Categoria: Política
A terra tremeu, as máscaras caíram
Não esqueçamos que o fato se deu nesse mesmo nosso continente onde a falta de memória parece ser um mal generalizado e onde cenas que deveriam ser unicamente trágicas frequentemente se transformam em cenas tragicômicas. Nós aprendemos a rir de nossas próprias tragédias. Aliás, aprendemos tão bem que agora não levamos quase nada a sério.
Como sabemos, é nos momentos de fraqueza que todos mostram quem verdadeiramente são. A terra tremeu, as máscaras caíram e, obviamente, acabou por revelar-se uma das cenas mais pândegas do ano.

Leo La Valle/EFE

Rafael - A Bênção de Cristo (c. 1506)

Martin Bernetti/AFP

Heavy Metal Satan Fingers

Ivan Alvarado/Reuters

Delacroix - La Liberté guidant le peuple (1830)
Ressalte-se que nesse momento o Príncipe de Espanha, Felipe (que não é O Belo), quedava-se soberanamente pálido no espaldar da porta entre o banquete da posse e o salão principal do evento.
Alan García (Peru), também não poderia nos deixar sem o Momento Lula do dia, presenteando-nos com essa linda pérola latrino-americana: "Deu para dançar um pouco com esse balançar".
Algumas coisas podem ser apreendidas dessas imagens:
1. Os todo-poderosos da América Latrina (e Espanha) na hora do aperto também sentem medo. São meros seres humanos, como você e eu. E, assim como nós, também serão comidos pelos vermes e não levarão nada consigo. A moça loira à direita na terceira foto, por exemplo, parece desconhecer que sua bolsa de grife não passará com ela para o além-túmulo.
2. Os governantes latrino-americanos transparecem sua covardia e falta de postura pública adequada de maneira muito clara nos momentos de crise. Quem dera fosse apenas durante os terremotos.
3. Quando os simpatizantes de Pinochet retornam ao poder a Terra mostra seu desagrado.
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Falta de Vergonha na Cara!

Esra Ersen - 27ª Bienal de São Paulo
Foto: Olegario Schmitt
Não se iluda: no arco da nossa porta verde-amarela, nem Gonçalves Dias, nem Bilac, mas Dante, Canto III do Inferno: “Deixai toda a esperança, vós que entrais”.
O Brasil não tem jeito. A realidade é esta. Aceitemo-na tal qual ela é: dura, fria, amorfa como os corpos do mais novo acidente aéreo.
O que fazemos quando um político investigado por corrupção toma posse? NADA. O que fazemos quando acontece mais um acidente aéreo? Continuamos tomando vôos no mesmo aeroporto e, assim como o presidente, manifestamos comiserações de alcova.
Todos sabem que nada acontecerá, porque nada acontece mesmo. E não acontece porque ninguém faz nada: nem você. Não acontece porque ninguém está nem aí: reclamamos e paramos em mão-dupla, devolvemos carteiras perdidas e jogamos lixo no chão. Tudo não passa de uma grande festa! Ôba! Ôba! Rouba! Rouba!
A grande maioria que estufa o peito e diz que o Brasil tem jeito está na verdade confundida: isto que chamam esperança não é nada mais do que ilusão. Portanto, abandonar toda a esperança já é um bom começo — o ceticismo niilista pode ser obscuro, desesperador e tristíssimo, mas certamente não é iludido.
Ilusão parece ser a droga do século, tomamos o tempo todo. Nos iludimos quando votamos pensando que “este sim será honesto”; nos iludimos quando pensamos que algo acontecerá aos corruptos quando nesse país as leis são criadas unicamente para o povo (e olhe lá). Ou você pensa ingenuamente que aqueles que criam as leis incluir-se-iam a si mesmos dentro delas?
Pois estou farto desse zum-zum-zum, dessa ladainha que não é nada mais do que simplesmente isto: ladainha. Estou cheio dessa população de carpideiras descontentes, frouxas e vis que, enquanto choram, espiam por baixo dos lenços.
Não temos líderes porque somos todos corruptos. Aquele mesmo senhor honesto que devolve a carteira com milhares de dólares também atravessa fora da faixa, joga lixo no chão e reclama quando a cidade alaga. Somos corrompidos no mais íntimo da nossa brasilidade: um povo torpe. Não fazemos nada porque somos desunidos e nos falta vergonha na cara, nessa nossa linda cara brasileira.
Aliás, nem sei do que estou reclamando, afinal, isso aqui não é a França!
Pois que sejam bem-vindos aqueles que chegam à Colónia. E abandonai toda a esperança, vós que entrais...
Sujeira

by Joe Lee
Ficou a impressão de que o artigo anterior está ali, sujando meu blog. E talvez a morte do gerúndio não valha tanto assim.
As moedas têm dois lados, às vezes têm duas caras (lesando a coroa em dobro).
Na vida contemporânea, anoréxica de heróis, parca de modelos ou exemplos, ser discípulo de Diógenes é tarefa cada vez mais ingrata, a "benevolência" governamental não passando de mera esmola atada a um fio.
Dessa forma, VOU ESTAR RISCANDO o artigo, no gerúndio mesmo, não na tentativa de ocultar um erro, mas na intenção justamente de admití-lo.
E aproveito a oportunidade para riscar também outras palavras:
Brasília
Corrupção
Desonestidade
Mau-Caratismo
Apatia
A questão é: dessa vez, estou riscando o erro de quem?
Meu Herói?

