."
Palmas - TO, 05 de setembro de 2003.
Rafael Gonçalves de Paula
Juiz de Direito
In: Revista Consultor Jurídico, 2 de abril de 2004
ANJ critica censura da Justiça Eleitoral
A Associação Nacional de Jornais protesta com veemência contra a decisão do juiz auxiliar Roberval Casemiro Belinati, do Tribunal Regional Eleitoral do Distrito Federal, de proibir a divulgação de gravação de conversa telefônica entre o ex-governador Joaquim Roriz e o candidato a deputado federal Eri Varela. Na conversa, os dois políticos criticam o candidato ao governo do Distrito Federal José Roberto Arruda.
A liminar do juiz, concedida a partir de ação movida pelo ex-governador e o candidato a deputado, afirma que a divulgação da gravação acarretaria "prejuízos político-eleitorais" para os dois políticos.
A decisão do juiz impõe absurda censura aos meios de comunicação, em clara violação à Constituição, que expressamente veta qualquer tipo de proibição à divulgação de informações. A ANJ lamenta que a Justiça brasileira, com freqüência preocupante, venha exercendo a função de censora dos meios de comunicação e espera que instâncias superiores anulem a liminar concedida pelo juiz, reestabelecendo o princípio maior da liberdade de informação.
Nelson P. Sirotsky
Presidente da Associação Nacional de Jornais
FÁBULA XCVI
A peste dos animais
Um mal horrível, que a ira celeste inventou para punir os crimes da terra, a peste, fazia mil estragos entre animais. Nem todos morriam, mas todos, languidos, entorpecidos, quer de pavor, quer já por efeito da moléstia, arrastavam-se moribundos. Em tanta calamidade só valem grandes remédios. O leão convocou assembléia geral dos seus súditos, e assim falou: "Prestantes e amados vassalos, vós que o flagelo de Deus açoita, ouvi-me, e dai-me o auxílio de vossas luzes; nunca tão necessário nos foi, a nós todos, um bom conselho. Não é natural essa epidemia que nos vai devastando; cada dia morremos aos milhares; é por certo o castigo que algum crime de nossa raça está merecendo; cumpre pois aplacar a ira celeste. Lembrei-me a princípio de decretar um jejum de alguns dias; porém jejuando andamos todos pelo abatimento que a moléstia causa. Então ocorreu-me a idéia de fazermos aqui todos uma confissão geral, para descobrir-me qual o miserável cujo pecado nos trouxe semelhante desastre." O parecer do rei foi por todos aprovado. O leão prosseguiu: "Não quero, nem para mim, injusto favor; se for o criminoso, com muita satisfação morrerei pelo meu povo; confesso pois que às vezes, em horas de fome, não respeitei bastante a vida do veado, da vitela, da ovelha, e nem mesmo a do pastor. Se julgais que são esses os crimes que o céu está punindo, dizei-o francamente, gostoso me imolarei ao bem de todos." O javali, o tigre e outros muitos que tais, em coro aplaudiram: "Vossa Majestade está zombando! crimes, isso que praticou! nem são pecadinhos veniais. Comeu às vezes veados, ovelhas, pastores! Ora nisso muita honra lhes fazia!"
Continuou à confissão geral, nas ações dos mais ferozes brutos nada achou a assembléia que dizer; não houve crueza que todos à porfia não justificassem. Chega a vez do burro: "Senhores, disse ele, por mais que procure despertar minha consciência, a ver se me lembra algum crime que praticasse, nenhum me ocorre; somente um dia estando com muita fome, passei por um prado, propriedade de um convento. A erva estava tenra, orvalhada, apetitosa; ninguém me via; tudo me incitava; passando pois, não pude resistir à tentação, e apanhei na boca uma pouca de erva que mais, a jeito achei..." — Malvado! bradaram juntos todos os tigres e javalis da assembléia; roubar a erva de um campo pertencente a convento! Sacrilégio! E por causa desse miserável todos estamos pagando! Súbito o pobre burro é imolado à divina justiça.
MORAL DA HISTÓRIA: Para o poderoso, qualquer que seja seu crime, nunca falta indulgência; o pobre ou fraco, nem que viva como santo, pode livrar-se; lá tem seu descuido, e esse não tem desculpa.
La Fontaine
Les Animaux malades de la peste (1678)
Adaptado por: Justiniano José da Rocha In: Fábulas (imitadas de Esopo e La Fontaine)
Condoleezza Rice
Receita do Arroz da Condoleezza