José Roberto Arruda, Governador do DF - Foto: Alan Marques
Leia abaixo a reportagem da Redação Terra:
O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, "demitiu", em decreto publicado nesta segunda-feira no Diário Oficial do Distrito Federal, "o gerúndio de todos os órgãos do Governo Federal". O gerúndio é uma forma nominal do verbo, invariável, terminada em "ndo", normalmente usada para expressar sentido de continuidade, por exemplo, estamos "providenciando". De acordo com o decreto de Arruda, o uso do "gerúndio para desculpa de ineficiência" está proibido a partir desta segunda nos órgãos do governo.
É, toda moeda tem dois lados mesmo. E quem rir por último, certamente estará rindo melhor...
gilda
a história de uma infanta nada infantil

Crianças vítimas das minas - Francesco Zizola
World Press Photo 1996
gilda, Seus Olhos e Seu Sorrisoera uma nega fulô
à qual chamavam de gilda.
e para ela rir gostoso
os três meninos faziam-lhe cócegas:
um na sola dos pés,
o outro no sovaco,
e o outro na barriga.depois um dedo no umbigo,
catar piolho na floresta miúda de pelos...
e aquele cheiro
de fruta suculenta e úmida
enchendo o ar
enchendo os sentidos
enchendo as cuecas...em troca
eles lhe davam
as suas sementes.e ela lhes devolvia
o seu olhar vazio
e o seu sorriso
sem dentes.
gilda e o Cobertorgilda foi para a capital com a família
ajudando a inchar a barriga
do cinturão da miséria.gilda sem sobrenome,
gilda inócua e sem história.para seus pais
era mais uma pedra
sobre a barriga,
mais uma barriga
sem pedra.gilda, por ser tão nada,
até de enterro foi poupada
e agora é uma ferida
soterrada pelas pedras.doze andares de concreto
da construção demolida.
um para cada ano
de sua vida sem alento.eis a anja tosca agora tapada
por um cobertor ainda mais frio
do que não teve em vida.gilda nunca ganhou aquilo que não havia:
amor numa barriga vazia
ou ajuda dessa gente sombria.sob os entulhos ninguém procurou
aquilo que não sabia existir...gilda, esquecida,
teve apenas o trabalho de sorrir
com seu sorriso sem dentes,
fechar os seus olhos vazios
e morrer de frio.
gilda e as Sementesmorreu gilda
com as sementes dentro
e ainda vivasai, aquela neguinha fulô
e seu sorriso sem dentes
ai, aquela neguinha fulô
e seu corpo doente.gilda dava aula de sacanagem
sem nunca ter ido à aula.
gilda era crack
em beberagem
e em enforcar
suas bonecas quebradas
e atirá-las do alto
dos seus doze anos.tão baixinho gilda estava
que nem se ouvia o barulho
do seu corpo caindo
do seu corpo fodendo
desmaiado.e sobre tudo pairava
ainda o seu sorriso sem dentes
como que para mostrar
que não era ela o doente.eram quatro crianças
que não brincam de roda.os três fazem um círculo
e fumam mais uma pedra.esquece-se da fome
esquece-se de gilda
esquece-se do frio.esquecido
mais um dia nasce
e os olhos não vêem mais nada.
In: O Amor & Outras Coisas Que Coçam, Ed. do Autor, 2003
Reppublica!

República (Houaiss)
s.f. forma de governo em que o Estado se constitui de modo a atender o interesse geral dos cidadãos
República Brasileira (Sinal dos Tempos Blog)
s.f. prostituta bêbada e nua caída de costas com as pernas abertas
ET, Phone Home
Entenda o plano de minutos da ANATEL

Caça-Níqueis
Trocando em miúdos, pelo que entendi da reportagem aí de cima, em vez de pagar R$ 0,14672 a cada quatro minutos (sistema de pulsos atual), se pagará por minuto R$ 0,09557 (plano básico) ou R$ 0,03667 (plano alternativo)¹.
Dessa forma, quatro minutos custarão R$ 0,38228 (aumento de 161%) e R$ 0,14668 (pasmem, sem aumento), respectivamente em cada plano.
Como os primeiros 3 segundos de sua ligação não serão cobrados, em quatro ligações furtivas, porém apaixonadas, você até conseguirá dizer "alô/eu/te/amo". Não precisa mais do que isso mesmo pra quem quer fazer economia.
Mas, se você passar desses três segundos de ligação, então é melhor aproveitar e caprichar no seu alô: "aaaaaaaaaaallllôôôôôôôôuuuuu, meu amoooouuuuurrrr...", porque serão cobrados por 30 segundos de ligação, mesmo que só leve 10.
Ah, sim, quase estava esquecendo, uma vez que a ANATEL defende os nossos interesess (sic!), a vantagem é que após esses 30 segundos você paga proporcionalmente, apenas pelo tempo que efetivamente fala: a cada 6 segundos, um décimo de minuto. Ele poderá custar até 161% mais caro, mas não nos convém reclamar pois, afinal, queríamos apenas pagar pelo tempo falado. Ninguém falou em "pagar menos", não é?
Nos sábados após 14h, domingos e feriados nacionais o dia todo e das 0 às 6h todos os dias, a cada ligação você paga 4 minutos, mesmo que só diga aquele "alô", mas pode falar pelo tempo que quiser. Ou seja, continuará exatamente a mesma coisa, exceto no plano básico que, não esqueçam, custará 161% mais caro.
Porém nesses dias e horários, já que você estará pagando mesmo, pode até aproveitar para recitar uns capítulos dos Lusíadas, ou ler todo o Evangelho de São Marcos: as companhias telefônicas são tão boazinhas que não se importam...
Enquanto isso, dizem as más línguas, como música de espera do telefone da ANATEL está tocando a marchinha, mui nacionalista, do João de Barro:
Yes! Nós te..mos bananas
Bananas pra dar e vender
Banana menina, tem vitamina
Banana engorda
E faz crescer!
Segregação Sexual

Tule Lake Segregation Center
A segregação sexual se alicerça em diversos princípios, todos eles defendidos como fundamentalmente indiscutíveis e baseados em dogmas, leis escritas ou consuetudinárias e tradições políticas, não passando de meros pretextos utilizados unicamente para a obtenção e exercício do poder.
Por questões matemáticas e estatísticas, se a luta pelo poder incluísse a totalidade dos seres humanos, as chances de cada homem alcançá-lo diminuiriam consideravelmente: melhor para os que necessitam disso é disputar com apenas 50% da população mundial. Além do mais, como seria possível aos homens lutar pelo poder se não houvesse ninguém para cuidar da casa e das crianças, não é mesmo?
Não exito em afirmar que, independentemente de qual assertiva que essa ou aquela nuance do sexismo utilize para justificar seus atos, a resposta justa será una: machismo.
Um dos argumentos para a separação entre mulheres e homens é o de que mulheres são impuras. Fato curioso, tendo-se em vista que todo homem nasceu das entranhas “imundas” de uma mulher, dessa forma sendo ele mesmo imundo e contaminado já na sua origem. Atente, no entanto, que isso não impede que ele se deite com ela, que chafurde na “imundície” e que se lambuze na “impureza”.
Outra “razão” utilizada é a de que mulheres são inferiores. Mas se as mulheres são assim tão inferiores, não deveriam ser capazes de gerar seres tão “infinitamente superiores” como os homens, por simples questão de lógica. Apesar de flores poderem efetivamente nascer na imundície, não seria correto afirmar que todas as flores nascem em chiqueiros, pelo mesmo motivo que as sementes não florescem nas pedras.
Também se justifica dizendo que mulheres são, por natureza, lascivas e insinuantes. Motivo mais do que suficiente para que se as mantenha distantes, é óbvio! Principalmente durantes certas atividades pois, do contrário, poderiam desvirtuar o intento do homem, distraindo-o, poluindo sua mente com pensamentos impuros. Nunca vi tamanha estultice: se quem tem os pensamentos impuros são os homens, estes é que deveriam ser afastados e proibidos de exercer essas atividades por terem pensamentos lascivos. É como dizer que se uma pessoa gosta de roubar objetos de ouro, todos os objetos dourados devem ser ocultados à presença dela, para que esta não incorra em erro. Dessa forma, se tal pessoa vier a errar, a culpa jamais será dela, mas unicamente do objeto que estava onde não deveria estar.
Tudo isso, no entanto, poderá até parecer pouco se considerarmos as culturas ainda mais extremistas que recorrem à excisão ou infibulação, onde as mulheres são literalmente mutiladas sexualmente. O motivo utilizado é que, do contrário, as crianças nascidas dessas mulheres seriam prenúncio de desordem e azar. No mundo, como conseqüência de tal prática, morrem em torno 600.000 mulheres por ano, sendo que 20.000 delas somente na França¹. Como nessas culturas não há o rito da emasculação, conclui-se que mais uma vez o ouro é ocultado do ladrão de jóias, não me permitindo visualizar desordem e azar maiores do que esses.
Mas, enfim, nescidades hão sempre de ser alicerçadas sobre argumentos também néscios, via de regra.
Ah, tempos, tempos, tempos! Desde sempre e até quando? Se for para segregar, por que é que não são segregados os que têm caráter dos que não o têm, os honestos dos desonestos, os justos dos injustos?
Deve ser porque muito poucos sobrariam em um dos lados...
¹ DAMASIO, CELUY R. H. - In: Revista Espaço Acadêmico - Ano I - Nº 03 - Agosto de 2001