Para aqueles que gostam de transformar tudo em ato político, o Sinal dos Tempos Blog fornece em primeira mão a receita exclusiva do Condoleezza Rice. Como se sabe, rice em inglês quer dizer arroz, então esse prato não poderia ter nome mais apropriado.
Ingredientes e seus significados:
arroz - referência à própria Secretária de Estado dos EUA, ingrediente-base da receita
cogumelos - para lembrar da questão atômica
carne moída - homenagem aos corpos despedaçados pelas bombas no Iraque
ervilhas - referências múltiplas às questões ambiental/efeito estufa/aquecimento global
caldo de tomate - lembrança de todo o sangue derramado
Os ingredientes devem ser colocados na quantia desejada, ao gosto de cada um.
O Sinal dos Tempos garante que fica uma delícia, o problema é esquecer. Portanto, depois de feito o prato, coma se for capaz! Bon apetit!
For those who like to transform everything in politic acts, Sinal dos Tempos Blog brings you at first hand this exclusive recipe of Condoleezza Rice (apostrophe was intentionally suppressed).
Ingredients and their meanings:
rice - in reference to the US Secretary of State herself; this recipe's main ingredient
mushrooms - to remember the atomic issue
ground meat - a tribute to all those bodies ripped apart by bombs in Iraq
peas - multiple references to environmental/greenhouse effect/global warming issues
tomato sauce - in remembrance to all spilled blood
All these ingredients should be used freely, according to anyone's taste.
Sinal dos Tempos guarantees that this recipe it's delicious, despite the hardness to forget. Therefore, after the dish is made, eat it if you can! Bon apetit!
ONUltraje!

É interessante e esclarecedor — para aqueles que têm a coragem de fazer as perguntas corretas e lidar com suas conseqüências — o fato dos EUA terem o maior arsenal nuclear do mundo e não sofrerem, porém, qualquer tipo de sanção ou veto por parte da ONU, muito pelo contrário.
Diante disso, como pode qualquer país do mundo, sem arsenal nuclear, dialogar em pé de igualdade com o Tio Sam? A igualdade justa entre nações não deveria ser o carro-chefe da ONU? O que a ONU faz em relação à guerra no Iraque? E à fome/AIDS/massacres na África? Deveria a Coréia do Norte esperar pelo apoio da ONU para ter voz ativa? As "Nações Unidas" devem ser unidas desde que sob o jugo americano? A ONU foi vendida, como tudo mais no mundo?
Não sou a favor de arsenais nucleares, longe disso, mas como poderia ser possível ser contra um país que procura meios para negociar em pé de igualdade, tendo-se em vista que a ONU não promove igualdade alguma?
Isso abre espaço para que ditadores e ensandecidos em geral considerem-se com o direito de requerer serem tão ditadores e ensandecidos quanto os EUA em si. Para você, George Bush invadindo o Iraque e dizendo mass destruction weapons com aquele olhar sádico fitando o horizonte parece uma pessoa mais sana do que Kim Jong II? Essas são grandes questões...
Já a grande afirmação é que, há muito tempo, ONU passou a ser sinônimo de EUA — grandes siglas comprometendo o futuro da humanidade, desvirtuando-o ao seu bel-prazer em defesa dos próprios interesses financeiros.
Leia a seguir alguns artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos e veja por si mesmo se a ONU não passou a ser em muitos pontos uma organização de fachada, vendida e corrompida aos interesses financeiros internacionais:
Artigo 1°
Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade.
Artigo 7°
Todos são iguais perante a lei e, sem distinção, têm direito a igual protecção da lei. Todos têm direito a proteção igual contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.
Artigo 30°
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada de maneira a envolver para qualquer Estado, agrupamento ou indivíduo o direito de se entregar a alguma atividade ou de praticar algum ato destinado a destruir os direitos e liberdades aqui enunciados.
Tenha em mente que esses artigos aplicam-se a todos os países-membros, à excessão, obviamente, do G-7. Este retém direitos especiais sobre os demais, incluindo o de invadir e destruir, em nome da ganância às reservas de petróleo.
Se, como todos sabemos, o Iraque foi invadido sob o pretexto falso de que este país possuiria armas de destruição em massa, então, sob esse ponto de vista, todas as nações do mundo têm esse mesmo direito de invadir os EUA utilizando-se desse mesmo argumento. Ou, sob outro ângulo, por que os EUA não invadem a si mesmos, já que gostam tanto disso?
Mas, sob o olhar estrategicamente míope da ONU, ao Tio Sam é permitida a construção de armamentos nucleares e a violação da soberania de outras nações.
Muita areia para o caminhãozinho desse governo que foi, literalmente, born in the Bushes*...
born in the Bushes significa nascido na família Bush ou, traduzido literalmente, nascido nas moitas ou ainda, em expressão genuinamente brasileira, filho das macegas.
O Muro

Muro na fronteira entre EUA e México
Bush promulgou a lei que permite a construção do muro na fronteira com o México
SCOTTSDALE, EUA, 4 out (AFP) - O presidente George W. Bush assinou nesta quarta-feira, na cidade de Scottsdale, Arizona (sudoeste), a lei que autoriza a construção de um muro de 1.200 km na fronteira com o México, aprovando assim a execução da polêmica obra.
Em momento como esse, certamente não podemos deixar de lembrar do Muro de Berlim. Também pensamos que, pleno século XXI, tais coisas não mais deveriam estar acontecendo. Mas tudo na vida tem o seu lado bom e indignar-se com o muro americano não passa de negativismo.
Primeiro temos de considerar o fato de que o mundo começará a acabar justamente pelos EUA, como eles mesmo demonstram claramente através dos filmes "O Dia Depois de Amanhã" e "Guerra dos Mundos", apenas citando dois exemplos.
Mas isso não é motivo para preocupações (lembre-se: sem negativismo!!): quando afinal chegar o fim das eras, nós — latino-americanos — estaremos em relativa segurança.
Devido ao aquecimento global — cujos maiores culpados são eles mesmos, diga-se de passagem —, o conseqüente derretimento das calotas polares e aumento do nível dos oceanos, somados aos maremotos e furacões que acontecem com maior freqüência e intensidade justamente pelo mesmo motivo — e cujas vítimas são eles mesmos —, será praticamente impossível que consigam escapar por via aquática.
Por outro lado, o terrorismo com sua permanente iminência de novos atentados aéreos torna a cada dia mais perigosa a saída por aviões, estando ela, portanto, descartada para fins de fuga em massa. Vale lembrar, também, que a revolta terrorista tem como origem o famigerado colonialismo americano, cujas vítimas, mais uma vez, são eles próprios.
Dessa forma, estando o sul impedido pela construção do muro, o oceano impedido por furacões e o nível da água, o ar impedido pelo terrorismo, a única possibilidade seria que os americanos tentassem fugir para o norte, rumo ao Canadá. Essa alternativa, no entanto, ainda se mostra inviável, uma vez que a travessia do Estreito de Bering é praticamente impossível: americano não caminha e seus pesadíssimos e poluentes utilitários esportivos afundariam facilmente na fina camada de gelo.
Também deve ser levando em conta que no Estreito de Bering não há MacDonald's e a maioria dos americanos preferiria simplesmente morrer a ficar sem fast food.
Dessa forma, jamais precisaremos mudar nossos idiomas oficiais para o inglês americano — essa língua cujo som se parece com aquele produzido por um cachorro engasgado — e também estaremos para sempre livres das camisas coloridas estilo havaiano combinadas aos mocassins com meia branca esticada até as canelas.
Sim, a principal função do muro pode até ser a de tentar impedir que os mexicanos entrem — e isso é direito e benefício dos americanos —, mas é imporante lembrar que os maiores beneficiados sem dúvida seremos nós mesmos porque, ao impedir que os mexicanos entrem, o muro também impedirá que os americanos saiam.
Os Dedos de Diógenes

Diogenes (1860) - Jean Leon Gerome
Diariamente ficamos indignados com a corrupção que assola o nosso país. Nesses momentos, apesar da profunda indignação, não posso deixar de lembrar de algo que aprendi ainda na escola: toda vez em que apontamos um dedo dizendo "culpado", há três dedos apontando de volta para nós mesmos.
Ao apontarmos nosso indicador para algum político dizendo "culpado", o que dirá cada um dos outros três dedos que apontam de volta para cada um de nós?
Talvez o nosso dedo médio aponte para os nossos erros eleitorais. Quando digo "nossos", pode não ser meu, pode até mesmo não ser seu, mas certamente o é de grande parte do povo brasileiro.
É importante que nunca equeçamos que povo é dos substantivos mais democráticos de todos, não apenas na sua própria acepção: talvez seja o único que abrigue, em si mesmo, todos os pronomes pessoais — "o povo" inclui, necessariamente, eu, tu, ele, nós, vós e eles. Mesmo isso sendo aparentemente óbvio, quase sempre dizemos "eles, o povo" e nunca "nós, o povo". "A culpa é do povo brasileiro!" Quantas vezes você e eu já dissemos isso, como se fizéssemos parte da população de outro país que não deste?
Mas ao mesmo tempo em que os dedos médios apontam de volta para o povo denunciando sua culpa, também o redimem, pois este vive dentro de um círculo vicioso: ao não ter acesso à cultura e educação, tem o seu poder de discernimento minado na sua base, o que o faz votar nos mesmos políticos de sempre e, estes, por sua vez, continuam a não investir em educação e infra-estrutura básica, o que faz com que o povo (os outros, é claro) continue ignorante e repita o processo, ad infinitum.
É curioso o significado que vejo no dedo anular. Misteriosamente, parece já apresentar uma pequena corrupção no próprio nome, uma vez que, por lógica, deveria se chamar anElar e não anUlar. Esse aponta para nossas pequenas corrupções diárias. Quando digo "nossas", quero dizer realmente nossas. Quem nunca dobrou a esquina com seu carro sem ligar o sinal de alerta, que atire a primeira pedra. Quem nunca atendeu ao celular enquanto dirigia, idem.
Apesar do dedo anular apontar para corrupções as mais amplas, e elas serem diametralmente opostas à gravidade da corrupção política, nem por isso deixam de ser corrupções de valores.
Se assim não fosse, não haveriam cocôs de cachorro na calçada, não haveria inadimplência, jamais teria sido feito qualquer comentário em baixo tom sobre o comportamento do vizinho, tampouco aquele outro que você fez sobre a postura de um dos seus amigos quando este não estava presente.
Também no metrô as pessoas parariam sempre no lado direito da escada rolante, deixando a esquerda livre, os prédios de escritórios não insistiriam em tirar nossa foto porque isso acarreta em violação ao Artigo 5º, Inciso X, da nossa Constituição Federal, os supermercados sempre teriam todos os seus produtos com preços à mostra, ninguém furaria a fila... enough!! Acho que isso já é suficiente para provar meu ponto. Afinal, se eu fosse listar todas nossas pequenas currupções poderia levar toda a vida e isso ainda não seria suficiente.
Muitas vezes somos as vítimas dessas pequenas corrupções. Mas noutras vezes, querendo ou não, podemos ser os algozes. É importante ressaltar que cada um de nós, ao silenciar diante dessas pequenas corrupções diárias, também estará em si mesmo sendo corrupto, além de cometer crime de conivência.
Isso, por fim, nos leva ao dedo mínimo, que aponta para a nossa própria apatia, não nos permitindo fazer nada além de reclamar e tentar acertar nessa verdadeira roleta russa que é o voto, como se isso fosse o máximo esforço possível de ser feito para tentar mudar a situação.
Concordo que é bastante difícil ter ânimo, uma vez que enquanto uma parte da população se esforça para mudar certas atitudes e retirar certos nomes do poder, a outra parte, representada simbolicamente pelos outros dois dedos, faz esforço contrário e os coloca de volta. É uma espécie de luta eterna entre o Davi-Mindinho contra o Golias-Pai-de-Todos, que não nos levará a lugar algum além da própria consciência tranqüila por ter feito a sua parte.
Mas será que podemos ao menos sonhar com o dia em que, dedos estendidos, mão espalmada, poderemos cumprimentar sem culpa a dignidade humana em todos os níveis sociais?
Poema do Fecho-Éclair

Filipe Segundo
tinha um colar de oiro
tinha um colar de oiro
com pedras rubis.
Cingia a cintura
com cinto de coiro,
com fivela de oiro,
olho de perdizComia num prato
de prata lavrada
girafa trufada,
rissóis de serpente.
O copo era um gomo
que em flor desabrocha,
de cristal de rocha
do mais transparente.Andava nas salas
forradas de Arrás,
com panos por cima,
pela frente e por trás.
Tapetes flamengos,
combates de galos,
alões e podengos,
falcões e cavalos.Dormia na cama
de prata maciça
com dossel de lhama
de franja roliça.
Na mesa do canto
vermelho damasco
a tíbia de um santo
guardada num frasco.Foi dono da terra,
foi senhor do mundo,
nada lhe faltava,
Filipe Segundo.
Tinha oiro e prata,
pedras nunca vistas,
safira, topázios,
rubis, ametistas.Tinha tudo, tudo
sem peso nem conta,
bragas de veludo,
peliças de lontra.
Um homem tão grande
tem tudo o que quer.
O que ele não tinha
era um fecho éclair.António Gedeão
In: Poesias completas
Ai, Que Divertido!

Montagem digital representando o respeito pela política
e pelos políticos brasileiros, retribuição à altura
do respeito destes pelo povo
ACM rebate Lula e afirma que ele é um rato gordo
Em resposta ao candidato Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que nos comícios de Feira de Santana e de Salvador disse que, para ele, o líder baiano não é o "leão do Nordeste", mas o "hamster do Nordeste", o senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) afirmou ontem que o presidente da República é um rato gordo e etílico, cujos furtos no Palácio do Planalto ele tem denunciado no Congresso Nacional.
"Estou mais para gato caçador de rato ladrão do dinheiro público do que para hamster. Não conheço hamster. Só ouvi falar. Até porque estou mais acostumado a combater os grandes ratos. E a cada dia fica mais confirmado que Lula é um roedor implacável, incontrolável, para si e para seus familiares", declarou o senador ao Jornal Correio da Bahia.
Na avaliação de Antonio Carlos Magalhães, "é mais fácil eu ainda ser um leão do que ele ser um homem sério". ACM defendeu ainda o deputado Antonio Carlos Magalhães Neto (PFL-BA) das insistentes agressões do presidente da República.Fonte: Redação Terra, 18/09/2006
Enquanto isso, no Vaticano, Ratzinger faz declarações infelizes sobre o Profeta Maomé e, conseqüentemente, à religião muçulmana...
Ri-do-Rato neles!!!!

A Nova Luz da República

Era uma vez uma República Feita de Brasas, governada por um Sapo Cururu muito gordo o qual, diziam as más línguas, gostava de beber água da fonte Que Passarinho Não Bebe.
Apesar da saparada não ser predominantemente indígena, "cururu" era palavra originada da língua dizimada dos índios Tupis, o que tornava a todos, por extensão, tupininquins, cujo coletivo era polvo.
Antes de alcançar o poder, Vossa Cururuleza passara a vida toda grulhando trabalho na caverna escura e platônica que era a República. Dizia que havia luz lá fora e que se lhe fosse concedido o trono ao qual tinha direito por nascença — ele assim pensava, convencendo a todos do mesmo, porque era uma lula, da raça mesma do polvo, porém não tão burra —, haveria de mostrar a todos, indistintamente, o quão feliz e bela seria a vida sob a Nova Luz da República.
Mas para que o Cururu saisse para fora da caverna, seria preciso que os sapos — ou pelo menos a maioria mais um deles — fizessem fila indígena no Portal, também chamado de Boca da Urna, possibilitando que Vossa Sapeza, pisando na cabeça de cada um deles, finalmente alcançasse a Luz, de onde então poderia, heroicamente, içar os sapos todos para fora.
É claro que ele não deixava suas palavras no ar: tudo o que dizia era sob juramento à Deusa da Promessa Furada. Sendo os sapos tupininquins muito crédulos, pois apesar de não serem indígenas continham em si a mesmíssima ingenuidade devido à absorção etimológica, acreditaram piamente nas grulhas de Vossa Sapoleza e fizeram a fila, enfeitiçados com cega esperança em Promessa Furada.
Mas quando finalmente V. S. conseguiu ver a luz, percebeu de imediato quantas sombras se escondiam nela. Muito astuto, pensou no quanto tais sombras poderiam ocultar e no quanto seria fácil ludibriar a visão escurecida daqueles que estavam desde sempre dentro da caverna.
Entre sombras, foram passando quatro anos. Quando o Vento da Indignação soprava um pouco mais forte, podia-se ouvir ecoar através das matas de pau-brasa o grasnar dos sapos esquecidos inquirindo sobre a tão prometida Nova Luz da República.
Vossa Cururuleza, pulando de um lado para outro o tempo todo, dizia que quatro anos não haviam sido suficientes para tirá-los de lá: para que todos finalmente conseguissem sair, precisaria que fosse reavivada a cega esperança, também conhecida como Santa Burrice, e que lhes dessem mais quatro anos.
Então o polvo, tateando às cegas as paredes da caverna da República, com toda sua ingenuidade tupininquim, continuou rezando crédulo à Deusa da Promessa Furada...
Analfabeto Político

O pior analfabeto é o analfabeto político.
Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos.
Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas.
O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.
Bertolt Brecht
A Casa

Construção da Cúpula Côncava do Senado Federal
Arquivo Público do Distrito Federal
Era uma casa
Muito engraçada
Não tinha teto
Não tinha nada
Ninguém podia
Entrar nela não
Porque na casa
Não tinha chão
Ninguém podia
Dormir na rede
Porque na casa
Não tinha parede
Ninguém podia
Fazer pipi
Porque penico
Não tinha ali
Mas era feita
Com muito esmero
Na Rua dos Bobos
Número Zero.
Vinícius de Morais



